
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
A Editoria específica para estes estudos do Facetubes, debruçou-se por 3 dias consecutivos, a fim de analisar essa bela e realista peça literária assinada por dois membros da Academia Poética Brasileira, sendo que José Neres, a partir de Maio/2026, tomará posse como Vice-Presidente APB, seccional Maranhão; e, Linda Barros, Secretária Regional Executiva APB-MA, em cerimônia que se realizar nesse mês próximo, com a presença do presidente APB, jornalista e poeta Mhario Lincoln.
Antes, vale um adendo: a história cultural brasileira oferece inúmeros exemplos em que o poema pede música, ou em que a música devolve ao poema outra vida pública. O próprio artigo lembra casos de versos musicados e gravados: Drummond (“José”) e Bandeira (“Vou-me embora pra Pasárgada”) na voz de Paulo Diniz; Ferreira Gullar em leituras musicais de Fagner e Milton Nascimento; Florbela Espanca e Cecília Meireles também atravessadas por adaptações; e “Morte e Vida Severina”, de João Cabral, reimaginada como musical. São operações diferentes, mas todas sustentadas pela mesma crença prática de que ritmo é sentido em estado sonoro.
Há ainda a linhagem dos autores cuja escrita nasce já com ouvido interno, onde fronteira entre letra e melodia se torna porosa. O estudo lembra Vinícius de Moraes como caso emblemático dessa convivência de grandeza entre poesia e parceria musical, e aponta Cecília Meireles como poeta que faz da “canção” não só um tema, mas um modo de nomear e organizar livros e poemas, como se o repertório musical fosse também uma gramática de leitura.
Por fim, existe um Brasil em que a canção narra como quem escreve conto, mesmo quando não reivindica essa filiação. Mhario Lincoln, poeta e letrista, ao ler esse belo texto de José Neres e Linda barros, acrescentou: “(...) quando a letra se estrutura em acontecimentos e viradas, ela se aproxima do campo narrativo com muito mais naturalidade”. MHL tem razão. Basta ler os exemplos citados no artigo: “Triste Partida” (Patativa do Assaré, popularizada por Luiz Gonzaga) e as narrativas urbanas de Renato Russo em “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo”. “Catimbau”, nesse sentido, não é exceção: é prova.
Pois bem! Nesse dossiê publicado na Revista Littera – Estudos Linguísticos e Literários (PPGLetras/UFMA, v. 16, n. 32, 2025), o estudo assinado por José Neres e Linda Barros se move com rara precisão entre crítica literária e escuta cultural, para demonstrar como a narrativa, quando atravessa linguagens, não apenas muda de roupa, como muda de pulsação. O artigo parte de uma constatação fundamental, quase óbvia e ainda assim pouco encarada com método: música e literatura caminham juntas há séculos, mas nem sempre pelo mesmo motivo, nem com a mesma promessa estética.
O recorte é exemplar porque escolhe um enredo trágico e popular, capaz de sobreviver fora do cânone sem perder potência. A história do vaqueiro Catimbau, morto ao tentar cumprir um desejo ligado ao amor por Rosinha.
Essa narrativa aparece em duas versões centrais: o conto “Catimbau”, de Humberto de Campos, publicado em 1932, e a canção homônima gravada em 1964 por Tião Carreiro e Pardinho. Nesse caso, o que se conserva é o núcleo dramático; o que se altera é o modo de produzir sentido, emoção e verdade narrativa.
O mérito do trabalho de Neres e Barros, está em não tratar a canção como “derivação menor” do texto literário, nem o conto como “origem soberana” da história. Na verdade, eles conseguem se organizar em etapas claras, revisitando a relação música/literatura ao longo do tempo, discutindo a possibilidade de letras de música integrarem a tipologia narrativa e, só então, cotejando aproximações e distâncias entre os dois “Catimbaus”.
A tese que sustenta a comparação exige lastro. Isto é, letras de música podem ser textos narrativos, desde que organizem acontecimentos, personagens, tempo, espaço e progressão dramática. Para isso, o artigo recorre a estudos de tipologia e análise textual, e lembra que uma narrativa pode contar direta ou indiretamente um acontecimento, real ou imaginário, abrindo espaço para que a canção, quando “conta uma história”, partilhe a mesma engrenagem básica do enredo. Tipo, exposição, complicação, clímax e desfecho. É nesse ponto que a música deixa de ser apenas “clima” e passa a ser estrutura.
No conto de Humberto de Campos, a estratégia de verossimilhança se anuncia cedo porque o narrador abre com a reprodução de um telegrama, fixa um dia e, deliberadamente, não fixa o ano, produzindo a sensação de fato “documentado” e, ao mesmo tempo, irrecuperável como arquivo. O estudo lembra que essa ambiguidade não empobrece o conto; ao contrário, reforça aquilo que a teoria do gênero ensina sobre a fronteira móvel entre realidade e ficção. E reforça ainda a economia própria do conto, que tende ao impacto, à objetividade e ao deslocamento rápido rumo ao epílogo.
Quando a história migra para a canção, a composição dá a ela uma ética de memorização: versos e estrofes comprimem cenas, selecionam gestos e transformam o enredo em sequência cantável. Uma diferença expressiva, sublinhada no artigo, está na caracterização de Rosinha: no conto, o corpo da personagem é descrito com erotismo direto e funciona como motor de desejo; na canção, o desenho da relação é mais sintético, mais “de cena”, e até a posição social dos protagonistas se reconfigura, já que, em Humberto de Campos, eles não são vizinhos e o vaqueiro atravessa longas distâncias para vê-la.
Outra mudança decisiva está no papel de “Ventania”. Na letra gravada por Tião Carreiro e Pardinho, Ventania é o boi a ser laçado; no conto, Ventania é um rival humano, “campeiro famoso”, o que acrescenta uma camada de disputa profissional e orgulho público, com torcidas em oposição e uma tensão coletiva que empurra Catimbau para o gesto fatal. O beijo prometido por Rosinha, nesse desenho, não é apenas prêmio amoroso: vira combustível narrativo que intensifica o conflito e acelera o clímax.
Até o calendário altera a dramaturgia. A canção desloca a promessa para as festas de São João, abrindo a história para o ambiente festivo do junho brasileiro; o conto a coloca no horizonte do Natal e ainda mobiliza o peso devocional de datas de dezembro, para adensar a expectativa e tornar o cumprimento da promessa um gesto atravessado por rito e fatalidade.
No desfecho, as duas versões convergem no choque: a decapitação e o beijo na boca do morto. Mas divergem na textura: na canção, a recorrência do “ai” imprime lamento e antecipa tragédia; no conto, a cena é descrita com crueza e precisão quase física, sem fala de Rosinha, como se a narrativa retirasse do leitor qualquer abrigo lírico. É aí que o artigo conclui, com rigor, que a relação intersemiótica conserva o assunto e reorganiza o efeito, pois haverá sempre elementos que aproximam e elementos que distanciam os textos.
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Para ler o texto original: https://periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/littera/article/view/27051
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