HENRIQUE DUAILIBE
Só tenho boas lembranças do Carnaval da minha infância. Quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir o burburinho da rua enchendo cedo, muito cedo, como era tradição na década de 70. Antes mesmo do sol esquentar de verdade, a rua já estava tomada por gente — principalmente crianças — correndo, rindo, fantasiadas, vivendo o Carnaval com a pureza que só aquele tempo permitia.
Nosso Carnaval começava de dia. O Carnaval das crianças era à luz do sol, com cheiro de maizena no ar, baldes d’água preparados nas calçadas e gargalhadas ecoando pelas esquinas. Molhar os amigos era brincadeira saudável; jogar maizena virava um ritual quase sagrado de alegria. Não havia maldade, não havia medo. Havia apenas a vontade de brincar.
À noite, a tradição continuava. Era dia de clube. As matinês eram mágicas, cheias de serpentinas, confetes e marchinhas que faziam todo mundo dançar. Depois vinham as festas dos adultos, elegantes e animadas, onde a música unia gerações. O Carnaval era completo: começava na rua e terminava no salão, sempre com respeito e entusiasmo.
Lembro também dos blocos de sujo, das fantasias improvisadas, dos personagens engraçados que arrancavam risos sinceros. E os fofos… figuras tradicionais que desfilavam mascaradas, misteriosas e divertidas. Hoje, infelizmente, já não podem circular com a mesma liberdade. A máscara que antes simbolizava fantasia agora pode despertar desconfiança. A violência tomou um espaço que antes era ocupado apenas pela criatividade e pela alegria.
É triste perceber como muita coisa se perdeu. A mudança de mentalidade, o horário tardio das programações, o fim das grandes matinês, a substituição das antigas marchinhas por estilos que nada têm a ver com nossa essência… Tudo isso parece ter diluído aquela magia simples e genuína que existia.
Naquela época, o Carnaval era convivência. Era comunidade. Era amizade. Era cultura. Não era apenas festa — era pertencimento.
Hoje, o que resta são as lembranças. E ainda bem que elas existem. Porque dentro de mim o Carnaval da infância continua vivo: colorido, inocente, cheio de risos, maizena, água, marchinhas e amor. Um tempo que não volta mais, mas que permanece eterno na memória e no coração.
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