
Socorro Guterres, vice-presidente regional da APB/RGN
Quando o "Bruxo do Cosme Velho" rompe com o Romantismo e espelha toda a verosimilhança do Realismo, ele nos entrega em menos de 100 páginas uma novela divertida e de refinada ironia, apesar do tema pesado que trata: O Alienista. A alcunha de bruxo do bairro carioca onde morava se deve a aura de mistério e genialidade atribuída a Machado de Assis. Escrita inicialmente como folhetim, em capítulos seriados para o jornal carioca A Estação , entre outubro de 1881 e março de 1882 e posteriormente publicada em livro na coletânea Papéis Avulsos, a narrativa expõe uma história passada no tempo do vice-reinado do Brasil, entre 1763 e 1815, na Vila de Itaguaí, interior do Estado do Rio de Janeiro.
Alienista era o psiquiatra da época, especialista em doenças mentais, ou seja, dedicado aos estudos dos alienados. O que é a loucura? Qual parâmetro determina isso? Quem é louco? Veio-me a mente na releitura desse clássico de Machado de Assis um paralelo com o Elogio da Loucura , de Erasmo de Rotterdam, sobretudo no que diz respeito a sátira e a ironia para questionar os limites da razão, da ciência e do poder social, pois essas obras utilizam a loucura como crítica para expor as contradições da sociedade e das instituições de suas respectivas épocas. Erasmo apresenta abusos e hipocrisias da Europa renascentista, enquanto Machado critica a autoridade inquestionável da ciência e o poder médico no cientificismo do século XIX, que procura explicar o mundo, característica pertinente ao momento em que Machado escreve o livro. Ainda no ensaio de Erasmo, a Loucura é personificada e fala diretamente ao leitor; já em Machado a loucura é protagonista indireta da história.
Mas voltemos ao Bruxo do Cosme Velho no conto em questão que tem como personagem principal o médico Simão Bacamarte, formado em Coimbra e Pádua, o qual recusa permanecer na Europa e assumir uma Reitoria de Universidade para retornar a Itaguaí, onde passa a alternar as curas com as leituras e para quem a ciência seria seu emprego único. Aos quarenta anos casou com Dona Evarista, viúva de vinte e cinco anos, não por afeto ou beleza, mas por ela dispor fisiologicamene de atributos que poderiam gerar muitos filhos, o que constatamos posteriormente não ocorrerá. Vendo que não havia em Itaguaí, ou mesmo no Brasil Colônia, uma casa de Orates, o médico decide criar um primeiro manicômio, "A Casa Verde", assim intitulada em alusão as suas inúmeras janelas, que pela primeira vez apareciam nessa tonalidade na cidade. O intento seria analisar o comportamento social dos dementes, que poderia, como um microcosmo, adequar-se a situações semelhantes em qualquer lugar do mundo; dividindo os loucos primeiramente em duas classes principais: os furiosos e os mansos e resolvendo, então, juntá- los na mesma casa, resolução que já "pareceu em si mesma um sintoma de demência".
Podemos resumidamente elencar quatro estágios em que o Dr. Bacamarte vai sustentar seus argumentos para acolher os alienados na Casa Verde. Inicialmente ele classifica como louco aqueles comumente conhecidos como tal, que fogem ao senso comum. Num segundo estágio, alega que "a razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia". Posteriormente, percebe que a maioria não pode ser louca, pois a loucura sempre foi uma exceção, assim liberta os "absurdos quatro quintos", ou seja, os 80% da população que já havia sido aprisionada por ele na Casa Verde devido apresentar algum distúrbio, e os loucos, desta vez, seriam aqueles em perfeito equilíbrio das faculdades mentais. Porém, todos se mostram ligeiramente desequilibrados e, portanto, só existiria na sociedade itaguaiense uma pessoa perfeitamente equilibrada: Simão Bacamarte.
O leitor desse fantástico conto, ou novela, vai se encantar com múltiplos personagens sob a ótica de um narrador bastante diferente, observador e onisciente, que relata as crônicas de Itaguaí, constantemente referindo-se aos relatos dos cronistas da cidade, distanciando-se assim o contador de histórias dos fatos narrados. Dentre os múltiplos personagens que, poderíamos dizer, se revezam em internações na Casa Verde, destacam-se a esposa, Dona Evarista, o amigo e boticário Crispim Soares, o vigário do lugar, Padre Lopes, o barbeiro Porfírio (de cognome O Canjica) que lidera uma revolução contra o médico; todos com passagens pela Casa Verde, por motivos diversos. A esposa, por exemplo, é internada "por mania suntuária, não incurável, e em todo caso digno de estudo".
Sobre a revolução dos Canjicas, liderada por Porfírio, há um paralelo com a Tomada da Bastilha, como uma referência intertextual para a revolta popular que ocorre na cidade. Assim, a Casa Verde apresenta-se como a Bastilha, que na Revolução Francesa era o símbolo do absolutismo e da tirania do rei. Desse modo, em Itaguaí dá-se a "Bastilha da razão humana". Chamou-me a atenção especialmente o caso de um poeta, de perfeição moral e excesso de modéstia, a quem Simão Bacamarte, no seu racional método terapêutico, procurou incutir o sentimento oposto. O doente resistiu às terapias do doutor, este então apelou ao sistema de "correr matraca", isto é, apregoar pelas ruas que o tal era rival de Garção e Píndaro, dois grandes poetas, de épocas e estilos diferentes, mostrando-se esse recurso como um "santo remédio".
Esse livro de treze capítulos gera discussões sobre ser conto, devido ao foco único, ou novela, pela extensão, e é, sem dúvida, e com toda razão, um clássico da literatura, motivo de estudos, bem como leitura obrigatória nos exames vestibulares de diversas universidades brasileiras pela escrita de excelência do fundador da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis. Sandice seria, certamente, não lê-lo.
Referência:
Machado de Assis, Joaquim Maria. O Alienista . Porto Alegre_ , RS_ : L&PM, 2023.
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