
Raimundo Fontenele, indicado para a Academia Poética Brasileira.
Indo embora: o que não esqueço, e mais me marcou neste Censo, foi o que vivi quando estava recenseando na extensa Avenida dos Estados.
Chego numa casa que era residência e comércio ao mesmo tempo. A proprietária, uma viúva italiana, agiota, ranzinza, inescrupulosa como vim a saber depois, chamava-se Chiara e me atendeu com cara de poucas amigas, e lhe expliquei o motivo da minha visita e me preparei para o embate de horas.
A entrevista não andava, pois a cada pergunta que ela julgava invasiva, vinha com impropérios e xingamentos contra o governo. Aí eu tinha que explicar e convencer que ela era obrigada a responder, uma vez que eu tinha até poder de polícia. Metia o louco nela que voltava a responder a contragosto.
— Que tipo de fogão a senhora usa? — Eu perguntava e ela:
— Quer saber também o que vou comer? Não vou responder mais nada para esse “governo maledetto”.
Enfim, depois de chuvas e trovoadas verbais de ambas as partes, terminei de preencher o formulário, despedi-me e saí.
Comecei a andar e ao olhar para um lado vi uma espécie de beco que me chamou a atenção. Dirigi-me para ele e de repente fui encontrando pequenos casebres. Uma pequena rua com cerca de uma dezena de casebres, bem atrás da casa da dona Chiara.
Ao chegar à porta de um deles vi em seu interior uma mulher morena, magrela, amamentando uma criança também magrela. A fome e a miséria estavam estampadas no rosto e nos olhos daquela mulher quando ela levantou a cabeça para responder ao meu cumprimento.
Ela me falou sem nenhum medo ou constrangimento que todos aqueles casebres pertenciam a dona Chiara. Pagavam o equivalente a duzentos reais por um espaço que só cabia uma cama de solteiro, um fogão e uma pequena mesa.Todos os casebres tinham o mesmo tamanho e pagavam o mesmo valor de aluguel.
Por isso a safada da italiana era tão reticente e brava tendo que responder ao Censo. Medo de que descobrissem que nada daquela situação era declarada à Receita, nem à Prefeitura, nem nada. Mentirosa e exploradora de pobres miseráveis.
Deixei o local cheio de ódio e amargura. Nem tive como voltar lá na residência daquela mulher com receio de que não me contivesse e a agredisse, tamanha era minha raiva e ira.
O certo é que lá pelo fim de setembro ou início de outubro estavam encerrados os trabalhos do Censo 80. Neguinho estava a fim de pegar a grana, assaz valiosa? Pois vão ter que esperar, foi o que nos disse o responsável pelo pagamento.
O cara explicou que todo o material da coleta de dados iria parar no IBGE em Brasília, onde seria feita uma checagem e conferência final, após o que seria liberado o pagamento.
Demorou pra caramba. Quase dois meses de espera, tendo despesas e precisando comprar passagem de avião para minha mãe voltar para o Maranhão, pois ela tinha ido me visitar. Passagem de avião era caríssima naquele tempo.
Lembro bem porque nos meus primeiros anos vivendo no sul e visitando o Maranhão regularmente de dois em dois anos, isso no final de 70, início de 80, viajava de “varig, varig, varig”, e em seguida não deu mais.
Passei a fazer a viagem de ônibus. Quatro dias rodando sem parar. Noite e dia, dia e noite. E com três filhos pequenos. Apenas em São Paulo, para a troca de ônibus, a gente ficava de uma a duas horas de espera, quando então podíamos, como se dizia na época, esticar as canelas.
Mas voltando ao Censo e Camboriú. Enfim, em novembro saiu o bendito dinheiro. Uma boa grana, por sinal. Comprei passagem aérea para minha mãe retornar ao Maranhão, e fui até o aeroporto de Navegantes, em Itajaí, numa manhã bem cedo, embarcá-la de volta ao seu torrão natal. De repente, dezembro à vista, já estava pintando um clima de Carnaval, a mulher tinha ido pra Santa Maria, no Rio Grande do Sul, pois tinha uma promessa de emprego lá para ela.
Uma colega do Hospital Santa Inês, onde ambas trabalharam, era de Santa Maria. Tinha ido embora para lá e acenou com esse emprego para Cleide.
Mas ela não passou de Porto Alegre. Olhem como os fatos se enredam uns nos outros.
Em Curitiba, numa noite de bebedeira, eu estava sozinho numa rua arrancando uns cartazes de políticos e imprecando contra eles. Um jovem me viu fazendo aquilo e se acercou de mim, e ali começamos uma conversa que nos tornaria grandes amigos. Chamava-se Luís Hoffmann, sua mãe morava em Brusque, Santa Catarina, e quando fui morar em Camboriú ele foi me visitar alguns fins de semana.
Também fui visitá-lo em Brusque e sua mãe, dona Dora Hoffmann, era de descendência alemã, uma senhora muito distinta e amiga, que tinha uma irmã em Porto Alegre, dona Maria Hoffmann.
Quando a Cleide viajou com destino a Santa Maria foi pernoitar na na casa de dona Maria Hoffmann, em Porto Alegre, que lhe informou que o Hospital Lazarotto estava com vagas abertas para enfermeira. Este hospital nem existe mais na capital gaúcha.
Na manhã seguinte a Cleide foi até o Hospital e conseguiu uma das vagas lá. Então minha sorte estava selada. Depois do Balneário Camboriú a minha próxima parada seria Porto Alegre e não Santa Maria como estava se anunciando.
E pra quem não sabe, Cleide é a mãe de meus filhos, Frederico, Nádia e Jacira. Esta última é a mãe de meus dois netos: Marquinhos e Aline. Mas voltemos ao Balneário Camboriú onde permaneci até o final de janeiro, tendo vivido uma noite de sexta-feira recheada de bebida, drogas e sexo. Uma espécie de sexo, drogas e Carnaval, no lugar de rock ‘n’ roll.
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Raimundo Fontenele (Pedreiras/MA, 28 de agosto de 1948). Poeta maranhense. Tem duas dezenas de livros publicados nos gêneros poesia, poesia infantil e prosa infanto-juvenil, entre os quais o premiado A Colheita do Mundo. Tem outros livros inéditos.
Participou como fundador do Movimento Antroponáutica, em São Luís, juntamente com os poetas Viriato Gaspar, Luís Augusto Cassas, Valdelino Cécio e Chagas Val, e foi um dos fundadores da Revista de Literatura e Arte Outras Palavras, em Curitiba, juntamente com o poeta Reinoldo Atem e outros. É indicado para a Academia Poética Brasileira.
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