
Dino de Alcântara
Depois de um opulento jantar, no Palácio dos Leões, com algumas figuras da política maranhense, Humberto de Campos conversava animadamente com o chefe do executivo, o comandante Magalhães de Almeida, com um Havana na boca, dando umas boas baforadas, de frente para o Rio Anil. A lua, grandiosa no céu, dava ao poeta de Miritiba a certeza de que não havia no mundo um céu mais esplendoroso que o nosso.
Humberto, com uma xícara de café fumegando, perguntou ao comandante, assim que a primeira-dama se retirou para os aposentos, se o governador conhecia a anedota das duas cidades.
Franzindo a sobrancelha, o governador disse que não conhecia.
E Humberto:
– Não te contei ainda a anedota da mulher que poria um pé em Alcântara e o outro em São Luís?
O Comandante disse que a ele o cronista nunca tinha narrado essa história. E, de pronto, cobrou a narrativa.
Para isso, chegou a cadeira para mais perto do companheiro.
E Humberto, olhando para trás, para se certificar que a esposa do governador não tinha voltado...
– Essa anedota eu publiquei, mas acabei botando outra cidade, porque os leitores do Rio não iam entender.
E continuou:
– Numa roda de conversa num rico salão aqui em São Luís, logo que se proclamou a República, o tenente-coronel Viriato Bastos indagou a uma senhora viúva, muito desejada pela beleza com que envergava, mesmo tendo já atingido os quarenta anos, se ela desejava viver em Alcântara ou em São Luís. A senhora, alcantarense da gema, mas vivendo, desde quando se casara, em São Luís, disse que, se pudesse, viveria nas duas cidades. E completou:
– Se Deus me permitisse, eu poria um pé aqui e o outro na minha velha Alcântara.
E, curioso, o deputado Anselmo Curió indagou o Tenente-Coronel sobre a sua escolha: se na capital ou na Pompéia maranhense.
Com um risinho malicioso no canto da boca, o oficial maranhense disse que nem em São Luís, nem em Alcântara.
E a viúva:
– E onde ficaria, seu Viriato?
– Ora, onde mais? Claro está que eu ficaria no meio da Baía de São Marcos, num barco.
E, como os presentes indagassem o porquê?
Viriato Bastos completou:
– Ficaria no meio da baía, no meu barco, olhando para cima!
A risada de governador Magalhães de Almeida foi tão alta que até a primeira dama ouviu, morrendo de curiosidade da história escabrosa que certamente o marido tinha acabado de ouvir da boca do cronista.
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