Sábado, 14 de Fevereiro de 2026
20°C 27°C
Curitiba, PR
Publicidade

De volta às páginas do Facetubes, o poeta Raimundo Fontenele retoma a série “Memórias dos Mares do Sul”.

“Depois de um interregno prolongado, estou de volta com mais algumas narrativas do livro em preparo MEMÓRIAS DOS MARES DO SUL.”, RF

19/01/2026 às 09h55 Atualizada em 19/01/2026 às 23h39
Por: Mhario Lincoln Fonte: Raimundo Fontenele (autor)
Compartilhe:
Poeta Raimundo Fontenele
Poeta Raimundo Fontenele

ESTOU DE VOLTA

Raimundo Fontenele 

Claro que alguns dos leitores nem lembram mais onde estávamos quando interrompi os relatos. Alguns outros devem lembrar. Depois das aventuras e desventuras em Brasília e Curitiba eu segui viagem, sempre em frente, indo dar com os costados no belíssimo litoral de Santa Catarina. Mais precisamente na cidade de Balneário Camboriú. Encerrei minha estadia em Curitiba com o parágrafo que vem a seguir, e convido vocês amigos, leitores e amigos-leitores a continuarem comigo, fazendo essa viagem existencial, espiritual, mundana,  terrestre.

Continua após a publicidade

Tudo tem um prazo de validade na vida. E o meu prazo de vida em Curitiba estava vencendo.

Vai com Deus

Acontece que o meu filho Frederico, com muita baixa imunidade, certamente devido ao seu problema de hipotiroidismo, somando-se a isso as baixíssimas temperaturas curitibanas, vivia sempre doente das vias respiratórias. Seu pediatra nos aconselhou procurar um lugar de clima mais ameno e assim lá fomos nós, de armas e bagagens, para o Balneário Camboriú.

Em 1979 o Município de Balneário Camboriú contava com cerca de trinta mil habitantes. Uma típica cidade do interior, com a maioria das pessoas utilizando-se de bicicletas como seu meio favorito de transporte urbano.

As avenidas Central, Brasil e Atlântica compunham o núcleo central, tanto comercial quanto residencial, da cidade. Fui morar no terceiro andar de um prédio localizado na Avenida Brasil, em um apartamento amplo, a uma quadra da Avenida Atlântica, menos de duzentos metros da praia, atualmente uma das mais famosas e luxuosas do Brasil.

Mas naqueles anos setenta era uma cidade calma, provinciana até, todavia nos meses de verão a coisa mudava de figura. Estimava-se quase duzentas mil pessoas transitando por lá. As bicicletas davam lugar a inúmeros automóveis, vindo de todos os lugares que se possa imaginar: Rio, São Paulo, Goiânia, Florianópolis, BH, Recife, Fortaleza, e os cucarachas da pós fronteira sulina. Do Paraguai, Uruguai e sobretudo argentinos. Argentinos com seus valiosos pesos frente à moeda nacional. Alugando e comprando apartamentos, casas, edifícios. Uma grande farra que muitos argentinos faziam, desfilando em carros com chapas brancas das várias Intendências (o equivalente a nossas prefeituras), lá como aqui, “el peronismo también es corrupto”.

Continua após a publicidade

 Dias calmos, pacatos mesmo, dividido entre obrigações familiares, o escrevinhar de poemas e textos, buscando no reino das palavras o silêncio que eu precisava para a etapa posterior que era ver o mar. Sentado na areia da praia, os olhos naquele mundo de águas horizontais e verticais quanwo do quebrar das ondas, águas furta-cor, verde-oliva, azul-marinho, bolinhas de água brilhantes e translúcidas, natureza pura.

 

Município de Balneário Camboriú, nos anos 70/80

 

É dessa época o Poema do Balneário, que está no meu livro VENENOS, EditorAlcance, Porto Alegre, 1994:

 

POEMA DO BALNEÁRIO

Continua após a publicidade

numa mesa de bar

onde cabe todo esse universo

temos dó, ré mi

lá a música borbulhante

que afugenta carrascos

os inimigos  da vida

2

assim longe sem ver o mar

quando ele se torna mais real

e nos toca seus monstros marinhos

mergulho borbulha difuso é o sol

às duas horas da tarde

3

nos mares todo peixe é de areia

com suas escamas salgadas

seu universo vermelho

4

neste Balneário de sonhos

mar e mar sobre montanhas

toma-me o corpo uma indolência

grande-amarga serenidade

5

peixinhos miúdos pedregulhos

é no mapa das minhas mãos

que desvendo este mundo

 

Quase um ano depois dessa vida de maré mansa, pintou um lance. Tinha publicado há alguns meses, pela Editora Beija-Flor de Curitiba, selo do poeta e grande amigo Reinoldo Atem, o livro de poesia PRESENÇA que eu vendia esporadicamente ali na região. Brusque, Blumenau, Joinville, Itajaí… Era um perfeito mascate da literatura: punha os exemplares numa dessas bolsas pequenas a tiracolo, pegava o ônibus, descia na parada e ia à luta.

Numa dessas cheguei a Blumenau ainda cedo, tomei café na rodoviária e peguei um coletivo para o centro da cidade. Pode crer! Pintou uma chuva daquelas de sapo pedir canoa. Quando diminuía, eu me esgueirava por baixo das sacadas dos prédios, quase roçando pelas paredes e avançava. A chuva recrudesceu e tive que me abrigar numa lanchonete bem transada. Minha figura física, um mulatinho nato, destoava da clientela do local: aquela alemãozada parruda, bem vestida, mulheres lindas com suas rosadas bochechas, olhos verdes e azuis.

Eu chegava nas mesas distribuindo dois ou três livros, e levava um lero: falava que era um poeta maranhense, cumprindo a missão de levar a poesia daquele jeito, uma vez que órgãos públicos não me davam a mínima, e eu preferia ficar fora do esquema de editoras e livrarias.

 

Vendi quatro livros enquanto conversava com um cara que ficou solidário comigo, me deu o nome de um professor da faculdade de letras, e disse que eu me dirigisse até lá, o professor era legal e me ajudaria.

Dito e feito. Passava do meio dia quando deixei a faculdade com a sacola vazia, o bolso cheio e a alma contente. Procurei um restaurante e fiquei surpreso ao descobrir, numa placa do local, que eles estavam contratando atendentes, mas com um pequeno detalhe. Tinham que falar alemão ou nada feito. Aquilo me surpreendeu, a priori, mas depois compreendi ser normal. Afinal muitos descendentes falam ainda a língua original, além de alemães que vêm visitar parentes e outros apenas para conhecer o Brasil.

O garçom me estendeu o menu e eu pedi um chopão tamanho família e como prato principal um tal de  Bratwurst, que eu não tinha a mínima ideia do que fosse. Era uma das salsichas alemãs mais famosas, servida dentro de um pão ou acompanhada de salada de batata. Ora, eu pedi dentro do pão mas que também viesse a salada.

Ao pagar a despesa e caminhar para a saída lembrei das sábias palavras da minha santa mãezinha: “Pai e mãe é muito bom, barriga cheia é melhor”.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Raimundo Fontenele Há 4 semanas Barra do Corda MALais, atualmente vivo em Barra do Corda-MA, há 6 anos.
LaisHá 4 semanas Brasília DF Onde vc mora atualmente, poeta?
Luis CaldasHá 4 semanas São Luís MAGostei dessa artimanha de ir à Faculdade... inteligente.
Marlene PradoHá 4 semanas Curitiba PRHoje Caboriú está insuportável.
Marisa LealHá 4 semanas Teresina PiHistórias bem legais mesmo.Fontenele foi um poeta aventureiro. Ele falou que foi até hippye. Mas isso deve ter dado uma vivência muito grande para ele.
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
20°
Tempo nublado

Mín. 20° Máx. 27°

21° Sensação
2.06km/h Vento
98% Umidade
100% (18.9mm) Chance de chuva
06h02 Nascer do sol
07h00 Pôr do sol
Dom 30° 18°
Seg 27° 18°
Ter 30° 18°
Qua 28° 18°
Qui 28° 17°
Atualizado às 00h01
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,22 -0,09%
Euro
R$ 6,20 -0,05%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 381,005,50 -0,13%
Ibovespa
186,464,30 pts -0.69%
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Lenium - Criar site de notícias