
ESTOU DE VOLTA
Raimundo Fontenele
Claro que alguns dos leitores nem lembram mais onde estávamos quando interrompi os relatos. Alguns outros devem lembrar. Depois das aventuras e desventuras em Brasília e Curitiba eu segui viagem, sempre em frente, indo dar com os costados no belíssimo litoral de Santa Catarina. Mais precisamente na cidade de Balneário Camboriú. Encerrei minha estadia em Curitiba com o parágrafo que vem a seguir, e convido vocês amigos, leitores e amigos-leitores a continuarem comigo, fazendo essa viagem existencial, espiritual, mundana, terrestre.
Tudo tem um prazo de validade na vida. E o meu prazo de vida em Curitiba estava vencendo.
Vai com Deus
Acontece que o meu filho Frederico, com muita baixa imunidade, certamente devido ao seu problema de hipotiroidismo, somando-se a isso as baixíssimas temperaturas curitibanas, vivia sempre doente das vias respiratórias. Seu pediatra nos aconselhou procurar um lugar de clima mais ameno e assim lá fomos nós, de armas e bagagens, para o Balneário Camboriú.
Em 1979 o Município de Balneário Camboriú contava com cerca de trinta mil habitantes. Uma típica cidade do interior, com a maioria das pessoas utilizando-se de bicicletas como seu meio favorito de transporte urbano.
As avenidas Central, Brasil e Atlântica compunham o núcleo central, tanto comercial quanto residencial, da cidade. Fui morar no terceiro andar de um prédio localizado na Avenida Brasil, em um apartamento amplo, a uma quadra da Avenida Atlântica, menos de duzentos metros da praia, atualmente uma das mais famosas e luxuosas do Brasil.
Mas naqueles anos setenta era uma cidade calma, provinciana até, todavia nos meses de verão a coisa mudava de figura. Estimava-se quase duzentas mil pessoas transitando por lá. As bicicletas davam lugar a inúmeros automóveis, vindo de todos os lugares que se possa imaginar: Rio, São Paulo, Goiânia, Florianópolis, BH, Recife, Fortaleza, e os cucarachas da pós fronteira sulina. Do Paraguai, Uruguai e sobretudo argentinos. Argentinos com seus valiosos pesos frente à moeda nacional. Alugando e comprando apartamentos, casas, edifícios. Uma grande farra que muitos argentinos faziam, desfilando em carros com chapas brancas das várias Intendências (o equivalente a nossas prefeituras), lá como aqui, “el peronismo también es corrupto”.
Dias calmos, pacatos mesmo, dividido entre obrigações familiares, o escrevinhar de poemas e textos, buscando no reino das palavras o silêncio que eu precisava para a etapa posterior que era ver o mar. Sentado na areia da praia, os olhos naquele mundo de águas horizontais e verticais quanwo do quebrar das ondas, águas furta-cor, verde-oliva, azul-marinho, bolinhas de água brilhantes e translúcidas, natureza pura.
É dessa época o Poema do Balneário, que está no meu livro VENENOS, EditorAlcance, Porto Alegre, 1994:
POEMA DO BALNEÁRIO
numa mesa de bar
onde cabe todo esse universo
temos dó, ré mi
lá a música borbulhante
que afugenta carrascos
os inimigos da vida
2
assim longe sem ver o mar
quando ele se torna mais real
e nos toca seus monstros marinhos
mergulho borbulha difuso é o sol
às duas horas da tarde
3
nos mares todo peixe é de areia
com suas escamas salgadas
seu universo vermelho
4
neste Balneário de sonhos
mar e mar sobre montanhas
toma-me o corpo uma indolência
grande-amarga serenidade
5
peixinhos miúdos pedregulhos
é no mapa das minhas mãos
que desvendo este mundo
Quase um ano depois dessa vida de maré mansa, pintou um lance. Tinha publicado há alguns meses, pela Editora Beija-Flor de Curitiba, selo do poeta e grande amigo Reinoldo Atem, o livro de poesia PRESENÇA que eu vendia esporadicamente ali na região. Brusque, Blumenau, Joinville, Itajaí… Era um perfeito mascate da literatura: punha os exemplares numa dessas bolsas pequenas a tiracolo, pegava o ônibus, descia na parada e ia à luta.
Numa dessas cheguei a Blumenau ainda cedo, tomei café na rodoviária e peguei um coletivo para o centro da cidade. Pode crer! Pintou uma chuva daquelas de sapo pedir canoa. Quando diminuía, eu me esgueirava por baixo das sacadas dos prédios, quase roçando pelas paredes e avançava. A chuva recrudesceu e tive que me abrigar numa lanchonete bem transada. Minha figura física, um mulatinho nato, destoava da clientela do local: aquela alemãozada parruda, bem vestida, mulheres lindas com suas rosadas bochechas, olhos verdes e azuis.
Eu chegava nas mesas distribuindo dois ou três livros, e levava um lero: falava que era um poeta maranhense, cumprindo a missão de levar a poesia daquele jeito, uma vez que órgãos públicos não me davam a mínima, e eu preferia ficar fora do esquema de editoras e livrarias.
Vendi quatro livros enquanto conversava com um cara que ficou solidário comigo, me deu o nome de um professor da faculdade de letras, e disse que eu me dirigisse até lá, o professor era legal e me ajudaria.
Dito e feito. Passava do meio dia quando deixei a faculdade com a sacola vazia, o bolso cheio e a alma contente. Procurei um restaurante e fiquei surpreso ao descobrir, numa placa do local, que eles estavam contratando atendentes, mas com um pequeno detalhe. Tinham que falar alemão ou nada feito. Aquilo me surpreendeu, a priori, mas depois compreendi ser normal. Afinal muitos descendentes falam ainda a língua original, além de alemães que vêm visitar parentes e outros apenas para conhecer o Brasil.
O garçom me estendeu o menu e eu pedi um chopão tamanho família e como prato principal um tal de Bratwurst, que eu não tinha a mínima ideia do que fosse. Era uma das salsichas alemãs mais famosas, servida dentro de um pão ou acompanhada de salada de batata. Ora, eu pedi dentro do pão mas que também viesse a salada.
Ao pagar a despesa e caminhar para a saída lembrei das sábias palavras da minha santa mãezinha: “Pai e mãe é muito bom, barriga cheia é melhor”.
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