
Jornalista Mhario Lincoln / Plataforma Nacional do Facetubes
A velha ideia de que a poesia “nasce” mais facilmente entre advogados e filósofos — por lidarem profissionalmente com linguagem, debate e interpretação — tem um fundo de lógica, mas falha quando vira regra. A inclinação lírica não é um privilégio de área: é um modo de atenção ao mundo. E atenção pode ser treinada tanto nas bibliotecas quanto nos canteiros de obra, nos laboratórios, nas planilhas de cálculo, na escuta clínica ou no silêncio de uma estrada. O que muda é a matéria-prima: uns chegam à metáfora pela palavra; outros, pela medida, pela observação e pelo choque diário com o real.
Quando um engenheiro civil olha uma ponte, ele não vê apenas concreto: enxerga tensões, limites, risco e beleza funcional; quando um florestal ou agrônomo percorre um território, aprende a ler ritmos invisíveis — ciclos, perdas, renascimentos. Essa pedagogia do concreto e do vivo costuma gerar um tipo de escrita menos “ornamental” e mais inevitável: a frase vem com a força de quem aprendeu a respeitar o que cai, o que cresce e o que não pode ser fingido. Por isso, nomes de formação técnica reaparecem na literatura não como exceção exótica, mas como prova de que sensibilidade não depende do carimbo “Humanas”.
Por isso é que Joema Carvalho é um desses nomes que desmontam, com elegância, a caricatura de que a lírica pertence “por natureza” ao território das Humanas. Engenheira florestal, doutora e escritora, argumentos e versos seguros, precisão de vocabulário e uma pulsação lírica que não depende de adjetivo fácil. Mas sim e principalmente, de sua visão. O próprio perfil publicado nesta PNFT a apresenta como autora de "Crônicas de Uma Jornada Florestal (2024)" e "Luas & Hormônios (2010; 2020)", além de colaborações e projetos literários, como membro da Academia Poética Brasileira (APB/PR) e colunista deste veículo digital.
Ora, dou-me o direito de afirmar que o equívoco começa quando se confunde formação com sensibilidade. Mas há que se reconhecer que a área de Humanas costuma oferecer, sim, um treino contínuo de linguagem, repertório e argumentação; mas a poesia não nasce apenas do manejo verbal, nem só do talento. Aliás, é usual se ouvir aquela frase fragilíssima: "escrevo desde tenra idade".
Nesse caso, há uma tremenda confusão entre talento puro e simples, com estudo e sincronização poética, fatos que só aí, dão maturidade lírica ao verso ou à prosa. Por isso, a poesia nasce do modo como se percebe o mundo, do tipo de silêncio que se sabe ouvir e, a partir daí, com muita leitura existencial, técnicas e intempestividade, ao longo do tempo. Esses fatores, então, acabam por moldar a capacidade de dar forma ao que parece disforme.
Deste modo, profissões técnicas, ao contrário do estereótipo, educam uma atenção poderosa: quem vive entre cálculo, campo, matéria, risco e método aprende a respeitar limites, a lidar com falhas, a medir consequências. E esse contato diário com o real — duro, às vezes implacável — pode produzir um texto mais enxuto, mais honesto, mais inevitável.
Há também um ponto pouco dito: a técnica, quando bem vivida, bem estudada, ensina uma estética. No caso de Joema, a floresta lida com interdependência; engenharia civil lida com equilíbrio; a medicina com fragilidade; a química com transformação. São disciplinas que obrigam o olhar a reconhecer estrutura, processo e tempo.
A literatura, no fundo, pede o mesmo. Só troca instrumentos. É por isso que muitos autores de formação técnica escrevem com uma força particular: não porque fugiram da técnica, mas porque trouxeram para a palavra o rigor que a técnica exige.
No Brasil, o lastro é histórico. Euclides da Cunha, registrado como escritor, era também engenheiro e militar, construiu em Os Sertões uma obra em que observação, método e linguagem trabalham juntos para explicar um país — e não apenas para descrevê-lo.
Joaquim Cardozo, por sua vez, atravessou a fronteira com rara naturalidade: foi engenheiro estrutural e, ao mesmo tempo, autor na poesia e no teatro, num percurso que mostra como cálculo e imaginação podem compartilhar a mesma mão. Aliás, foi ele o homem que fez cálculos decisivos para obras de Oscar Niemeyer.
Já Moacyr Scliar, lembrado como romancista, contista e cronista, também teve formação e atuação na medicina, levando para a narrativa um senso de humanidade e de observação que a clínica cobra todos os dias.
Fora do Brasil, a mesma lógica se confirma com nitidez. O italiano Primo Levi, químico e escritor, fez da ciência não um enfeite, mas uma lente moral e literária: sua obra prova que o pensamento técnico pode produzir literatura de alto impacto humano, sem perder precisão. E Anton Tchekhov, que concluiu a faculdade de medicina enquanto já escrevia, virou um dos maiores contistas e dramaturgos da modernidade.
É nesse cenário que se inclui Joema Carvalho onde a técnica não a “afasta” da poesia — dá sustentação. Quando a literatura encontra alguém acostumado a lidar com sistemas vivos, com ciclos e rupturas, com o peso das escolhas e o custo dos erros, a escrita tende a ganhar uma qualidade que o diploma não garante, mas a experiência oferece, ou seja, muita densidade.
Vide, in litteris:
PARA CHARLES CHAPLIN (Poema inspirado em Smile)
Joema Carvalho (APB-PR)
sorria
mesmo quando o beijo
é nos lábios da fera
que esturra no ouvido
e anuncia um novo desafio
sorria
mesmo quando a inércia
preenche os espaços
e espreme a angústia
do que não se sabe
do que está por vir
sorria
quando a brisa entra pela única fresta
abre espaço para o raio de sol
que ilumina um momento
na lente da retina
que brilha através de lágrimas
duma fotografia
sorria
como opção de navegar
na certeza de que depois do quebrante
tem calmaria
águas profundas
e tudo por ser
independente de tempo
sorria
como opção de fluir
na doçura do néctar
de cada gota de realização
sorria
quando a vida lhe procura
abre a sua porta
a convida para dançar
na surpresa do inesperado
de tudo aquilo
que foi plantado
com inocência
e honestidade
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https://www.instagram.com/joemacarvalho_literatura
https://www.facebook.com/joema.literatura.
Livro da autora:
Luas & Hormônios
https://www.amazon.com.br/Luas-Horm%C3%B4nios-Joema-Carvalho-ebook/dp/B08P1Z987P
Crônicas de Uma Jornada Florestal (em português e em espanhol e em E-Book)
https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/cronicas-de-uma-jornada-florestal/
https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/cronicas-de-una-jornada-florestal/
https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/cronicas-de-uma-jornada-florestal-ebook-formato-kindle/
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