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RAIMUNDO FONTENELE e as suas MEMÓRIAS DOS MARES DO SUL

A Saga, contada em capítulos.

28/01/2026 às 07h19 Atualizada em 28/01/2026 às 07h31
Por: Mhario Lincoln Fonte: Raimundo Fontenele (autor)
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Raimundo Fontenele
Raimundo Fontenele

Raimundo Fontenele 

Vai com Deus

Semana passada terminei o capítulo após pegar um rango num restaurante em Blumenau, lembram? Pois aqui vamos nós de volta ao livro, e ao capítulo que segue:

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Falei que pintou um lance, porém o lance não foi esse. Isso era meados de julho e fiquei sabendo que o IBGE abriu inscrições para contratar supervisores e recenseadores para o Censo de 1980. Aquele recenseamento, abrangente e completo, feito à cada dez anos.

Opa! Eu logo pensei: entrando em contato com tanta gente vou poder desovar esses exemplares do meu livro PRESENÇA e, por isso, mesmo achando-me em condições de competir por uma vaga de supervisor, preferi no entanto a de recenseador.

Inscrições feitas na Prefeitura Municipal, na data marcada para o teste fui lá e fiz, e nós, os aprovados, fomos para a última etapa do processo, antes de cairmos em campo a trabalho, que era a palestra com regras e instruções.  Isto pode, isto não pode, é feito assim e não  desse jeito. Cuidado com isso e com aquilo outro. É pra ser assado e, não, cozido.

Dentre as coisas expressamente proibidas constava não se aproveitar do contato com os habitantes para fazer qualquer negócio: vender quinquilharias e bugigangas, perfumes, enfeites, objetos de uso pessoal, esses badulaques nos quais, certamente, meu livro de poesias estava incluído.

Como eu não conhecia quase ninguém, não tinha acesso ao chamado pistolão ou jeitinho brasileiro de conseguir as coisas, de ser escolhido, por exemplo, para fazer o censo no centro da cidade, no meio das pessoas com dinheiro, eu não ia obedecer aquelas regras bobocas, ia tentar vender meu peixe, no caso, meus livros.

Mandaram-me pra PQP. Lá para onde o diabo perdeu as botas. A maior parte do meu trabalho todo na periferia. Na divisa com o município de Camboriú. Numa vila isolada de imigrantes japoneses. No cu do Judas.

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Para quem não sabe são dois municípios, duas cidades. Tem Camboriú e Balneário Camboriú.  O primeiro município tem seu povoamento iniciado por volta de 1822 e 1823, tendo sido emancipado do município de Itajaí, Santa Catarina, no ano de 1884. Antes foi região habitada pelos índios carijós.

A origem do nome é assaz folclórica, como todas as origens. O viajante, o forasteiro ao indagar onde ficava tal lugar recebia de pronto a resposta:­

— Camba o rio.

Contorna o rio, dá a volta em torno do rio. Camba-o-rio na pronúncia de imigrantes alemães terminou virando Camboriú. E foi desta antiga Camboriú  que em 1964 foi desmembrado o atual município Balneário Camboriú, com cerca de cento e quarenta mil habitantes que, no alto verão, chegam a mais de um milhão, somando-se moradores e turistas.

Pois é.  O recenseamento me levou a essa divisa entre os dois municípios próximo ao Rio Camboriú. Tinha um magote de mulheres japonesas, plantadoras de tomates, daqueles pequeninos, do tamanho dos olhinhos deles, e outras verduras de igual tamanho.

Aproximei-me a uma distância que pudesse ser ouvido, comunicando-lhes o meu objetivo. “Agente do governo!”, quase gritei, e a frase não surtiu nenhum efeito. Espião, agente secreto, algo que metesse medo ou respeito e elas nem aí.

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Uma delas deu alguns passos para a frente e falou que os homens não estavam ali. Chegariam mais tarde do trabalho, pensei que talvez estivessem trabalhando na construção civil, tão frenético era o ritmo de crescimento da cidade, irrigada principalmente pelos pesos argentinos.

Fiquei de voltar no dia seguinte, mas não o fiz. Eu não ia voltar para aquela zona remota, ia deixar alguns fora da contagem. Alguns brasileiros ou imigrantes não iam constar do censo. Governo é tudo ladrão e mentiroso, que mal fazia eu em mentir também um pouquinho? Dei sorte que meu supervisor não conseguiu descobrir a falcatrua e ficou tudo em paz.

Fui até premiado, vejam só. Acontece que um dos supervisores deu uma incerta numa área da zona central e, pimba!, descobriu que o censor daquela zona não tinha ido lá, porque ao confrontar os dados levantados pelo cavaleiro da triste figura com os seus havia uma real disparidade entre uns outros.

Deram um pé na bunda do sujeito e passaram a procurar outro para refazer todo o seu porco serviço. E a escolha recaiu justamente em mim que estava, naqueles dias, finalizando minha tarefa.

Um dos chefes veio falar comigo.

— Ô Maranhão, chega aqui, por favor.

Entreabriu mais um pouco a porta da sua saleta, entrei, sentei e, enquanto esperava que falasse, passou-me de relance na mente se ele tinha descoberto que deixei uns capirotos fora do censo, mas, que nada, ele deu foi uma ótima notícia.

— Seguinte: tive um problema aqui, e me vi obrigado a despedir um recenseador que tentou nos enganar, serviço mal feito, deixando de fazer as visitas e inventando dados da sua própria cabeça.

A coisa mudou de figura e eu fiquei mais tranquilo que água de poço. Ele continuou:

— Só temos duas semanas e temos que finalizar o Censo. Tu achas que podes dar conta do recado, assumindo o trabalho daquele pilantra que nos deixou  na mão? E é moleza, são nas principais ruas e avenidas.

“Só filé!”, quase pensei alto. Lembrei que ia poder oferecer meus livros, vender uma ou duas dezenas e, ainda por cima, faturar por dois com o bilhete azul que deram para aquele otário.

Já saí de lá abraçado numa nova pasta de recenseador, passei em casa, peguei uns poucos livros e caí em campo. Iniciei pela Avenida Central, uma das que tinha mais prédios. Mais edifícios por rua, mais apartamentos por edifício, isso sim era moleza. E não sair gastando sola de sapato como fizera antes.

O método era o seguinte: nas três primeiras residências colhia-se informações sucintas. Quantas pessoas, quais os sexos, masculino e feminino, apenas esses, a sociedade não tinha avançado para o descalabro total desse mundo pulverizado, negócio de identidade, binário, trans, LGBTQUISMAISATOCHA. Idade, escolaridade. Só isso. Na quarta residência aplicava-se um questionário que geralmente era causa de discussão, desconforto e princípio, em alguns casos, de bate boca mais acalorado.

Eram vários os motivos. Primeiro era a desinformação das pessoas. Nem todas tinham consciência de que aquele formulário não levava a lugar nenhum a não ser simplesmente contar a população e levantar dados de natureza apenas econômica e social.

Então tinha neguinho que possuía segredos, vida dupla, coisas que queria esconder. Outros malucos, geralmente mulheres, chegavam a suspeitar que o governo estava era querendo lhes tirar a casa, os bens. E no meio de tudo isso ali estava eu fazendo perguntas e mais perguntas, sim, porque esse questionário completo se compunha de cerca de oito páginas, e conforme a simpatia recíproca que houvesse, apresentava meu livrinho de poesia, PRESENÇA. Na verdade, além do que recebi do IBGE, consegui mais uns bons trocados com a venda dessa minha poesia.

O que não esqueço, e mais me marcou neste Censo, foi o que vivi quando estava recenseando na extensa Avenida dos Estados.

(CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA)

 

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Marcelo TaizHá 2 semanas Rio RJQuem leu a cronica de Fontenele nota como o pessoal de lá era ingnorante:"Eram vários os motivos. Primeiro era a desinformação das pessoas. Nem todas tinham consciência de que aquele formulário não levava a lugar nenhum a não ser simplesmente contar a população e levantar dados de natureza apenas econômica e social." Isso nunca acontecertia no Nordeste.
Prof. Carlos Jussara Camargo Correira de AraújoHá 2 semanas Ex-Diretor. São Paulo SPCaro senhor. O Censo atual não passa rigorosamente por sua análise humorística. Ultimamente temos feito um trabalho de grande performance, nem chegando perto do que era recencear naqueles tempos de difíceis mandos. Portanto, caro senhor, essa informação sua serve para provar que os governos daquela época nunca chegaram a ser responsáveis como se pretendia e o Instituto, naqueles idos, eram dirigidos por pessoas sem qualificação profissional a altura. Como peça de humor, aplaudo.
mARILU fREITASHá 2 semanas hYPPIE DOS ANOS 70/aRACAJU-SEOi cara. aDONDE EST[ÁS AGORA???
ROGERIO HENRIQUE CASTRO ROCHAHá 2 semanas São LuísComo sempre, uma leitura cheia de bom humor e com a marca registrada do excelente escritor que é o Fontenele.
Wellson A OiveraHá 2 semanas Coelho NetoÉ nobre Fonteca, fiquei surpreso ao saber que compostes as fileiras dos recenseadores. Mas pra contribuir com tua crônica, posso te afirmar que a desinformação da população quanto ao recenseamento ainda é a mesma.
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