
Jornalista Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
Li a crônica - LITERATURA E ENVELHECIMENTO - do meu querido professor José Neres, imortal da Academia Maranhense de Letras e da Academia Poética Brasileiro, indicado para a presidência regional da APB, biênio 26/28; e me senti assim, incitado a continuar lendo.
Mas, desta feita, com anotações, essa velha mania que herdei das redações dos jornais nas quais trabalhei (em S. Luís, São Paulo e Curitiba) por mais de 50 anos. Aliás, como gostaria de ter aprendido com Neres, nessa época, a escrever com a calma (dele) de quem escuta o tempo.
Claro que o tema é envelhecimento e como tal é indispensável perguntar: até quando a cabeça continuará ‘conectando’ ideias com a mesma coragem de antes? E aí a memória puxa outro cronista gigante, Rubem Alves, que fez do envelhecer um assunto de linguagem, não de resignação, porque na escrita dele, o envelhecimento, vira matéria de beleza e lucidez, mesmo quando a vida já não promete pressa.
Haja “cismar a noite” lendo Neres ou lendo Rubem Alves. Não importa. O entendimento, a reflexão emanada deles, sim. Importa muito, como a de Alves que encosta a vida na beira d’água para respirar melhor ou “ter um horizonte como método para contemplar, tomar banho de mar, e seguir escrevendo como ‘inutilidade’ necessária, dessas que salvam o dia”. Ler isso é muito legal.
E se alguém acha isso, simplesmente, uma fuga por querer ‘dar um tempo para o cérebro cansado’, acha errado! A mim me parece mais – o que ampliou Neres e disse Alves - é, na verdade, ter mais (aumentar de forma madura), disciplina emocional.
Quando contemplo, nestes meus 72 anos, do 18º andar, lá longe, o Jardim Botânico de Curitiba, no olhar, já sinto que algo está sendo devolvido a mim: ritmo e organização de ideias, o que me leva, automaticamente, a pensar mais. Daí, não escrevo mais sobre a distância, o cansaço de chegar até lá, o trânsito, a aporrinhação da fila para entrar.
Mas penso diferente: nos jardins lindos, nas flores que vou encontrar por lá, no perfume do ambiente, nas pessoas legais que estarão no entorno, no famoso Palácio de Cristal, bem no centro do parque, até mesmo na pipoca quentinha ou na tapioquinha que a lanchonete do local vende com café.
Essa é a diferença que Neres e Alves falam com tanto equilíbrio em textos que, por sinal, são distintos. Um com ar pedagógico. Outro, como experimentação da própria vida. Mas ambos falam da velhice, enquanto ‘modus faciendi’.
Bom, além do amadurecimento normal, continuar escrevendo após os 70 anos deve levar o cérebro do escritor a um patamar bem diferenciado (ou para melhor ou para pior, segundo estudos relativos ao cérebro humano).
Todavia, há sempre alguém com mais idade, que continua no ofício e fica ainda melhor. Rubem Braga é outro exemplo, quase um símbolo desse ofício contínuo, feito de insistência e observação — mesmo quando a vida apertava.
Machado de Assis fechou o ciclo publicando no fim da vida, como quem coloca ponto-final sem fazer cena. Clarice Lispector também entregou obra tardia com a coragem de quem escreve apesar da dor e da pré-despedida sem melodrama, só risco.
Então penso, caro amigo Neres, que eu gostaria de desencarnar escrevendo, pois hoje é um dos maiores prazeres que tenho. E a coisa mais legal disso é que enquanto escrevo eu viajo no passado, abro páginas de livros, reencontro palavras de almanaques, de revistinhas em quadrinhos (li ‘helicóptero’ pela primeira vez numa revista “Tio Patinhas”) eu sonho. Eu desapareço, entende? Eu viro um Cristóvão Colombo. Eu incorporo os maiores descobridores do Mundo: Vasco da Gama, Fernão de Magalhães, Bartolomeu Dias, Pedro Álvares Cabral.
Na verdade e no frigir dos ovos, a literatura está cheia de autores que morreram deixando obra em andamento. Eu também quero seguir esses passos. Talvez alguém a termine ou jogue no lixo. Não importa.
Por isso esse tema levantado pelo caro professor José Neres me sensibilizou. No fundo, escrever após certa idade não é competir com o próprio auge; é negociar com o tempo de outro jeito. Alguns perdem velocidade e ganham precisão; outros reduzem o fôlego e aumentam o corte; quase todos descobrem que a disposição não cai de uma vez porque ela oscila, e a oscilação se administra com método. Assim, aos 72 (neste 2026), a pergunta mais honesta talvez não seja “até quando vou escrever?”, mas “qual é o meu pacto diário com a escrita para não deixar o amanhã me roubar o texto de hoje?”.
Obrigado, caros mestres cronistas.
Jornalista Mhario Lincoln, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
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