
Por Vitória Duarte
“Há mais sabedoria em seu corpo do que em sua filosofia mais profunda.”
Friedrich Nietzsche
O corpo que existe, falta, sente, ama, guarda, recorda, sonha, cria, escreve, sobrevive, trabalha, adoece, cura...
Há algo de silenciosamente literário no corpo.
Essa foi a minha conclusão depois de ler um ensaio de Virginia Woolf intitulado “On Being Ill” (Sobre estar doente). Nele, Woolf demonstra que a literatura e a filosofia raramente reconhecem o corpo como o centro da experiência humana.
A doença, a fadiga, a febre e a dor são elementos que a cultura costuma ocultar como obstáculos, mas que, na verdade, constituem a essência de estar vivo. Mais profundamente, ela enfatiza que a experiência do corpo é, em consequência, narrativa. Cada dor, cada respiração alterada, cada impaciência física ou sensorial carrega um significado que desafia a palavra escrita e, ainda assim, exige expressão. A doença, em especial, nos obriga a um modo diferente de conhecimento: mais sensível, mais íntimo, porque o corpo doente revela relações invisíveis entre o tempo, o espaço e a identidade.
Depois de tudo isso, fiquei pensando repetidas vezes na importância que dou à matéria.
Eu, que me sinto mais inclinada aos assuntos da alma, me descubro ignorando a matéria como se ela não fosse importante apenas porque se desfaz… como se a matéria não fosse, na verdade, um portal para a alma. Esse é, acredito, um dilema que a literatura criou para muitas pessoas ao se concentrar quase exclusivamente no que acontece na mente; não aprendemos a construir uma perspectiva diferente sobre o corpo...é difícil vê-lo como um lugar de subjetividade e liberdade.
Excerto do ensaio “Sobre estar doente“ —Viginia Woolf
Ao mesmo tempo, é curioso como permitimos que certas partes do corpo sejam usadas como explicações para as dores da alma como se a escrita pudesse penetrar a carne e o espírito para traduzir o que sentimos.
Podemos observar isso nos versos da poeta Hilda Hilst:
Tanteo. A fronte. O braço. O ombro.
O sortilégio da omoplata.
Matéria-menina, tua fronte e eu,
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.
Ai, ai, ai, eu.
Enquanto caminhas, em lúcida altivez,
eu já sou o passado.
Nesses versos, o eu lírico toca o corpo da outra (testa, braço, ombro) como se tentasse compreender com as mãos aquilo que já se perdeu com o tempo. O corpo jovem da “menina-matéria” contrasta com a maturidade e a ausência da voz poética, que se reconhece como “passado” diante da “lúcida altivez” da outra.
Hilst também enfatiza o contato físico e, com esse gesto, posiciona o corpo como um espaço onde se percebem o desejo, o tempo e a perda. Ou, melhor dizendo, mostra que o corpo sente aquilo que a mente compreende tarde demais: o passar da vida e do amor.
Sinto
que em minhas veias arde sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.
Ou na escrita de Federico García Lorca, que entende o corpo como o cenário onde o espírito se acende, transformando o sangue — substância vital — em uma metáfora da paixão que o atravessa. As veias, por onde flui a vida, tornam-se o caminho do desejo; o sangue, uma chama vermelha, dá cor e temperatura ao sentimento.
Podemos dizer, com base em tudo isso, que o corpo é, sem dúvida, o centro de nossas preocupações e reflexões: o ponto de encontro entre o sentimento e o pensamento.
Mas Virginia Woolf acrescentaria algo contrastante: é fácil falar da dor da alma, da melancolia, da perda, dos sentimentos, mas é extremamente difícil falar da dor física.
Em “Sobre estar doente”, Woolf mostra que, quando sentimos dor, as palavras nos falham. Não conseguimos descrevê-la com precisão, nem mesmo a um médico. O corpo dói em silêncio, e a linguagem tão capaz de nomear o amor ou a tristeza se rompe diante da experiência física da dor. Talvez por isso sejam necessários os exames: para que a ciência possa ver o que a linguagem não consegue dizer; para que o corpo possa se traduzir em imagens, números ou resultados, já que as palavras não captam o que o corpo sente.
Estou aprendendo: um corpo não é só um corpo. Mesmo que se desfaça, é uma biblioteca feita de pele e silêncio...um lugar onde viveram muitas histórias que um dia estarão soltas ao vento.
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