
V – O PLANO PARA LEGITIMAR O “CALOTE” EM COCHRANE
MARIA GRAHAM descreve os motivos desse “plano diabólico”, em seu formidável “Escorço biográfico sobre D. Pedro I” [27] conforme as próprias palavras que lhes foram confidenciadas pela Imperatriz. Na apresentação dessa obra, editada pela Fundação Biblioteca Nacional (2010), CECÍLIA COSTA destaca o que GRAHAM ouviu de LEOPOLDINA:
“Queixou-se de que os Ministros eram todos portugueses de coração; que seus interesses comerciais, quase idênticos aos de Portugal, os tornavam tímidos quanto aos resultados da guerra naval em curso no Norte; que as propriedades confiscadas como presas de guerra, dos velhos portugueses, eram geralmente, de fato, se não a metade, de brasileiros, e ainda que os Ministros se envergonhassem de alegar isso como razão de frieza com que olhavam o sucesso da Esquadra no Maranhão e Pará, não poderia haver dúvida quanto aos seus sentimentos com relação ao presente estado.”
Revelou à amiga, então, o que pretendiam os ministros de seu marido:
“O plano dos ministros (revelou a Imperatriz) era, em primeiro lugar, a devolução das presas, com indenização pelos danos causados no curso da guerra. Os chefes da esquadra, depois disso, deveriam ser declarados traidores, por terem atacado as propriedades de súditos de D. João VI, protestando-se que as ordens haviam sido dadas simplesmente para vigiar as costas; suas propriedades seriam confiscadas e eles aprisionados ou submetidos a punição.”
O plano tinha, assim, duas finalidades maquiavelicamente urdidas nos subterrâneos do poder: “agradar a rainha de Portugal, d. Carlota Joaquina, e verem-se livres de estrangeiros, cuja presença lhes era uma dor e um agravo, além de aliviar o tesouro do Brasil de uma quantia que teriam prazer em recolher. Em suma, o que a imperatriz queria da amiga era que escrevesse a Lorde Cochrane, prevenindo-o do que se passava. Maria Graham prometeu fazê-lo e naquela mesma noite, apesar das dores que sofria, cumpriu a promessa…”
E aduz Maria Graham [28]: “A carta teve portador seguro, o capitão Grenfell; Lorde Cochrane devia recebê-la, e isso explica por que sem mais formalidades se retirou do serviço do Brasil, embarcando no navio do capitão Shepherd para a Inglaterra.”
Após a viagem do Pacificador do Maranhão, de regresso à Inglaterra, a Imperatriz, em carta dirigida à sua amiga GRAHAM, dá-lhe ciência, premonitoriamente, de que somente em futuro distante Lorde Cochrane teria o devido reconhecimento:
“Fico sossegada e cai-me um grande peso do coração por saber que fizestes chegar a vossa opinião ao vosso insuperável e respeitável compatriota, o qual, creio que infelizmente só tarde demais será estimado como merece. Ao menos fica-me, a mim, a satisfação de não o ter jamais prejudicado.”
VI – O RECONHECIMENTO DA DÍVIDA PELO BRASIL
E tanta razão lhe cabia nessa triste disputa – ressaltou o historiador ALDO AZEVEDO [29] – “que, trinta anos mais tarde, em agosto de 1855 — cinco anos antes de sua morte Lorde Cochrane viu os seus direitos reconhecidos pelo Parlamento Brasileiro, que autorizou o pagamento da importância de 252 contos de réis, restabelecendo, ao mesmo tempo, a pensão e o soldo de Primeiro Almirante.”
Em 1875, o “Publicador Maranhense” informa que essa quantia, somada ao que D. Pedro autorizou que lhe pagassem no Rio e aos recebidos no Maranhão e em Londres, “perfazia o total do valor de que Cochrane se julgava credor no Brasil e que seu filho, o 11º Conde de Dundonald, pode receber, conforme Decreto nº 5.828, de 22 de dezembro de 1874.”
O chileno ENRIQUE BUNSTER no seu pequeno livro “Lord Cochrane” deu o seguinte testemunho:
“E’ um erro, não obstante, atribuir-lhe a condição de mercenário. Cochrane não lutaria, e não lutou, pela primeira causa que solicitara seu concurso. Antes de Alvarez Condarco o convidar em nome do Chile, o havia feito o Duque de San Carlos, em representação de Sua Majestade Fernando VII, oferecendo-lhe a dignidade de Almirante de Espanha, com pingues emolumentos. E eis qual foi a sua resposta: “Não combateria pela Espanha nem por nenhuma potência opressora…”
E na abordagem crítica de Luiz Fabiano Tavares [30], que se aprofundou sobre o tema, faz-se justiça ao lendário almirante: “o que estava em jogo não era apenas o dinheiro, mas também a autoridade moral de Cochrane sobre seus homens, sua dignidade perante os subordinados.”
Mas alguns dos nossos destacados historiadores tiveram a sua visão histórica sobre esse fato obnubilada por diversas razões. A apreensão de barcos e de mercadorias de portugueses e de brasileiros contrários à Independência é uma delas. Esse episódio fomentou um clima perene de revolta, que perpassou por gerações há quase dois séculos como uma espécie de “canção dos revoltosos” onde o refrão: “pirata! corsário! mercenário! usurpador! ladrão!” foi repetido ad nauseam! Mas era necessário, para uma correta apreciação dos acontecimentos, inferir as razões de Cochrane, no contexto de uma época singular no Mundo, nela inserido o Brasil, destacando-se o seu extraordinário empreendedorismo naval com a responsabilidade sobre mais de 600 praças a serviço da nossa Independência. Mas, sobretudo, faltou entender o seu sentimento inglês de justiça em fazer valer, de forma determinada, os termos de um contrato e por ele lutar para não ser ludibriado!
VII – OS HISTORIADORES MARANHENSES
A História é uma ciência com objeto e métodos de pesquisa, fundada em um conjunto de normas metodológicas -, influenciadas pelo positivismo, pelo historicismo e pelas escolas metódicas. Como ciência, ela apresenta resultados historiográficos expressos em narrativas as quais devem conter argumentos demonstrativos, que por sua vez são articuladores da base empírica da pesquisa e da interpretação do historiador em seu contexto. Nesse sentido, a historiografia, conforme ESTEVÃO DE RESENDE MARTINS [31], deve ser “empiricamente pertinente, argumentativamente plausível e demonstrativamente convincente” – exatamente o que falta nos textos de certos escritores em sua faina de interpretar a ação de Cochrane na Província do Maranhão (1823-1825), em especial nos de CARLOS DE LIMA e de MÁRIO MEIRELES, aqui exemplificados.
É possível que a visão distorcida desses autores traga, ainda hoje, o ranço dos “lusitanófilos” [32] “que regiam os destinos do Brasil, instituíram um Tribunal de Presas e a tal propósito infligiram mil vexames a Cochrane e a seus principais oficiais…” No entanto, identifico no português João Antônio de Abranches a principal fonte de influência nessa corrente difamatória que perdura até os nossos dias. Editor do periódico “Censor Maranhense”, que tinha as simpatias do partido português e contrário à adesão da independência pelo Maranhão, era ele quem estigmatizava o Primeiro Almirante como “pirata e roubador”. Banido da Província, continuou seus ataques em Lisboa. Cochrane, por algum tempo, se defendeu publicamente por meio de outro jornal, mas depois, ao ver que a sua justificativa acirrava ainda mais o animus caluniandi do seu antagonista, passou a tomar outras medidas.[33]
Ao chegar em Lisboa, o combativo jornalista ABRANCHES (O Censor) dedica um libelo contra o Presidente Lobo e o Marquês Cochrane, acusando-os violentamente. Porém, como disse JOSUÉ MONTELLO, “superpondo-se à violência de sua cólera”, o inimigo figadal do Almirante, nesse mesmo texto, reconheceu-lhe os méritos de “Pacificador do Maranhão”, com estas palavras:
“Entretanto, razão há que confessemos os serviços que em qualidade de Pacificador prestou a boa causa do Brasil, já cooperando para o triunfo final de sua Independência nas Províncias do Norte, já dissipando sem efusão de sangue os horrores da anarquia, em que ardiam Pernambuco, Ceara e Maranhão, já comovido do doloroso quadro das públicas desgraças, que oprimiam esta infeliz Provincia, heroicamente representado pelas aflitas e consternadas Senhoras de S. Luís, como se vê em seu discurso. Ele, com inimitável prudência e valor, cortou pela raiz a perniciosa origem de tantos males, depondo e remetendo para o Rio de Janeiro (com outros da mesma espécie) o malvado Freire Bruce, esse monstro de indômita fereza, em cujas sanguinárias mãos se achava depositado o cargo de Presidente da Provincia, e por cuja ordem e proteção impunemente se cometiam os mais horrorosos assassínios, violentos roubos e atentados de todo gênero, pelo que até mereceu o Lord Pacificador ser divinizado com o título de Anjo Libertador.”
Esse reconhecimento do inimigo de Cochrane levou o maranhense JOSUÉ MONTELLO a fazer, com indiscutível acerto, a seguinte avaliação histórica:
“Em Garcia de Abranches, como se vê, o sentimento de justiça podia mais que a paixão da ira. E o retrato que de Cochrane nos traça, ainda molhando a pena no fel de suas amarguras de desterrado, não destoa do retrato que podemos pintar hoje, com a perspectiva histórica trazida pelo tempo.”
Esse episódio, no entanto, é deliberadamente omitido dos compêndios de história de São Luís…
VIII – A DISTORÇÃO DOS FATOS
É certo que alguns autores maranhenses das novas gerações preferiram aderir à ótica portuguesa replicando os ressentimentos e os conceitos desabonadores que havia naquela época em relação ao Marques do Maranhão, ausentes que são os argumentos plausíveis e contextualizados sobre aquele importante período de nossa história. E dessa forma, passaram a igualmente caluniar aquele sobre quem, na fala solene de Joaquim Nabuco [34], o Brasil possui “a imensa dívida de uma gratidão sem fim”.
Seriam, assim, nossos autores ingratos com esse eminente vulto histórico de nossa Independência, ou agem por desinformação, má fé ou por desonestidade intelectual? Talvez um pouco de cada uma dessas deformações. Aos historiadores é permitido interpretar os fatos, mas não se lhes dá a razão para defraudá-los.
Lê-se, por exemplo, em CARLOS DE LIMA [35], em sua “História do Maranhão”, que
“Lord Cochrane levou desta cidade um cabedal incalculável e continuou nas mesmas extorsões…”
E mais adiante, demonstrando repulsa e ao mesmo tempo uma interpretação capciosa, escreveu:
“O almirante inglês, para desonra nossa feito Marquês do Maranhão, investiu no Governo da Província o tal Silva Lobo (…) que, “…expulsou Freire e Bruce (e parte de sua oficialidade fiel a Portugal), e mandou abrir devassa da gestão de seu antecessor. Tudo arrumado conforme os desejos e ordens do corsário inglês, tratou esse de pagar-se a si mesmo pelo incomensurável trabalho de libertar o Maranhão, cobrando “o que mais houvesse ao alcance de sua mão e que o dono legítimo não pudesse reclamar ante a voz convincente de seus canhões…” [36]
E numa linguagem inapropriada a uma narrativa histórica, LIMA chega a ser histriônico e debochado:
“Agora, voltemos a Cochrane: chegou, e botou banca. Declarou bloqueados o porto, o rio, a ilha, a baía e as águas. E mais o que houvesse a bloquear, bloquearia…” [37]
“Ao mercenário marujo coube ainda a glória de “Libertador do Maranhão” … (…) Além de outros roubos que nos fez o pirata, ainda arrebataria a glória que por justiça pertence a Salvador” [38]
Outro historiador maranhense, MÁRIO MEIRELES é igualmente iracundo e passional em seus comentários quando o assunto é Lorde Cochrane. Ao invés de reconhecê-lo, por exemplo, como Primeiro Almirante da Marinha brasileira, investido que foi por Decreto Imperial, fato esse incontroverso, preferiu a ele referir-se como “pirata”, “mercenário” e “almirante inglês.”[39] E ainda teve o despautério de comparar a dívida devida a Cochrane, lastreada em contrato mantido com o Governo Central, com o valor que era pedido, à época, pelo “Exército Auxiliador” para fazer face ao pagamento dos cerca de seis mil homens que sitiaram Caxias…Mas não é só! MEIRELES se excede em seu despropósito quando critica o Marquês exatamente pelo que ele tinha de mais relevante militarmente: as manobras astutas que fazia em alto mar para desorientar os inimigos, feitos esses que mereceram elogios até de Napoleão que o chamava, com admiração, de “Lobo do Mar”. Assim, o historiador maranhense afirma [40]:
“Arvorando deslealmente a bandeira portuguesa, aprisionou à traição o brigue Infante d. Miguel, que fora reconhecê-la e, fundeada, mandou ao governo local notificação de sua missão oficial e do bloqueio das águas circunjacentes.”
Os nossos historiadores, por outra via, apoiaram os ataques nefandos disferidos a Cochrane, utilizando-se das interpretações equivocadas de VARNHAGEN que comentou a ação do “Quixote do Mar” com reprovável parcialidade, “olvidando sua bravura, o risco e, afinal, os excelentes resultados de suas campanhas na consolidação da Independência do Brasil.”
Abro aqui uma exceção ao brilhante artigo do jornalista e escritor ANTÔNIO CARLOS LIMA que fez uma correta resenha da obra de GEORGE ERMAKOFF (Lorde Thomas Cochrane: Um Guerreiro Escocês a Serviço da Independência Do Brasil – Biografia) – 1ª Ed. (2021). Ao acessar a página do artigo fiz o seguinte comentário:
“Sua fiel tradição ao bom jornalismo não deixou de fora nenhum ângulo da análise feita – diga-se, com excelentes fontes de pesquisa e o primoroso estilo de sempre! O que não se compreende, e nenhum fato histórico mencionado o justifica, é esse “sentimento” de repulsa a quem teve um papel decisivo na adesão do Maranhão à independência política do Brasil…ainda devemos uma estátua à Lorde Cochrane, o Marquês do Maranhão!”
Todavia, após afirmar que a história de Cochrane na Província maranhense “reclama um olhar mais atento e desapaixonado”, ANTÔNIO CARLOS conclui com a assertiva de que “essa visão, contudo, certamente não mudará os sentimentos que o lorde escocês despertou no Maranhão, onde jamais será tratado como herói”. E é nesse ponto que contradigo o ilustre intelectual, pois não vislumbro, pelas deduções narradas linhas acima, nenhum fato relacionado ao pagamento do Almirante que seja, por si só, capaz de causar esse “sentimento” tão arraigado de desprezo. Salvo para uma parte da elite acadêmica que sistematicamente vem “desconstruindo” os feitos daquele que é considerado um dos heróis da Independência brasileira. Estranhos sentimentos, esses, que certos autores e alguns maranhenses têm com a figura de Lord Cochrane!…
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