
UM ARTISTA
O sol estava quase se pondo para as bandas da Ponta do Bonfim, quando o doutor Maia, no seu sobrado na Rua Grande, é procurado por um rapaz. Era para ir correndo ver um moço que, desde de manhã, não se levantava da cama e parecia muito mal.
O médico vestiu o paletó e, depois de mandar um “Oh! cacete!”, tomou a rua, indo a pé mesmo até um sobrado que alugava quartos para rapazes na Rua dos Afogados.
Ao chegar ao destino, guiado pelo rapaz que fora lhe buscar, o Dr. Maia encontrou o pobre moço realmente deitado, com os olhos fundos, com cara de quem tem um mal, mas não físico.
Depois de 15 minutos de conversa, já o médico tinha em mãos a doença: era o que a medicina vinha chamando de depressão, e que não era senão o que os antigos chamavam de melancolia ou doença da alma.
O rapaz, com seus não mais que 30 anos, era de dar dó. Deitado, sem forças para se levantar da cama, nem para tomar um banho, dizia que queria sumir da vida.
O médico, que estava em horas para ir ao Teatro São Luís, para ver um espetáculo a que já havia assistido, não com a esposa, mas com uma moça que o acompanhava há pelo menos uns 7 anos. Sim, era sua amante. Como a esposa soube que o espetáculo era por demais engraçado, pediu ao esposo que a levasse. Agora, ali, diante do doente, pegou nas mãos do paciente e lhe disse, lembrando-se da peça:
– Olhe, meu rapaz! Vamos fazer o seguinte: tu vais tomar um banho, comer alguma coisa e ir assistir a um bonito espetáculo.
– Que espetáculo o quê, doutor? Senhor, eu tenho é que trabalhar hoje!
– Mas hoje, tu não vais. Vai, sim, mas assistir a um espetáculo, que vai te curar desse mal em que estás.
– Não posso! Tenho que ir trabalhar. Mandaram chamar o senhor aqui na certa foi para me dar um remédio, e eu poder ir trabalhar.
– Mas, meu rapaz, não existe remédio para a sua doença, que é da alma...
– Mas então...
– Faz o seguinte: toma um banho, come alguma coisa e vai assistir a um espetáculo de uma companhia vinda do Pará e que tem arrancado muitas gargalhadas no Teatro São Luís. Até o governador Benedito Leite se lavou na risada. É o Arlequim. Nunca ri tanto na minha vida. O ator que faz o papel do tal Arlequim é o diabo. Oh, sujeito danado. Eu fui há alguns dias e hoje vou de novo! – E com um risinho cínico. – Hoje vou com a família.
– Mas, doutor, já lhe disse. Não posso ir.
O doutor, já cansado daquela consulta, que só o atrasava, meteu a mão no bolso e tirou algumas cédulas.
– Toma. É para tu ires assistir. E vê se te miras no tal do Arlequim.
O doutor Maia já ia se levando, quando o paciente lhe segura pela mão.
– Doutor, não posso assistir o Arlequim...
– Mas, por quê? Vai lhe fazer muito bem. Por acaso, conhece a peça? Já assistiu?
– Conheço, mas nunca assisti.
Intrigado, o médico franziu a testa:
– Como assim?
Depois de se levantar um pouco da cama:
– Doutor, eu sou o Arlequim!
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