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Área de Humanas não é condição 'sine qua non' para formar um bom poeta ou escritor

Quando um engenheiro florestal ou agrônomo percorre um território, aprende a ler ritmos invisíveis — ciclos, perdas, renascimentos.

14/01/2026 às 09h10 Atualizada em 15/01/2026 às 09h40
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln (autor)
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Joema Carvalho em ilustração mhl/Ginai FT
Joema Carvalho em ilustração mhl/Ginai FT

Jornalista Mhario Lincoln / Plataforma Nacional do Facetubes

A velha ideia de que a poesia “nasce” mais facilmente entre advogados e filósofos — por lidarem profissionalmente com linguagem, debate e interpretação — tem um fundo de lógica, mas falha quando vira regra. A inclinação lírica não é um privilégio de área: é um modo de atenção ao mundo. E atenção pode ser treinada tanto nas bibliotecas quanto nos canteiros de obra, nos laboratórios, nas planilhas de cálculo, na escuta clínica ou no silêncio de uma estrada. O que muda é a matéria-prima: uns chegam à metáfora pela palavra; outros, pela medida, pela observação e pelo choque diário com o real.

Quando um engenheiro civil olha uma ponte, ele não vê apenas concreto: enxerga tensões, limites, risco e beleza funcional; quando um florestal ou agrônomo percorre um território, aprende a ler ritmos invisíveis — ciclos, perdas, renascimentos. Essa pedagogia do concreto e do vivo costuma gerar um tipo de escrita menos “ornamental” e mais inevitável: a frase vem com a força de quem aprendeu a respeitar o que cai, o que cresce e o que não pode ser fingido. Por isso, nomes de formação técnica reaparecem na literatura não como exceção exótica, mas como prova de que sensibilidade não depende do carimbo “Humanas”.

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Por isso é que Joema Carvalho é um desses nomes que desmontam, com elegância, a caricatura de que a lírica pertence “por natureza” ao território das Humanas. Engenheira florestal, doutora e escritora, argumentos e versos seguros, precisão de vocabulário e uma pulsação lírica que não depende de adjetivo fácil. Mas sim e principalmente, de sua visão. O próprio perfil publicado nesta PNFT a apresenta como autora de "Crônicas de Uma Jornada Florestal (2024)" e "Luas & Hormônios (2010; 2020)", além de colaborações e projetos literários, como membro da Academia Poética Brasileira (APB/PR) e colunista deste veículo digital.

 

Ora, dou-me o direito de afirmar que o equívoco começa quando se confunde formação com sensibilidade. Mas há que se reconhecer que a área de Humanas costuma oferecer, sim, um treino contínuo de linguagem, repertório e argumentação; mas a poesia não nasce apenas do manejo verbal, nem só do talento. Aliás, é usual se ouvir aquela frase fragilíssima: "escrevo desde tenra idade".

Nesse caso, há uma tremenda confusão entre talento puro e simples, com estudo e sincronização poética, fatos que só aí, dão maturidade lírica ao verso ou à prosa.  Por isso, a poesia nasce do modo como se percebe o mundo, do tipo de silêncio que se sabe ouvir e, a partir daí, com muita leitura existencial, técnicas e intempestividade, ao longo do tempo. Esses fatores, então, acabam por moldar a capacidade de dar forma ao que parece disforme.

Deste modo, profissões técnicas, ao contrário do estereótipo, educam uma atenção poderosa: quem vive entre cálculo, campo, matéria, risco e método aprende a respeitar limites, a lidar com falhas, a medir consequências. E esse contato diário com o real — duro, às vezes implacável — pode produzir um texto mais enxuto, mais honesto, mais inevitável.

Há também um ponto pouco dito: a técnica, quando bem vivida, bem estudada, ensina uma estética. No caso de Joema, a floresta lida com interdependência; engenharia civil lida com equilíbrio; a medicina com fragilidade; a química com transformação. São disciplinas que obrigam o olhar a reconhecer estrutura, processo e tempo.

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A literatura, no fundo, pede o mesmo. Só troca instrumentos. É por isso que muitos autores de formação técnica escrevem com uma força particular: não porque fugiram da técnica, mas porque trouxeram para a palavra o rigor que a técnica exige.

No Brasil, o lastro é histórico. Euclides da Cunha, registrado como escritor, era também engenheiro e militar, construiu em Os Sertões uma obra em que observação, método e linguagem trabalham juntos para explicar um país — e não apenas para descrevê-lo.

Joaquim Cardozo, por sua vez, atravessou a fronteira com rara naturalidade: foi engenheiro estrutural e, ao mesmo tempo, autor na poesia e no teatro, num percurso que mostra como cálculo e imaginação podem compartilhar a mesma mão. Aliás, foi ele o homem que fez cálculos decisivos para obras de Oscar Niemeyer.

Já Moacyr Scliar, lembrado como romancista, contista e cronista, também teve formação e atuação na medicina, levando para a narrativa um senso de humanidade e de observação que a clínica cobra todos os dias.

 

Fora do Brasil, a mesma lógica se confirma com nitidez. O italiano Primo Levi, químico e escritor, fez da ciência não um enfeite, mas uma lente moral e literária: sua obra prova que o pensamento técnico pode produzir literatura de alto impacto humano, sem perder precisão. E Anton Tchekhov, que concluiu a faculdade de medicina enquanto já escrevia, virou um dos maiores contistas e dramaturgos da modernidade.

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É nesse cenário que se inclui Joema Carvalho onde a técnica não a “afasta” da poesia — dá sustentação. Quando a literatura encontra alguém acostumado a lidar com sistemas vivos, com ciclos e rupturas, com o peso das escolhas e o custo dos erros, a escrita tende a ganhar uma qualidade que o diploma não garante, mas a experiência oferece, ou seja, muita densidade.

Vide, in litteris:

 

PARA CHARLES CHAPLIN (Poema inspirado em Smile)

Joema Carvalho (APB-PR) 

sorria

mesmo quando o beijo

é nos lábios da fera

que esturra no ouvido

e anuncia um novo desafio

sorria

mesmo quando a inércia

preenche os espaços

e espreme a angústia

do que não se sabe

do que está por vir

sorria

quando a brisa entra pela única fresta

abre espaço para o raio de sol

que ilumina um momento

na lente da retina

que brilha através de lágrimas

duma fotografia

sorria

como opção de navegar

na certeza de que depois do quebrante

tem calmaria

águas profundas

e tudo por ser

independente de tempo

sorria

como opção de fluir

na doçura do néctar

de cada gota de realização

sorria

quando a vida lhe procura

abre a sua porta

a convida para dançar

na surpresa do inesperado

de tudo aquilo

que foi plantado

com inocência

e honestidade

 

*****

Contato:

https://www.instagram.com/joemacarvalho_literatura

https://www.facebook.com/joema.literatura.

Livro da autora:

Luas & Hormônios

https://www.amazon.com.br/Luas-Horm%C3%B4nios-Joema-Carvalho-ebook/dp/B08P1Z987P

Crônicas de Uma Jornada Florestal (em português e em espanhol e em E-Book)

https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/cronicas-de-uma-jornada-florestal/

https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/cronicas-de-una-jornada-florestal/

https://caravanagrupoeditorial.com.br/produto/cronicas-de-uma-jornada-florestal-ebook-formato-kindle/

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Joema CarvalhoHá 4 semanas Curitiba, PRO retorno gerado por este texto me surpreendeu. Recebi comentários especiais pelo whatsapp, compartilho dois deles: "Às vezes estou destruída, mas procuro me vestir com o meu melhor sorriso e vou adiante". "Querida Joema parabéns pelo poema! É muito bonito, forte porém delicado, estruturado porém solto. "Sorria", sempre que possível e impossível! Excelente resenha do Mario Lhincol (está certo?)dando-lhe os créditos e os elogios merecidos,prezada Engenheira florestal, escritora e poetisa"
Joema CarvalhoHá 4 semanas Curitiba, PRAgradeço muito todos os que leram o meu poema. É mutio especial quando o que escrevemos toca quem lê.
Joema CarvalhoHá 4 semanas Curitiba, PRA.M.S Você me deixou emocionada. Comentários como o seu trazem sentido a minha escrita. Toda sorte do mundo para você em 2026. Tudo muda. Se movimnente! Troque a bebida por atividade física...vicia igual, mas faz bem!! Olá Dra Lucia, sim tem algo nesta linha. Encarar o desafio de frente, transforma. Tudo que li de e sobre Nietzsche gostei! Tutu Gomes "quando o poeta escreve com o ego/ deixa de ser poeta"...concordo! Com ego nada de criação acontece.
Maria Cristina Mortean Há 4 semanas Cambé-PrO texto introdutório é ótimo! Um elogioc aoc trabalho da Joema!
Prof. e psiquiatra, dra. Lúcia Camargo Correia CavalcanteHá 4 semanas Estado do RioA imagem do beijo nos lábios da “fera” que ruge e convoca para um novo desafio evoca a ideia de que o encontro com aquilo que nos ameaça ou nos desestabiliza é, paradoxalmente, também um gesto de aproximação e transformação. Essa tensão lembra profundamente Nietzsche, especialmente quando ele afirma que é preciso amar o próprio destino e abraçar o que é terrível na vida para que a criação de si mesmo seja possível.
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