
Por Sharlene Serra
Falar de encontros é fácil quando há data marcada.
O Natal passou, e com ele as mesas cheias, as vozes cruzadas, os risos ensaiados, as fotografias que tentam provar que “estávamos juntos”.
Mas quando a data se vai,
o que fica?
O Natal também revela solidões e o depois talvez revele com mais clareza.
Porque o brilho cessa, o movimento diminui
e aquilo que foi apenas tolerado em nome da celebração
volta a ocupar o espaço real dos dias comuns.
Há quem esteja só de fato.
Casa quieta, cadeira vazia, celular que não toca.
Essa solidão é fácil de nomear, quase sempre respeitada,
às vezes até acolhida.
Mas há outras.
Há quem esteja cercado de gente
e, ainda assim, se sinta só.
Gente que esteve presente, que cumpriu o ritual,
mas não encontrou escuta, não encontrou espelho, não encontrou repouso.
Esteve, mas não foi incluído.
Há solidões que moram dentro das famílias.
Na mesa que se esvazia sem diálogo.
No abraço que não alcança.
Na convivência que aceita aparências,
mas rejeita quem se é de verdade.
Há famílias que se permitem amar apenas em datas especiais.
Que se toleram em dezembro,
mas atravessam o resto do ano distantes, feridas, adiadas.
O afeto aparece como exceção,
quando deveria ser morada.
Há solidões antigas,
de quem aprendeu cedo a se virar sozinho
e hoje percebe que não queria apenas ter dado conta,
queria ter sido acompanhado.
E há as solidões dos hospitais,
que não terminam com o fim das festas.
Corredores longos, luz branca, espera contínua.
Gente que segue entre exames, notícias, orações silenciosas.
Famílias separadas por leitos, cidades, diagnósticos.
Ali, a ausência não é escolha, é circunstância.
E o desejo segue simples: saúde, tempo, volta para casa.
Há também solidões silenciosas, quase culposas,
de quem “tem tudo”, mas sente um vazio que não ousa confessar.
Porque como explicar ausência quando há companhia?
Como nomear carência quando houve reunião?
Muitas das solidões que atravessam o Natal
não nascem da falta de gente,
mas da ausência de atenção.
Do olhar que não se sustenta,
do celular que interrompe a escuta,
da conversa evitada quando alguém tenta, timidamente, existir.
O Natal não cria essas distâncias.
Ele apenas ilumina o que foi sendo adiado ao longo do ano.
E, quando ele passa,
o que foi iluminado continua ali, esperando cuidado.
Não se trata de quantas pessoas estiveram ao redor,
mas de quanta presença foi possível partilhar.
Não de quantas vozes falaram,
mas de quem realmente foi ouvido.
Não de laços aparentes,
mas de vínculos reais.
Sentir-se só depois do Natal não é ingratidão.
É consciência.
É o coração reconhecendo o que falta
não para acusar,
mas para lembrar que todo ser humano precisa de encontro:
consigo, com o outro,
com um lugar onde possa repousar sem se explicar.
Talvez o convite deste tempo, agora que a data passou,
lembrar do Natal e aprender com ele.
Oferecer presença nos dias comuns.
Abrir espaço quando não há celebração.
Sustentar o essencial quando o calendário silencia.
Às vezes, presença é apenas
sentar ao lado sem consertar,
ouvir sem corrigir,
ficar sem apontar erros,
estar sem invalidar,
apenas preencher o silêncio.
Nem toda solidão se resolve em uma data.
Mas toda presença verdadeira,
ainda que simples,
deixa um rastro de humanidade
que permanece.
Porque, no fundo,
o presente essencial não se embrulha
nem depende de época:
é saúde,
é amor que permanece,
é paz que alcança até quem está longe,
em mudança, internado ou em silêncio.
Algumas pessoas passaram o Natal sozinhas.
Outras passaram acompanhadas
e também estavam sós.
Reconhecer isso não nos separa.
Ao contrário:
nos aproxima naquilo que temos em comum,
a necessidade humana de vínculo, cuidado, sentido e pertencimento.
Que possamos escolher amar no cotidiano,
na escuta que não interrompe,
na presença que não se ausenta,
no cuidado que se repete
mesmo quando não há celebração.
Que o Natal não seja apenas uma data que passou,
mas um chamado silencioso
para que o amor encontre espaço
e permaneça em nós, todos os dias.
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