
“Um grande poema não pede aplauso; pede silêncio, exige reflexão”. (MHL)
Vitória tinha uns 14 anos quando a ela fui apresentado pela poeta e confreira Sharlene Serra. Li seus primeiros trabalhos que já – a meu ver – eram diferenciados. Isso porque acho (e até eu mesmo cometo esse erro; que quanto mais simples é a forma poética, com palavras escolhidas à dedo, certas para a ocasião), a entrega lírica para o leitor será com excelência: não gramatical, rebuscada, indelével. Mas indiscutível, inominável, como se a delícia de ler não estivesse nos temperos sofisticados, mas no gosto caseiro do falar interior.
Pois é assim que a nossa Poesia do século XXI vem se formando há tempos. Há uma nova geração de poetas que aderiu a essa modernidade não só pelo dom, mas pela pesquisa, por ler esses novos poetas, por aprender mais o uso das palavras e se tornar um deles.
Nesse mundão de Deus poético, há no Maranhão tão tradicional, uma safra (jovens ou não) que aderiu a uma nova fórmula interpessoal e intransferível, de fazer poesia com uma precisão rara. Uma delas é, sem dúvida, Vitória Duarte. Isso ratifiquei ao receber e ler o poema abaixo reproduzido, que transforma o afeto em percepção física: “compasso”, “lateja”, “rumor”, “intervalo”...
O interessante – e ao contrário de uma poesia normal – é que nesse caso específico “o coração” não aparece como ornamento, ou completude, simplesmente, mas como instrumento de medida do indizível. É por isso que a simplicidade aqui, não é “simples continência” de linguagem, e sim depuração. Aí, a chave da mudança: existem poetas pré-modernistas que nunca chegam ao modernismo (refiro-me à atualidade, não à escola lírica "A" ou "B"), porque têm muitas dificuldades de, ao escrever, superar o ego, ultrapassar a forma, a dinâmica, a numérica, a harmonia, para conservar a desafetação.
No caso de Vitória, isso é claro quando o poema encena a experiência do amor como algo que não se anuncia ao mundo, não se impõe ao entendimento, não pede explicação. Ele acontece primeiro como som mínimo, quase um ruído de fundo, e só depois vira consciência. E como eu sempre a mim me imponho filosofar ao resenhar, há, nesse gesto citado, uma filosofia sutil: a vida interior não se prova por argumentos, mas por sinais; não se organiza por lógica, mas por fazer entender.
Por isso, é linda a emoção que senti lendo que o amor nasce “no intervalo entre dois silêncios”. Li milhares de poesias e centenas de livros e nunca tinha lido algo tão significativo (para mim). Esse verso desloca o tema do romantismo para uma espécie de fenomenologia íntima; ou seja, o que mais nos atravessa, muitas vezes, não chega com alarde, chega como passagem.
Aí que entra, de meritis, o “sussurro” como ética e estética. Ética, porque rejeita a violência do espetáculo e a ânsia de validação. Estética, porque aposta no essencial, no que cabe em poucas linhas sem perder densidade. E é exatamente aí que a leitura emotiva minha faz sentido.
Ao raciocinar desta forma, imediatamente minha cabeça me trouxe exemplos contundentes da nova fórmula poética (moderníssima e modificadora - temporal), quando lembrei da insofismável Ana Cristina Cesar (70/80) que já havia empurrado a poesia brasileira para uma intimidade moderna que parecia conversa e, ao mesmo tempo, armadilha delicada para o leitor — sobretudo em A teus pés, publicado em 1982.
A diferença é que, enquanto Ana C. muitas vezes tensiona a confissão com cortes e desvios, Vitória prefere a transparência do pulso: não ironiza o sentimento, mas o torna audível. A modernidade, aqui, está menos no choque e mais na contenção — como se a poeta soubesse que, no século XXI, "a profundidade precisa disputar espaço com ruídos demais", como disse certa vez, em texto neste Facetubes, o crítico literário e poeta APB-PR, Olinto Simões.
E chama tais "atos necessários para uma boa poética", de “intervalo”. Nesse momento veio-me a escrita de Ana Suy, sobretudo na ideia de vazio (intervalos) como território fértil, trabalhada em Não pise no meu vazio. A própria apresentação editorial do livro organiza a experiência humana entre o que preenche e o que esvazia, como se a subjetividade fosse um eterno vai-e-vem constante.
Mesmo eu fazendo algumas comparações plausíveis, ainda assim, Vitória é diferente, pois vislumbra o amor não como posse, porém, como atmosfera. Ratifica-se aqui: “e quando percebo/já estou dentro dele". Atente: é uma frase decisiva porque recusa o controle. Nela, o amor é menos escolha triunfal e mais reconhecimento tardio — quase um destino cotidiano, sem grandiloquência. E, quando a limpidez parece conversa direta com o leitor, vem-me a lembrança inevitável de Rupi Kaur e sua poética de cura e crescimento em “O que o sol faz com as flores”. Leia: "(...) peguei minhas palavras 'não posso', 'não vou', 'não sou boa o bastante', fiz uma fila e dei um tiro em todas elas (...)".
Vale, enfim afirmar, diante de todos os exemplos por mim citados, que Vitória tem um traço que a singulariza. É a musicalidade interna do português, essa engenharia de poucas palavras que, ainda assim, bate como coração e marca como relógio. Então, eu refleti e peço aos leitores que também reflitam, nessa máxima: o poema não pede aplauso; pede silêncio.
Talvez seja esse o ponto mais moderno de todos. num tempo de excesso, ela oferece a coragem do mínimo — e, paradoxalmente, é aí que o texto ganha corpo e ultrapassa o corpo.
Mhario Lincoln
Editor, poeta e jornalista — Plataforma Nacional do Facetubes
O POEMA
Vitória Duarte
O coração lateja
como se houvesse um segredo
escondido no compasso.
Às vezes penso
que o amor é um rumor
que nasce no intervalo
entre dois silêncios.
Não é anúncio, é sussurro
e quando percebo
já estou dentro dele.
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