
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln.
Brigitte Bardot faleceu neste dia 28 de dezembro, aos 91 anos de idade. seu legado foi imenso, mas há duas coisas que a Plataforma Nacional do Facetubes decidiu discutir, em primeiro lugar. Uma, é a conhecida frase de filósofos existencialistas que aclamavam Bardot, "como ícone da liberdade absoluta”. Será que essa frase é real? Nas pesquisas foram encontradas evidências que sim. A frase tem um núcleo verdadeiro, mas pede precisão.
Isso porque, o existencialismo francês não a “canonizou” como tese; ele a tomou como fenômeno cultural do seu tempo, uma figura viva que colocava em crise a moral burguesa. O exemplo mais claro é Simone de Beauvoir, que escreveu em 1960 (texto publicado antes em 1959) um ensaio inteiro sobre Bardot (“Bardot and the Lolita Syndrome”), tratando a atriz como sintoma de uma juventude que queria “o absoluto” e vivia o risco e a vertigem do desejo fora das convenções.
Dizer “liberdade absoluta”, porém, soa mais como formulação de admiradores e comentaristas posteriores do que como um conceito existencialista rigoroso: na própria lógica existencial, liberdade nunca vem “pura”, porque cobra responsabilidade, limites do corpo, do mundo e do olhar do outro — e a Bardot, paradoxalmente, era o retrato da liberdade desejada e, ao mesmo tempo, da inacessibilidade e do aprisionamento pelo mito.
Aliás, no ensaio “Brigitte Bardot and the Lolita Syndrome”, Simone de Beauvoir não “mitifica” a atriz francesa como tese abstrata. Ela a toma como fenômeno social e pergunta porque aquela figura provoca, ao mesmo tempo, fascínio e repulsa. O texto começa observando a atriz na TV e a reação do público, e daí avança para uma leitura do “mito Bardot” como produto de época, atravessado por moralismo, imprensa, indústria do cinema e um novo modo de desejo. Beauvoir insiste que, para entender o que Bardot “representa”, importa menos a pessoa privada e mais a criatura imaginária construída e disputada por admiradores e detratores.
A espinha dorsal do argumento é a ideia de que o pós-guerra empurra a cultura para uma nova forma de erotismo: se a “mulher adulta” passa a habitar “o mesmo mundo” que o homem (trabalho, dinheiro, rua, autonomia), o cinema e a imaginação masculina passam a buscar distância e assimetria no modelo da “criança-mulher” (a “Lolita”), que reintroduz mistério e desigualdade pela idade, pela ingenuidade e pelo “instinto”. Bardot, para Beauvoir, seria o exemplar mais perfeito desse tipo ambíguo — simultaneamente infantil e sexualizado — e é justamente essa contradição que explica seu poder simbólico e as reações violentas que ela desperta.
Pois bem! Será que Brigitte Bardot, por sua vez, tenha encontrado realmente paz nessa tumultuada carreira? Em um longo depoimento ao Le Monde, ela confessou só existir um caminho para sua paz integral. Quando ela “se evade nos livros”. A partir daí, encontrar realmente alguma obra que tenha moldado o mito Bardot foi bem difícil já que tem a leitura como refúgio e reeducação do olhar.
Mas, na mesma entrevista ao “Le Monde”, ela disse, naquele momento, estar mergulhada nas páginas do escritor Christian Signol, a quem chama de “maravilhoso” e resume com um “eu adoro”, ligando essa preferência à busca de “verdades e simplicidades” e a uma aproximação da natureza.
É possível (apesar apenas dos detalhes de leitura nessa entrevista ao "Le Monde"), que Brigitte Bardot tenha se empolgado - pela abordagem real de Christian Signol em dois livros, especialmente: "A verdadeira felicidade", (Edição em francês) e "Os Caminhos das Estrelas/1998".
Vejamos: em “Les Vrais Bonheurs - "A Verdadeira Felicidade”/edição em francês -, Christian Signol escreve como quem desacelera o mundo para reaprender a enxergar. Não é um romance de trama acelerada, mas uma meditação-narrativa em que presente e passado se misturam a memórias de infância e a imagens recorrentes de água, árvores, estações, amanheceres e noites, como se a natureza fosse a última língua capaz de dizer o essencial. O livro insiste numa ideia simples e exigente: existe um “verdadeiro” contentamento que não vem de conquistas barulhentas, e sim da percepção da beleza que nos cerca — beleza que, segundo o próprio texto de apresentação do editor, pode “deslumbrar e acalmar” por carregar algo ancestral, quase uma memória profunda do humano.
Por outro lado, em "Les Chemins d'étoiles"/ Os Caminhos das Estrelas” (edição francesa de 1998), Christian Signol conduz o leitor por um romance de delicadeza cruel: no verão de 1942, à beira da Dordonha, o menino judeu Daniel é escondido por uma família de camponeses para escapar da perseguição nazista, e ali conhece Lisa, a filha da casa, uma criança de sensibilidade quase indizível, com dificuldade de se expressar — e é desse encontro, curto “de uma primavera à outra”, que nasce um amor infantil tão luminoso quanto condenado pela época. O que torna o livro memorável é o contraste que Signol sabe sustentar sem melodrama. A natureza generosa e os pequenos gestos de cuidado contra o ruído da guerra e da fatalidade, como se a inocência tentasse abrir, no mundo real, uma fresta de eternidade.
O mais honesto que se pode dizer, pelo que está documentado: o que marcou Bardot, na verdade, foram muitas leituras que prometeram silêncio, natureza e despojamento. O tipo de literatura que combina com a Brigitte tardia, já mais desconfiada do “progresso” e mais fiel ao abrigo da solidão.
Mas não foi na solidão que Brigitte Bardot morreu neste 28 de dezembro de 2025, aos 91 anos. Isso porque, ela teve uma vida que atravessou dois mitos difíceis de conciliar no mesmo corpo: o da “mulher mais desejada” do cinema europeu do pós-guerra e o da ativista que trocou o brilho da tela pela trincheira dos animais. A notícia reacende uma pergunta antiga, que sempre acompanhou suas fases: quem foi, afinal, a pessoa por trás da sigla “B.B.” — e por que ela decidiu virar as costas para a própria lenda?
Nascida em Paris, em 1934, Bardot começou pela disciplina — balé, formação rígida e o tipo de educação que pretendia conter o excesso — mas explodiu justamente quando a França e o mundo começavam a aceitar novas imagens de liberdade feminina. Sua consagração veio em 1956 com “Et Dieu… créa la femme” (“E Deus… Criou a Mulher”), filme que escancarou sensualidade e autonomia com uma naturalidade que chocava moralistas e fascinava plateias; a partir dali, ela se tornou exportação cultural, moda, comportamento e uma ideia de juventude que parecia impossível de domesticar.
Mas o que a imprensa chamou de “libertação” também virou perseguição. O assédio incessante de fotógrafos, a redução da artista a um corpo e a sensação de ser tratada como troféu aparecem, anos depois, como o outro lado do glamour: Bardot disse reconhecer “o que é ser caçada”, e esse sentimento de cerco ajuda a explicar por que, ainda no auge, ela começou a se retirar do mundo que a consagrou.
A virada pública tem um episódio simbólico: numa entrevista, ela narra o choque ao descobrir que uma cabra “de cena” seria abatida para um ritual familiar; comprou o animal na hora, levou-o consigo e dormiu com ele e uma cadelinha recém-adotada — uma espécie de gesto-instinto, mais forte do que o roteiro e do que o estrelato. Em 1973, Bardot deixou o cinema e passou a concentrar energia na causa animal, dizendo não ter qualquer nostalgia do set, porque havia encontrado uma “segunda vida” que lhe parecia mais verdadeira.
Em 1986, ela formalizou esse destino ao criar a Fondation Brigitte Bardot, dedicada à proteção e ao bem-estar animal; a instituição se apresenta como reconhecida de utilidade pública na França desde 1992 e ganhou musculatura para campanhas e resgates em escala, além de atuação política e jurídica em temas de maus-tratos e exploração animal. Em entrevista mais recente, Bardot descreveu a fundação como uma “máquina de guerra” do bem, relatando rotinas de decisões e trabalho contínuo e citando números na casa de milhares de animais acolhidos ao longo do tempo.
É justo que seus dois livros autorais de maior aceitabilidade voltem a ser topo de listas. Então, o Facetubes decidiu se antecipar e indicar as duas biografias que mais sucesso fizeram entre os fãs de Bardot. Na verdade, são duas pistas que aparecem com frequência. Uma, a própria voz dela e as obras feitas com acesso direto. Entre os livros assinados por Bardot, o mais conhecido é sua autobiografia “Initiales B.B.” Nesta obra, B.B. fala conosco sobre sua vida surpreendente e fora de qualquer padrão. O amor pelo cinema, os maridos, os amantes, o gosto pela transgressão, o sexo e o feminismo, as ideias políticas, a grande batalha em defesa dos animais. Para quem é curioso por cinema e por seus bastidores terá a oportunidade, ao ler o livro, de ter diante dos olhos um panorama completo da atividade profissional de Bardot.
Entre as biografias “por fora”, costuma ser citada a linha de trabalhos com cooperação/contato com seu círculo, como “Bardot: Two Lives”, de Jeffrey Robinson, apresentado por livrarias como fruto de acesso incomum à personagem. Na apresentação está escrito, resumidamente: "É difícil acreditar, mas a “sex kitten” que escandalizou as décadas de 1950 e 1960 com sua beleza inacreditável, sua marcante persona infantil nas telas e a falta de roupas, hoje já é uma octogenária. Há vinte anos, pela primeira e única vez, uma escritora teve acesso à mulher por trás do mito para contar sua história incrível. Agora, essa história é trazida para os dias de hoje."
Assim, o legado que Bardot deixa para o Mundo é complexo. O mesmo ícone que abriu portas para uma imagem moderna de mulher também acumulou polêmicas e condenações judiciais na França por declarações consideradas incitação ao ódio, o que dividiu a recepção pública nos últimos anos. Ainda assim, é difícil contar a história cultural do século 20 sem Bardot; nem entender a guinada contemporânea do “celebrity activism” sem lembrar que ela trocou, deliberadamente, o papel de fantasia global por uma vida quase reclusa, orientada por uma causa.
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