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Vitória Duarte e a poesia do sussurro: quando o amor nasce no intervalo dos silêncios e o coração, enfim, lê o que os olhos não alcançam

Entre compasso e segredo, a maranhense depura a linguagem até o essencial e afirma uma modernidade íntima, em diálogo com Ana Cristina Cesar, Ana Suy e Rupi Kaur, sem perder a própria assinatura lírica.

06/02/2026 às 08h30 Atualizada em 06/02/2026 às 08h40
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln/Vitória Duarte
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Arte: mhl.
Arte: mhl.

“Um grande poema não pede aplauso; pede silêncio, exige reflexão”. (MHL)

Vitória tinha uns 14 anos quando a ela fui apresentado pela poeta e confreira Sharlene Serra. Li seus primeiros trabalhos que já – a meu ver – eram diferenciados. Isso porque acho (e até eu mesmo cometo esse erro; que quanto mais simples é a forma poética, com palavras escolhidas à dedo, certas para a ocasião), a entrega lírica para o leitor será com excelência: não gramatical, rebuscada, indelével. Mas indiscutível, inominável, como se a delícia de ler não estivesse nos temperos sofisticados, mas no gosto caseiro do falar interior.

Pois é assim que a nossa Poesia do século XXI vem se formando há tempos. Há uma nova geração de poetas que aderiu a essa modernidade não só pelo dom, mas pela pesquisa, por ler esses novos poetas, por aprender mais o uso das palavras e se tornar um deles.

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Nesse mundão de Deus poético, há no Maranhão tão tradicional, uma safra (jovens ou não) que aderiu a uma nova fórmula interpessoal e intransferível, de fazer poesia com uma precisão rara. Uma delas é, sem dúvida, Vitória Duarte. Isso ratifiquei ao receber e ler o poema abaixo reproduzido, que transforma o afeto em percepção física: “compasso”, “lateja”, “rumor”, “intervalo”...

 

O interessante – e ao contrário de uma poesia normal – é que nesse caso específico “o coração” não aparece como ornamento, ou completude, simplesmente, mas como instrumento de medida do indizível. É por isso que a simplicidade aqui, não é “simples continência” de linguagem, e sim depuração. Aí, a chave da mudança: existem poetas pré-modernistas que nunca chegam ao modernismo (refiro-me à atualidade, não à escola lírica "A" ou "B"), porque têm muitas dificuldades de, ao escrever, superar o ego, ultrapassar a forma, a dinâmica, a numérica, a harmonia, para conservar a desafetação.

No caso de Vitória, isso é claro quando o poema encena a experiência do amor como algo que não se anuncia ao mundo, não se impõe ao entendimento, não pede explicação. Ele acontece primeiro como som mínimo, quase um ruído de fundo, e só depois vira consciência. E como eu sempre a mim me imponho filosofar ao resenhar, há, nesse gesto citado, uma filosofia sutil: a vida interior não se prova por argumentos, mas por sinais; não se organiza por lógica, mas por fazer entender.

Por isso, é linda a emoção que senti lendo que o amor nasce “no intervalo entre dois silêncios”. Li milhares de poesias e centenas de livros e nunca tinha lido algo tão significativo (para mim). Esse verso desloca o tema do romantismo para uma espécie de fenomenologia íntima; ou seja, o que mais nos atravessa, muitas vezes, não chega com alarde, chega como passagem.

Aí que entra, de meritis,  o “sussurro” como ética e estética. Ética, porque rejeita a violência do espetáculo e a ânsia de validação. Estética, porque aposta no essencial, no que cabe em poucas linhas sem perder densidade. E é exatamente aí que a leitura emotiva minha faz sentido.

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Ao raciocinar desta forma, imediatamente minha cabeça me trouxe exemplos contundentes da nova fórmula poética (moderníssima e modificadora - temporal), quando lembrei da insofismável Ana Cristina Cesar (70/80) que já havia empurrado a poesia brasileira para uma intimidade moderna que parecia conversa e, ao mesmo tempo, armadilha delicada para o leitor — sobretudo em A teus pés, publicado em 1982. 

A diferença é que, enquanto Ana C. muitas vezes tensiona a confissão com cortes e desvios, Vitória prefere a transparência do pulso: não ironiza o sentimento, mas o torna audível. A modernidade, aqui, está menos no choque e mais na contenção — como se a poeta soubesse que, no século XXI, "a profundidade precisa disputar espaço com ruídos demais", como disse certa vez, em texto neste Facetubes, o crítico literário e poeta APB-PR, Olinto Simões.

E chama tais "atos necessários para uma boa poética", de “intervalo”. Nesse momento veio-me a escrita de Ana Suy, sobretudo na ideia de vazio (intervalos) como território fértil, trabalhada em Não pise no meu vazio. A própria apresentação editorial do livro organiza a experiência humana entre o que preenche e o que esvazia, como se a subjetividade fosse um eterno vai-e-vem constante. 

 

Mesmo eu fazendo algumas comparações plausíveis, ainda assim, Vitória é diferente, pois vislumbra o amor não como posse, porém, como atmosfera. Ratifica-se aqui: “e quando percebo/já estou dentro dele". Atente: é uma frase decisiva porque recusa o controle. Nela, o amor é menos escolha triunfal e mais reconhecimento tardio — quase um destino cotidiano, sem grandiloquência. E, quando a limpidez parece conversa direta com o leitor, vem-me a lembrança inevitável de Rupi Kaur e sua poética de cura e crescimento em “O que o sol faz com as flores”. Leia: "(...) peguei minhas palavras 'não posso', 'não vou', 'não sou boa o bastante', fiz uma fila e dei um tiro em todas elas (...)".

Vale, enfim afirmar, diante de todos os exemplos por mim citados, que Vitória tem um traço que a singulariza. É a musicalidade interna do português, essa engenharia de poucas palavras que, ainda assim, bate como coração e marca como relógio. Então, eu refleti e peço aos leitores que também reflitam, nessa máxima: o poema não pede aplauso; pede silêncio.

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Talvez seja esse o ponto mais moderno de todos. num tempo de excesso, ela oferece a coragem do mínimo — e, paradoxalmente, é aí que o texto ganha corpo e ultrapassa o corpo.

 

Mhario Lincoln

Editor, poeta e jornalista — Plataforma Nacional do Facetubes

 

O POEMA

Vitória Duarte

O coração lateja

como se houvesse um segredo

escondido no compasso.

Às vezes penso

que o amor é um rumor

que nasce no intervalo

entre dois silêncios.

Não é anúncio, é sussurro

e quando percebo

já estou dentro dele.  

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jaime aranhaHá 3 dias BSB/DFBelo artigo e poema!!!
Keila Marta Há 2 semanas São LuísMhario consegue por o poema num destaque sem igual. Que bonito poema acho que diz muito sobre o amor no seu estado mais puro, o encantar-se para depois se envolver, da subjetividade dos sentimentos para a entrega física, bem característico da adolescência, o coração bater mais forte por alguém que se acha interessante e que se apresenta como algo que se parece proibido porque é aquela fase que a maioria das meninas prometem se dedicar totalmente aos estudos e só namorar depois dos 18. Parabéns!
Socorro Guterres Há 2 semanas Natal/ RN Belo poema e excelente resenha. Parabéns aos autores!
Vitória Duarte Há 2 semanas São Luis Que leitura linda, meu querido Mhario!Lembro-me claramente de quando nos conhecemos. Seu olhar gentil para minha poesia me acompanhou desde sempre. O que mais gosto quando leio qualquer resenha ou crítica literária que você faz, é o fato de que sua crítica não nos aprisiona, e isso é raro no meio literário. P.s: aproveito o embalo, e a agradeço também aos demais comentários. Que a poesia seja sempre abrigo para todos (sem exceção)!
alcina maria silva azevedoHá 2 semanas Campinas- SP" O AMOR É UM RUMOR QUE NASCE NO INTERVALO",Profundo e lindo demais e o poema inteiro. Parabéns Vitória pela belíssima inspiração.Você é dotada da luz, que a poesia quer se apresentar à este mundo conturbado pela dor.
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