Dino de Alcântara
O Jornalista Bento Azevedo sempre foi um homem de extrema coragem. Pautou-se sempre com zelo e ética na imprensa maranhense. Fosse quem fosse, rico ou pobre, político da situação ou da oposição, merecia o mesmo tratamento nos seus artigos.
Assim, nos idos de 19.., na cidade de ..., escalado pelo Jornal O Malho, para o qual iniciou a sua breve, mas profícua colaboração, para cobrir as atividades da Câmara Municipal, Bento Azevedo, após dois ou três artigos, percebeu que o parlamento municipal estava repleto de políticos desinteressados da coisa pública, tão ávidos que estavam da coisa privada. Eram, por assim dizer, representantes do seu próprio bolso.
No sétimo artigo, o brilhante jornalista, já tinha provas de que seis dos 12 vereadores eram corruptos de carteirinha, chamou os vereadores de famigerados diante do erário público. Mas, como não tinha munição para lançar os outros seis parlamentares na mesma lama, tomou a tese segundo a qual todos são inocentes até que se prove o contrário. Dessa forma, fechou o artigo com uma frase destinada aos que considerava corruptos:
– Tenho completa convicção de que 50% da câmara municipal está mergulhada no maior lamaçal de corrupção de que se tem notícia na história desta cidade.
Logo que saiu da tipografia, O Malho foi devorado pelos leitores do município. O texto duro de Bento Azevedo foi lido e relido nas repartições, nos cafés, nas ruas, etc.
O presidente da Câmara, chefe político da cidade, não gostou do artigo e só não mandou empastelar a imprensa livre, porque era um partido tido como democrático. Fez diferente. Entrou com uma ação na Justiça da cidade, exigindo, exigindo não, solicitando ao senhor Juiz Municipal “que se dignasse a mandar o jornalista sem-vergonha desdizer o que havia escrito”.
O juiz municipal, Dr. Severo Gomes, que não era na corriola do presidente do parlamento municipal, mas julgou justas as suas ponderações, mandou o escrivão, que também fazia serviços externos, ir até a sede do Jornal O Malho, com a “liminar”.
De posse do despacho do juiz, Bento Azevedo não teve alternativa, a não ser desdizer o que havia escrito no seu artigo. Deve ter lido Stanislaw Ponte Preta, cronista que muito apreciava, para redigir o seu novo texto. No dia seguinte, O Malho estampava na sua primeira página:
– Cometemos um equívoco ontem. 50% da câmara municipal NÃO está mergulhada no maior lamaçal de corrupção de que se tem notícia na história desta cidade.
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