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A exposiva carta de Hilda Hilst para Carlos Drummond de Andrade. (Documento Histórico).

O gesto é relevante: não se trata só de “resgatar” uma carta bonita, mas de recolocar em circulação um documento que ilumina a oficina interior de Hilst — sua fome de conversa verdadeira, sua inquietação ética, sua disciplina de continuar quando tudo parece “inútil”.

06/02/2026 às 08h19
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes.
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 Lygia Fagundes Telles, Carlos Drummond de Andrade e Hilda Hilst. São Paulo, 1955. (Divulçgação original da carta).
Lygia Fagundes Telles, Carlos Drummond de Andrade e Hilda Hilst. São Paulo, 1955. (Divulçgação original da carta).

Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes.

A carta de Hilda Hilst para Carlos Drummond de Andrade, datada de 10 de agosto de 1962, funciona como um retrato de época e, ao mesmo tempo, como um autorretrato em movimento. Não há pose. Há uma escritora que agradece, confessa saudade, pede conversa “de corpo presente” e, sobretudo, expõe a oscilação íntima entre descrença e insistência, como se o ato de escrever fosse uma pequena teimosia contra a erosão do mundo. 
A circulação recente do documento, atribuída ao acervo drummondiano no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, recoloca essa voz num presente ruidoso, em que a vulnerabilidade costuma ser mercadoria; aqui, ela é método de consciência.

O centro emotivo da carta está na autocrítica sem espetáculo. A autora diz que o que escreve “parece pequeno, pretensioso e inútil”, mas continua. Esse “continuo” é mais que frase; é posição moral. Em 1962, Hilst já registra uma sensibilidade que a crítica, depois, reconheceria como parte de sua marca que é uma escrita em que o absoluto é desejado, mas nunca garantido; em que o gesto de criar é acompanhado pelo receio de ser insuficiente — e, ainda assim, não recua.

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Há também um segundo eixo, quase mais inquietante: a ideia de amar “até aqueles que não amam”, e o desconforto com a suspeita alheia de que isso seja “bondade maldosa” ou vaidade moral. A carta não responde com certeza; responde com dúvida. E é exatamente aí que ela ganha força jornalística como documento humano: não registra uma convicção pronta, registra uma consciência em julgamento, como se a autora submetesse a si mesma ao crivo que a vida pública costuma reservar aos outros.
Quando a carta menciona o impacto de Nikos Kazantzakis e de Lettres au Greco, o texto desloca a intimidade para um campo maior: a busca por sentido. A leitura que a “tomou de vida, esperança e amor” é narrada como iluminação, mas não como conversão fácil; é, antes, uma faísca que reorganiza o pensamento e dá linguagem ao que já fervia por dentro. Não por acaso, estudos acadêmicos sobre a dimensão do sagrado na obra hilstiana reproduzem e discutem essa correspondência como indício de uma espiritualidade conflitiva — menos doutrinária, mais existencial, atravessada por perguntas e por uma ética do excesso.

O circuito afetivo-literário aparece sem solenidade. A carta fala de Lygia Fagundes Telles, do convívio, da conversa “com muito amor” sobre a poesia de Drummond. Há ainda um dado de bastidor, recuperado em textos de divulgação. O encontro inicial entre Hilst e Drummond teria sido mediado por Lygia em 1952, informação atribuída ao livro Cartas Brasileiras, organizado por Sérgio Rodrigues e publicado pela Companhia das Letras. Se isso reconstrói o mapa social da literatura, também relativiza a fantasia do gênio solitário.
Nos últimos dias, perfis do Instituto Hilda Hilst voltaram a publicar o texto, ampliando sua circulação e estimulando releituras públicas. O gesto é relevante: não se trata só de “resgatar” uma carta bonita, mas de recolocar em circulação um documento que ilumina a oficina interior de Hilst — sua fome de conversa verdadeira, sua inquietação ética, sua disciplina de continuar quando tudo parece “inútil”.


Leia a íntegra:
"Carta de Hilda Hilst para Carlos Drummond de Andrade: 
10/08/62
Drummond, poeta querido
Muito obrigada pelas boas coisas que me disse. Tenho sempre muita saudade de você e espero sempre que um dia a gente possa conversar longamente de corpo presente. Como seria bom! Tantas coisas se fizeram dentro de mim, tantas se diluíram e tantas morreram. Cresci e mastiguei minhas raízes como era preciso. Tenho procurado tanto, Carlos. O que escrevo sempre me parece pequeno, pretensioso e inútil. Mas continuo. E continuo também a amar as gentes, a acreditar como se tivesse nascido logo agora, neste instante. Ou como se estivesse para morrer porque acredito que na morte é mais fácil amar e perdoar. Alguns bons amigos que tenho repetem sempre que tenho uma debilidade anormal porque quero bem até aqueles que não amam e que esse amor em mim é pretensa humildade. No fundo, dizem eles, vontade de parecer melhor que os outros, bondade maldosa. Será isso, não sei. Li um homem que me impressionou como nunca: o grego Nikos Kazantzakis. Você conhece? O seu livro Lettres au Grecco fez com que muitas coisas se iluminassem, fiquei tomada de vida, de esperança e de amor. Foi incrível a luta, a fé e o caminho desse homem. Seus deuses, Cristo, Buda, Lênin, são todos um só uma grande harmonia, uma grande chama. O anjo, ele diz, nada mais é do que um demônio enriquecido e a mais torturada das criaturas de Deus é Lúcifer. E se você perguntar quem é o filho pródigo pelo qual o pai mata um belo e gordo carneiro, ele dirá, Lúcifer! Ah, Carlos, o homem é de arrepiar os cabelos e tudo mais. E o mais maravilhoso: Ele é poeta dos mais altos. Ainda não consegui o livro de poemas, mas dizem por aí que é a mais bela poesia acontecida. Carlos, escreva para mim. Sei que você é ocupado, etc., mas é preciso que a gente se fale um pouco, algumas vezes, para matar tanta saudade. Vejo sempre Lygia e com muito amor falamos sempre de você e da sua grande poesia". (Carta no acervo de Carlos Drummond de Andrade, no AMLB-FCRB, no Rio de Janeiro). 

 

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