Domingo, 25 de Outubro de 2026 12:46
(xx) xxxxx-xxxx
Educação ACADÊMICAS

Você conhece o Brasil em que a canção narra como quem escreve um conto ?

Resenha sobre a belíssima obra de José Neres & Linda Barros sobre a canção/conto “Catimbau”, publicado na Revista Littera – Estudos Linguísticos e Literários (PPGLetras/UFMA, v. 16, n. 32, 2025).

03/01/2026 14h40 Atualizada há 10 meses atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Facetubes
arte: MHL com Ginai do FT.
arte: MHL com Ginai do FT.

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes

 A Editoria específica para estes estudos do Facetubes, debruçou-se por 3 dias consecutivos, a fim de analisar essa bela e realista peça literária assinada por dois membros da Academia Poética Brasileira, sendo que José Neres, a partir de Maio/2026, tomará posse como Vice-Presidente APB, seccional Maranhão; e, Linda Barros, Secretária Regional Executiva APB-MA, em cerimônia que se realizar nesse mês próximo, com a presença do presidente APB, jornalista e poeta Mhario Lincoln.

Antes, vale um adendo: a história cultural brasileira oferece inúmeros exemplos em que o poema pede música, ou em que a música devolve ao poema outra vida pública. O próprio artigo lembra casos de versos musicados e gravados: Drummond (“José”) e Bandeira (“Vou-me embora pra Pasárgada”) na voz de Paulo Diniz; Ferreira Gullar em leituras musicais de Fagner e Milton Nascimento; Florbela Espanca e Cecília Meireles também atravessadas por adaptações; e “Morte e Vida Severina”, de João Cabral, reimaginada como musical. São operações diferentes, mas todas sustentadas pela mesma crença prática de que ritmo é sentido em estado sonoro.

Continua após a publicidade

Há ainda a linhagem dos autores cuja escrita nasce já com ouvido interno, onde fronteira entre letra e melodia se torna porosa. O estudo lembra Vinícius de Moraes como caso emblemático dessa convivência de grandeza entre poesia e parceria musical, e aponta Cecília Meireles como poeta que faz da “canção” não só um tema, mas um modo de nomear e organizar livros e poemas, como se o repertório musical fosse também uma gramática de leitura.

Por fim, existe um Brasil em que a canção narra como quem escreve conto, mesmo quando não reivindica essa filiação. Mhario Lincoln, poeta e letrista, ao ler esse belo texto de José Neres e Linda barros, acrescentou: “(...) quando a letra se estrutura em acontecimentos e viradas, ela se aproxima do campo narrativo com muito mais naturalidade”. MHL tem razão. Basta ler os exemplos citados no artigo: “Triste Partida” (Patativa do Assaré, popularizada por Luiz Gonzaga) e as narrativas urbanas de Renato Russo em “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo”. “Catimbau”, nesse sentido, não é exceção: é prova.

 

Linda Barros (co-autora).

Pois bem! Nesse dossiê publicado na Revista Littera – Estudos Linguísticos e Literários (PPGLetras/UFMA, v. 16, n. 32, 2025), o estudo assinado por José Neres e Linda Barros se move com rara precisão entre crítica literária e escuta cultural, para demonstrar como a narrativa, quando atravessa linguagens, não apenas muda de roupa, como muda de pulsação. O artigo parte de uma constatação fundamental, quase óbvia e ainda assim pouco encarada com método: música e literatura caminham juntas há séculos, mas nem sempre pelo mesmo motivo, nem com a mesma promessa estética.

O recorte é exemplar porque escolhe um enredo trágico e popular, capaz de sobreviver fora do cânone sem perder potência. A história do vaqueiro Catimbau, morto ao tentar cumprir um desejo ligado ao amor por Rosinha.

Essa narrativa aparece em duas versões centrais: o conto “Catimbau”, de Humberto de Campos, publicado em 1932, e a canção homônima gravada em 1964 por Tião Carreiro e Pardinho. Nesse caso, o que se conserva é o núcleo dramático; o que se altera é o modo de produzir sentido, emoção e verdade narrativa.

Continua após a publicidade

O mérito do trabalho de Neres e Barros, está em não tratar a canção como “derivação menor” do texto literário, nem o conto como “origem soberana” da história. Na verdade, eles conseguem se organizar em etapas claras, revisitando a relação música/literatura ao longo do tempo, discutindo a possibilidade de letras de música integrarem a tipologia narrativa e, só então, cotejando aproximações e distâncias entre os dois “Catimbaus”.

A tese que sustenta a comparação exige lastro. Isto é, letras de música podem ser textos narrativos, desde que organizem acontecimentos, personagens, tempo, espaço e progressão dramática. Para isso, o artigo recorre a estudos de tipologia e análise textual, e lembra que uma narrativa pode contar direta ou indiretamente um acontecimento, real ou imaginário, abrindo espaço para que a canção, quando “conta uma história”, partilhe a mesma engrenagem básica do enredo. Tipo, exposição, complicação, clímax e desfecho. É nesse ponto que a música deixa de ser apenas “clima” e passa a ser estrutura.

 

José Neres (co-autor).

No conto de Humberto de Campos, a estratégia de verossimilhança se anuncia cedo porque o narrador abre com a reprodução de um telegrama, fixa um dia e, deliberadamente, não fixa o ano, produzindo a sensação de fato “documentado” e, ao mesmo tempo, irrecuperável como arquivo. O estudo lembra que essa ambiguidade não empobrece o conto; ao contrário, reforça aquilo que a teoria do gênero ensina sobre a fronteira móvel entre realidade e ficção. E reforça ainda a economia própria do conto, que tende ao impacto, à objetividade e ao deslocamento rápido rumo ao epílogo.

Quando a história migra para a canção, a composição dá a ela uma ética de memorização: versos e estrofes comprimem cenas, selecionam gestos e transformam o enredo em sequência cantável. Uma diferença expressiva, sublinhada no artigo, está na caracterização de Rosinha: no conto, o corpo da personagem é descrito com erotismo direto e funciona como motor de desejo; na canção, o desenho da relação é mais sintético, mais “de cena”, e até a posição social dos protagonistas se reconfigura, já que, em Humberto de Campos, eles não são vizinhos e o vaqueiro atravessa longas distâncias para vê-la.

 

Continua após a publicidade

Outra mudança decisiva está no papel de “Ventania”. Na letra gravada por Tião Carreiro e Pardinho, Ventania é o boi a ser laçado; no conto, Ventania é um rival humano, “campeiro famoso”, o que acrescenta uma camada de disputa profissional e orgulho público, com torcidas em oposição e uma tensão coletiva que empurra Catimbau para o gesto fatal. O beijo prometido por Rosinha, nesse desenho, não é apenas prêmio amoroso: vira combustível narrativo que intensifica o conflito e acelera o clímax.

Até o calendário altera a dramaturgia. A canção desloca a promessa para as festas de São João, abrindo a história para o ambiente festivo do junho brasileiro; o conto a coloca no horizonte do Natal e ainda mobiliza o peso devocional de datas de dezembro, para adensar a expectativa e tornar o cumprimento da promessa um gesto atravessado por rito e fatalidade.

No desfecho, as duas versões convergem no choque: a decapitação e o beijo na boca do morto. Mas divergem na textura: na canção, a recorrência do “ai” imprime lamento e antecipa tragédia; no conto, a cena é descrita com crueza e precisão quase física, sem fala de Rosinha, como se a narrativa retirasse do leitor qualquer abrigo lírico. É aí que o artigo conclui, com rigor, que a relação intersemiótica conserva o assunto e reorganiza o efeito, pois haverá sempre elementos que aproximam e elementos que distanciam os textos.

---------------------

 

VÍDEO-BÔNUS

-------------------------

 

Para ler o texto original: https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/littera/article/view/27051

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
JaimeHá 10 meses atrásBSB/DFAplausos de Pé, pela rica publicação.
Keila Marta Há 10 meses atrásSão LuísGosto de conteúdos assim, são oportunidades para a gente conhecer mais dos trabalhos e produções de confrades e confreiras. Gosto do que José Neres e Linda publicam por aqui. Parabéns ao casal! Sucesso!
alcina maria silva azevedoHá 10 meses atrásCampinas -SPUm casal talentoso que sempre nos enriquece com seus lindos trabalhos artísticos; Linda Barros e José Neres. Aplausos!
Juliana SaboyaHá 10 meses atrásBrasília DF O Maranhão é um celeiro de intelectuais que já superaram G Dias. Humberto de Campos. Os Azevêdo. Lisboa. Firmina e outros. Vamos trabalhar para levar esses nomes o mais longe...Neres e Linda não devem nada a esses.
Professora Maria de Lourdes Saraiva SaldanhaHá 10 meses atrásRosário MAOS dois estão escrevendo muito bem. Perfeito como estudo acadêmico. São orgulhos do nosso Maanhão.
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 10h01
17°
Chuvas esparsas

Mín. 13° Máx. 16°

17° Sensação
16.67 km/h Vento
91% Umidade do ar
100% (23.55mm) Chance de chuva
Amanhã (26/10)

Mín. 9° Máx. 19°

Chuvas esparsas
Terça (27/10)

Mín. 10° Máx. 19°

Tempo nublado
Ele1 - Criar site de notícias