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“VERDE QUE TE QUERO”, nova crônica de Eloy Melonio

Eloy Melonio é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

05/02/2026 às 21h20 Atualizada em 05/02/2026 às 21h37
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio (autor)
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Arte: Ginai
Arte: Ginai

Eloy Melonio(1)
“Adoro o verde!” Foi exatamente o que eu disse, voltando para casa na terça-feira (27/1), às 9h30, enquanto a segunda chuva do ano ameaçava não passar. Chovera a madrugada inteira, e por toda a manhã. E, para completar esse cenário, o rádio do carro tocou “Menino do Rio”. Pronto! Foi a gota d’água para eu e minha esposa cantarmos este trechinho pegajoso: “Adoro o verde”.


Para aplaudir a volta do verde, esse verso da canção “Menino do Rio”, interpretada por Baby Consuelo e tema da novela “Água Viva” (GLOBO/1980), caiu como um pingo de chuva sobre uma erva daninha.


Em casa, ouvi a música novamente. E aí, a surpresa. Nessa canção de Caetano Veloso, Baby canta: “Adoro ver-te”. Tudo bem! Ver o verde é o máximo. E eu adoro o verde de verdade. Mas, na canção é “ver-te”, rimando com "flerte" e “proteger-te”. Putz! Uma decepção passageira. Porque preferiria mil vezes "o verde”. O verde e a chuva era o tema da nossa conversa no carro. Duas chuvas (uma em cada semana), e o cenário já havia mudado em nossa cidade. Tudo verdinho, verdinho. Sim, as folhas das nossas árvores ficam verdes o ano inteiro. Mas, no nosso verão, as plantinhas rasteiras (o gramado das praças, o capim, as vassourinhas) ficam descoradas, pálidas, semimortas. Sofrem com o excesso de luz e calor. Porque nessa estação, o Sol trabalha pra valer.

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Com as duas chuvas, tudo mudou. Bichinhos voadores apareceram à noite na nossa sala, deixando no assoalho suas asinhas frágeis. Lá fora, as “vassourinhas” — ruderais por natureza — faziam a festa nos canteiros entre as vias das avenidas, nas ruas, nos terrenos baldios. Verdinhas de dar gosto! E todo mundo já começa a dizer: “O inverno chegou!”
Na última crônica de seu livro (De Peixes & Solidão/ Edições AML/2025), Ceres Fernandes aborda essa questão do tempo, aproveitando uma cena de “O Mulato” (1881), do maranhense Aluísio Azevedo. Para o grande naturalista, junho era o mês mais bonito do ano. Depois da descrição de seu cenário climático preferido, o escritor se revela um fervoroso amante do sexto mês do ano: “o vento, as manhãs alegres”. A referida autora, também maranhense, ao contrário, justifica sua preferência: “Agosto, sim, e aí vou discordar de Aluísio, é o mês mais bonito”.


Preferências à parte, o certo é que a chuva deu o sinal de sua graça. Se vai chegar chegando, ainda é cedo para se dizer. Exceto aqueles que curtem fazer previsão do tempo. Mesmo assim, sabe-se que vai chover. Um pouquinho hoje, outro pouquinho amanhã. Até a chegada das “águas de março fechando o verão” (Tom Jobim). Epa! Contrariando o compositor carioca, precisamos trocar o verbo desse verso. Sai “fechando”, e entra “abrindo”). Engraçado, não?


Vale ressaltar que o nordestino é um expert em tempo climático. Todo mundo sabe quando começa o inverno, quando termina o verão. Meti-me numa conversa dessa natureza e disse ao meu interlocutor: “Sim, vamos ter algumas chuvas, mas o inverno mesmo só em março”. Ele me olhou desconfiado. Tomara que eu esteja errado.
No hemisfério norte, a nevasca chegou com tudo. Lá, sim, é inverno pra valer. Mesmo assim, enquanto alguns tentam resolver problemas em suas casas ou com seus carros, outros aproveitam para esquiar na neve.


O site da Aena (operadora aeroportuária) pergunta: “Você sabia que o Nordeste tem só duas estações no ano?”
Pois é, para o nordestino: verão e inverno. E só! O verão (julho a dezembro) é o período mais ensolarado do ano, enquanto o inverno é chuva e chuva. E, assim — referindo-se ao verão —, a operadora anuncia: “(...) no Recife, em Maceió, João Pessoa e Aracaju, você desembarca direto em experiências inesquecíveis e aproveita o melhor dessa época do ano”.


Numa viagem a Washington, D.C. (EUA), no outono de 1992, fiquei dois dias com meu anfitrião, Jim Cooney, em Virgínia (na região metropolitana da capital), onde ele morava. Numa bela tarde, em sua casa, ajudei-o a recolher do chão as folhas caídas das árvores e levá-las para o incinerador. Não sem antes, a seu pedido, deitar-me no chão e vê-lo cobrir-me de folhas secas para uma foto. Amareladas e em tom marrom claro ou escuro, as folhas das árvores no outono americano são como um arrebol deslumbrante.
Mas, sinceramente, prefiro as verdes do nosso inverno. Coisa de nordestino, oxente!


[ eloy melonio | 28/1/2026 ]

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jaime aranhaHá 3 dias BSB/DFExcelente!!
Profa. Rossana Há 2 semanas São LuísMuito bom!Parabéns!????????????????????????????
JOSÉ João da CruzHá 2 semanas São LuísMuito boa. A sensibilidade e a coerência andando juntas o que, as vezes, é difícil acontecer. O humor na sugestão de mudança do verbo (abrindo por fechando) detalhes sutis do texto mas de muita relevância. Quando falei sensibilidade e coerência foi por essa colocação: “Sim, vamos ter algumas chuvas, mas o inverno mesmo só em março", coerência, o dito é por uma observação dos anos anteriores, sensibilidade poética: "São a águas de março "ABRINDO" o verão. Uma crônica que prende o leitor. Parabéns
Chiquinho França Há 2 semanas São Luís Muito bom!!!
Djalma ChavesHá 2 semanas São LuísBela crônica, poeta! O que dizer então da música “Verde”, interpretada por Leila Pinheiro? É um verdadeiro louvor à natureza.
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