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“O corpo como biblioteca”, mais um texto fenomenal da poeta e escritora Vitória Duarte para o Facetubes

Vitória Duarte é convidada especial da Plataforma Nacional do Facetubes (Maranhão)

24/01/2026 às 08h54 Atualizada em 26/01/2026 às 16h34
Por: Mhario Lincoln Fonte: Vitória Duarte (autora).
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Ilustração: Vitória Duarte
Ilustração: Vitória Duarte

Por Vitória Duarte

 “Há mais sabedoria em seu corpo do que em sua filosofia mais profunda.”

 Friedrich Nietzsche

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O corpo que existe, falta, sente, ama, guarda, recorda, sonha, cria, escreve, sobrevive, trabalha, adoece, cura...

Há algo de silenciosamente literário no corpo.

Essa foi a minha conclusão depois de ler um ensaio de Virginia Woolf intitulado “On Being Ill” (Sobre estar doente). Nele, Woolf demonstra que a literatura e a filosofia raramente reconhecem o corpo como o centro da experiência humana.

A doença, a fadiga, a febre e a dor são elementos que a cultura costuma ocultar como obstáculos, mas que, na verdade, constituem a essência de estar vivo. Mais profundamente, ela enfatiza que a experiência do corpo é, em consequência, narrativa. Cada dor, cada respiração alterada, cada impaciência física ou sensorial carrega um significado que desafia a palavra escrita e, ainda assim, exige expressão. A doença, em especial, nos obriga a um modo diferente de conhecimento: mais sensível, mais íntimo, porque o corpo doente revela relações invisíveis entre o tempo, o espaço e a identidade.

Depois de tudo isso, fiquei pensando repetidas vezes na importância que dou à matéria.

Eu, que me sinto mais inclinada aos assuntos da alma, me descubro ignorando a matéria como se ela não fosse importante apenas porque se desfaz… como se a matéria não fosse, na verdade, um portal para a alma. Esse é, acredito, um dilema que a literatura criou para muitas pessoas ao se concentrar quase exclusivamente no que acontece na mente; não aprendemos a construir uma perspectiva diferente sobre o corpo...é difícil vê-lo como um lugar de subjetividade e liberdade.

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Páginas de Proust -, a literatura se esforça ao máximo para sustentar que sua preocupação é com a mente; que o corpo não passa de um vidro transparente através do qual a alma espia de forma direta e clara, e, salvo uma ou duas paixões, como o desejo e a ganância, é ínfimo, insignificante e inexistente. Mas a verdade é justamente o contrário. O dia inteiro, a noite inteira, o corpo intervém;

Excerto do ensaio “Sobre estar doente“ —Viginia Woolf

 

Ao mesmo tempo, é curioso como permitimos que certas partes do corpo sejam usadas como explicações para as dores da alma como se a escrita pudesse penetrar a carne e o espírito para traduzir o que sentimos.

Podemos observar isso nos versos da poeta Hilda Hilst:

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Tanteo. A fronte. O braço. O ombro.

O sortilégio da omoplata.

Matéria-menina, tua fronte e eu,

Madurez, ausência nos teus claros

Guardados.

Ai, ai, ai, eu.

Enquanto caminhas, em lúcida altivez,

eu já sou o passado.

 

Nesses versos, o eu lírico toca o corpo da outra (testa, braço, ombro) como se tentasse compreender com as mãos aquilo que já se perdeu com o tempo. O corpo jovem da “menina-matéria” contrasta com a maturidade e a ausência da voz poética, que se reconhece como “passado” diante da “lúcida altivez” da outra.

Hilst também enfatiza o contato físico e, com esse gesto, posiciona o corpo como um espaço onde se percebem o desejo, o tempo e a perda. Ou, melhor dizendo, mostra que o corpo sente aquilo que a mente compreende tarde demais: o passar da vida e do amor.

Sinto

que em minhas veias arde sangue,

chama vermelha que vai cozendo

minhas paixões no coração.

 

Ou na escrita de Federico García Lorca, que entende o corpo como o cenário onde o espírito se acende, transformando o sangue — substância vital — em uma metáfora da paixão que o atravessa. As veias, por onde flui a vida, tornam-se o caminho do desejo; o sangue, uma chama vermelha, dá cor e temperatura ao sentimento.

Podemos dizer, com base em tudo isso, que o corpo é, sem dúvida, o centro de nossas preocupações e reflexões: o ponto de encontro entre o sentimento e o pensamento.

Mas Virginia Woolf acrescentaria algo contrastante: é fácil falar da dor da alma, da melancolia, da perda, dos sentimentos, mas é extremamente difícil falar da dor física.

Em “Sobre estar doente”, Woolf mostra que, quando sentimos dor, as palavras nos falham. Não conseguimos descrevê-la com precisão, nem mesmo a um médico. O corpo dói em silêncio, e a linguagem tão capaz de nomear o amor ou a tristeza se rompe diante da experiência física da dor. Talvez por isso sejam necessários os exames: para que a ciência possa ver o que a linguagem não consegue dizer; para que o corpo possa se traduzir em imagens, números ou resultados, já que as palavras não captam o que o corpo sente.

Estou aprendendo: um corpo não é só um corpo. Mesmo que se desfaça, é uma biblioteca feita de pele e silêncio...um lugar onde viveram muitas histórias que um dia estarão soltas ao vento.

 

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Silvana Meneses Há 3 semanas São Luís- MaParabéns Vitória, por esta reflexão e e perspectiva diferente de enxergar o corpo. À luz de Woolf e de Vitória.
Sharlene SerraHá 3 semanas Brasilia -DFLer Vitória é sentir o corpo vibrar. No texto vejo claramente o corpo como cenário vivo, as veias como caminhos que me atravessam e o sangue como poesia pulsante. A dor física se revela poema preso na alma, pedindo voz, sentido e libertação. Parabéns Vitória, eu a cada dia me orgulho de você e pela estrada linda que esta construindo na literatura. Aplausos de pé.
Alcina de FreitasHá 3 semanas Rio de Janeiro RJAo chamar o corpo de “centro”, a autora desloca a antiga separação entre mente e matéria e sugere que sentir e pensar não são vias paralelas, mas correntes que se cruzam na experiência concreta, no ritmo da respiração, no impacto do mundo sobre a pele, na memória que se instala nos gestos e na linguagem que nasce do vivido. Adorei.
Glória SantosHá 3 semanas Maranhão A liberdade de um Pais se percebe através de escritos como esse. O pior é que o pessoal hoje em dia tem medo de mulher intelectual e de mulher independente. Esse é um país dos mais difíceis.
Associação Botucatense de LetrasHá 3 semanas São Paulo Srs. Editores.. venho por meio de nossa academia parabenizar a escritora Vitória Duarte pela sensibilidade literária de grande monta.
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