
Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes*
Sem dúvida, o Maranhão se aproxima de um daqueles instantes em que a vida cultural deixa de apenas acontecer e passa a se organizar como legado. A Academia Maranhense de Ciências, Letras e Artes Militares (AMCLAM) anunciou o Projeto FELICAM – Feira de Livros das Academias de Letras do Maranhão, concebido para deslocar o eixo de visibilidade: não mais a presença à margem dos sodalícios em grandes eventos, mas um espaço próprio, permanente, estruturado e institucionalmente digno para expor, divulgar e comercializar a produção editorial dos imortais maranhenses, com a solenidade que a obra exige e com a proximidade que o leitor merece.
Essa ambição ganhou forma concreta na tarde e noite de 16 de janeiro, quando a AMCLAM sediou uma reunião que reuniu presidentes e representantes de diversas Academias Literárias do estado, com presença de instituições vinculadas à FALMA, por iniciativa do presidente da AMCLAM, Cel. Carlos Furtado.
O encontro teve um efeito raro: não apenas apresentou a FELICAM, mas provocou participação ativa, sugestões e encaminhamentos — como se, ali, o Maranhão acadêmico assumisse, de uma vez, que livro não pode depender apenas de entusiasmo; precisa de método, calendário e pacto institucional.
Dessa escuta coletiva, resultou a deliberação pela criação de uma Comissão Organizadora com representantes de diferentes academias e entidades (com liderança da AMCLAM e presença de instituições do interior e da capital), encarregada de levar adiante o planejamento.
Também ficou definido o local de realização: o Complexo Religioso Menino Jesus de Praga, no bairro da Cohama, em São Luís. A proposta se afirma, desde a origem, como inclusiva e de vocação ampla, além das propostas de lançamentos e comercialização de livros. Não só isso, prevê também, conferências, mesas-redondas, rodas de conversa e oficinas, somando apresentações musicais e circulação de obras de arte e artesanato — um desenho de feira que entende cultura como experiência e não como vitrine silenciosa.
A decisão enfrenta uma lacuna que o próprio mercado reconhece há décadas. A obra regional, mesmo quando madura e necessária, costuma perder circulação por falta de vitrine, de agenda pública e de condições econômicas mínimas para chegar ao leitor fora do circuito concentrado das capitais editoriais. Ao inverter a lógica, a FELICAM nasce como instrumento de política cultural aplicada.
Pela força do movimento, não será mais um evento decorativo, mas uma ferramenta estratégica para reafirmar o papel das academias como núcleos ativos de preservação e fomento da memória intelectual do estado, convertendo produção autoral em presença social.
Há uma razão estrutural para isso. É que feiras do livro são, por natureza, máquinas de encontro. O jornalista Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira, diante dessa ideia que se deve aplaudir, disse à reportagem: “é de grande importância essa atividade particular porque as feiras e bienais se tornaram espaços multiculturais, abertos à discussão de temas diversos, justamente por reunirem leitores e visitantes em torno da pluralidade de ideias e um ambiente que favorece diálogo e pertencimento cultural e o Maranhão, apesar de algumas feiras de livro importantes, ainda carecia de alguns valores estruturais o que eu espero que a FELICAM – Feira de Livros das Academias de Letras do Maranhão possa suprir essas deficiências”.
Mhario Lincoln tem razão. Basta atentar para o que José Saramago, disse, ao ser homenageado na 'Feira do Livro de Granada', “(...) a leitura não deveria ser tratada como obrigação, mas como devoção e prazer. A leitura é um virtuoso encontro, um diálogo entre sensibilidades(...)".
Nessa chave, o que a FELICAM propõe é decisivo, pois quer oferecer ao autor regional um lugar onde seu livro seja visto, ouvido e reconhecido, diante de um público real, num território que o acolhe como voz pública do Maranhão.
O coronel Furtado, um iluminado que o Maranhão ganhou a partir da AMCLAM, nessa área específica, e a FALMA, farão de tudo para que a feira alcance esse patamar, a partir da absorção de ideias vindas de outras experiencias vitoriosas.
Por essa razão, no desenho anunciado dia 16 de janeiro passado, a FELICAM pretende cumprir esse destino ampliado: abrir ao público a comercialização direta de obras frequentemente fora do circuito tradicional; apresentar o perfil acadêmico e o percurso intelectual dos autores, aproximando o leitor da pessoa que escreve; e promover debates voltados à história local e à preservação da memória cultural do Maranhão.
“A FELICAM não é um evento isolado, ela institui um canal permanente de preservação e difusão da memória intelectual do Maranhão”, destaca Carlos Furtado, presidente da AMCLAM. Essa frase não é de efeito. Ela funciona como síntese do projeto: o livro como patrimônio vivo, e a academia como ponte, não como torre.
Ao fim, o que se anuncia com a FELICAM é mais que uma feira. É uma mudança de escala na autoestima cultural. Ao devolver centralidade aos autores maranhenses, a AMCLAM reposiciona as academias no centro da vida intelectual do estado e cria um rito público de reconhecimento. “A FELICAM pode ser um lugar onde o livro deixará de ser prova de erudição para voltar a ser aquilo que sempre foi, no seu melhor e eu acredito ser; uma conversa, uma presença e uma comunidade”, completou o jornalista e poeta Mhario Lincoln.
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