ENTRE CONFETES E CINZAS
por Sharlene Serra
Antes do carnaval, as manchetes pesam.
Violência após violência. Crueldades que atravessam a tela e se alojam no peito. Notícias de um animal indefeso, mulheres silenciadas. Crianças transformadas em instrumento de vingança. Cidades marcadas por crimes que tentam justificar o injustificável.
A humanidade parece adoecida, e anestesiada.
Em vez do antigo grito “olha a festa, aê!”, o que me sobe à garganta é outra pergunta:
o que está acontecendo com a humanidade?
Desligo a televisão. Mas o nó não desata.
O carnaval chega e eu percebo: ele não silencia esse clamor. Não apaga as imagens que nos assombram. Não finge que tudo está bem. Em meio à batucada, o aperto permanece.
As ruas se enchem. Os corpos dançam. Amores rápidos nascem entre um bloco e outro. Vejo pessoas tentando sorrir mesmo com as notícias atravessadas no peito.
Todas as formas de amar ocupam a avenida e ainda assim me pergunto: cadê o amor?
A verdade é simples e dura: o carnaval não cura, ele suspende.
Não resolve, oferece um intervalo.
Antes da festa, vieram as tragédias. E durante a festa, elas continuam colidindo dentro de nós. As atrocidades passam pelas telas, na TV, no celular, como se fossem apenas mais um conteúdo. O horror vira rolagem. A dor vira estatística.
Mesmo quando fico off-line, a preocupação não se apaga.
Então a memória tenta me salvar.
Lembro da infância: maisena no rosto, marchinhas atravessando a casa, fantasias improvisadas. Um tempo em que o brilho era inocente e a alegria não disputava espaço com o horror. Um tempo em que o carnaval era só encontro, rua, riso.
Hoje, não.
Hoje o carnaval chega tentando costurar um mundo rasgado.
Caminho observando mãos que se encontram sem promessa, beijos que não sabem de amanhã, abraços que não duram o tempo do refrão de uma música. Vejo gente tentando existir melhor por alguns dias. Tentando esquecer. Tentando sobreviver.
O brilho, confesso, não apaga as atrocidades que o antecedem.
A música não silencia a dor coletiva.
A fantasia não esconde o adoecimento da humanidade.
Mas ainda assim o carnaval oferece água quando a garganta vira terra seca.
Oferece um respiro quando o peito craquela.
É uma pausa curta.
Um intervalo frágil.
Um pedido silencioso para continuar.
Por algumas horas, entre confetes e marchinhas, a esperança surge com cuidado, não como fuga, mas como resistência.
A quarta-feira não demora a chegar.
As notícias também.
Mas algo fica.
Porque às vezes, em meio ao caos,
respirar já é resistência.
E continuar sensível
é uma forma de coragem.
O carnaval não salva ninguém.
Mas por alguns dias ele ocupa as ruas, mistura corpos, bagunça o silêncio
e lembra que ainda estamos aqui.
Cansados.
Sobrecarregados.
Buscando não adoecer por dentro.
Entre confetes e cinzas,
a gente dança como pode, respira fundo,
segura o brilho que sobra
e continua.
Não porque tudo esteja bem, mas porque parar não é opção.
Se queremos que a vida seja mais do que sobrevivência,
precisamos olhar para o que nos adoece.
Precisamos falar sobre o que silenciamos.
Precisamos cuidar da mente com o mesmo empenho e alegria que cuidamos da fantasia.
Que a festa não seja apenas fuga.
Que o brilho não seja apenas disfarce.
Que a vida, todos os dias, possa ser uma avenida aberta à esperança,
uma batucada de equilíbrio,
uma celebração possível.
Porque uma sociedade que aprende a cuidar da própria saúde emocional
talvez transforme cada quarta-feira
em continuidade de festa interna, uma festa de humanidade reconstruída.
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