
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista
Toda que vez que chega em minha caixa de mensagens um poema novo de Rogério Rocha, minhas mãos coçam para resenhá-lo. Principalmente quando esse poema está incluído em uma nova obra para 2026. Assim esse incansável produtor lírico (muito parecido com a produção literária de Augusto Cassas, haja vista a abundância de temas e construções), já prepara material para lançar mais uma obra e o poema “Horizonte de Eventos”, está nele. Na verdade, este, além do poético, é um impacto filosófico ao adaptar um conceito da astrofísica como metáfora moral e existencial.
Acho Rogério diferenciado porque ele busca, a cada lançamento, incorporar em suas novas criações, algo que foge do analógico, que se supera em gênero, número e grau, isto é, a cada passo, sobe mais 10º na escala Richter, isto, novamente: a cada lançamento é um terremoto grau 10, nunca d’antes visto anteriormente. Esse é o milagre! Muito estudo, pesquisa e dom. Essa é a mágica clássica que garante a Rogério uma evolução imensa, até mesmo maior que as tentativas de lançar ao espaço, foguetes na base de Alcântara.
Sendo assim, este novo poema pergunta por um limite e, ao mesmo tempo, por um retorno possível, como se a consciência quisesse testar a borda do real para saber se há saída para aquilo que já se moveu demais. A imagem da luz que viaja sem fim e faz curvas em “distâncias impensáveis” desloca a ideia de destino fixo e sugere que até o que parece reto carrega uma geometria secreta, uma ética do desvio. Que ideias fantásticas. Mais fantástica ainda, é torná-las poesia.
E uma poesia forte e evidencial quando ele mostra que a vida aparece como um espaço de forças, e não como um roteiro. (É emocionante esse trecho). E olha a hermenêutica incrível quando ele mostra que um campo de escolhas e gravidades, em cada decisão, acaba por inclinar o tempo pessoal para diante, refazendo curvaturas que não voltam ao ponto inicial. Seria então, uma interpretação poética das curvaturas no universo, previstas pela "Teoria da Relatividade Geral", de Einstein, onde é descrito que a massa e a energia deformam o espaço-tempo, criando a gravidade e ditando a forma do cosmos?
Mutatis Mutandi, acredito eu, que o núcleo do poema está nessa convivência entre liberdade e lei. Por outro lado, antes de reler, achava que Rogério Rocha romantizava o livre arbítrio. Depois de pensar um pouquinho mais, descobri o néctar: ele o coloca dentro de uma física íntima em que toda escolha tem massa, todo afeto tem atração, todo erro cria órbita.
Quando diz que existem “dias de fuga do centro” e “manobras irreversíveis”, a linguagem empresta do cosmos uma gramática para narrar a psicologia. Isso chama para a mesma mesa o grande Espinosa quando afirma que o homem livre não é o que escapa das causas, mas o que entende a necessidade que o atravessa.
Claro que é impossível não arrumar um lugarzinho nesta grande mesa filosófica, também, para Nietzsche, onde ele ensina que é preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante, já que o poema faz do caos, uma matéria de construção e não uma falha.
À princípio empaquei na minha análise quando li a expressão “erros sem culpa”. Porém acabei por entender (depois que fui buscar em outro livros) que essa expressão é praticamente moderna porque separa a responsabilidade do tribunal, da vergonha e desloca o julgamento para um plano mais lúcido. Em vez de penitência, reconhecimento. Em vez de castigo, leitura do movimento.
Enfim, as pequenas partes que separei de “Horizonte de Eventos” - mesmo assim - confirmam Rogério Rocha como voz que combina precisão imagética com densidade reflexiva, “sem transformar filosofia em enfeite”, como me disse o poeta João Batista do Lago, ao me apresentar as obras de Rogério Rocha, há alguns anos.
E isso, mais do que nunca, se confirma nesse novo poema. Então, ao anunciar um livro novo para 2026, ele deixa a impressão de uma poética em expansão, capaz de converter ciência em metáfora moral e de manter, no centro do verso, aquilo que a vida mais cobra de qualquer um; que é aceitar que há limites, mas que ainda assim existe movimento. Parabéns confrade APB-MA.
O POEMA
HORIZONTE DE EVENTOS
(Por Rogério Rocha)
Ainda existe um limite qualquer
onde o mundo faça um retorno?
A luz viaja sem fim e ensaia
curvas em distâncias impensáveis.
O universo tem passagens sem portas,
fronteiras onde o tempo não nomeia
as horas.
Sendo a vida esse campo
de escolhas e gravidades,
inclina-se ao futuro
refazendo as curvaturas.
Há dias de fuga do centro,
manobras irreversíveis
erros sem culpa.
Mas há instantes plenos,
com o silêncio
de estrelas mortas
ou de um peso sem castigo.
O amor, por sua vez,
aceita o escuro, o vazio
e seus excessos,
o que é possível
para um corpo indeciso.
A sabedoria, enfim,
não evita o abismo;
aprende que a queda e
o movimento
respondem a uma ordem
complexa.
(Poema do livro novo. Deve sair em 2026).
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista.
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