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A história imortal e imprescindível do Rádio: a voz que moldou o Carnaval brasileiro

No Maranhão, não foi diferente. Nos anos 60 e 70, ondas AM definiram a cobertura nacional e a festa em São Luís.

15/02/2026 às 10h15 Atualizada em 15/02/2026 às 10h36
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
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(Representação poética): Arte: mhl/Ginai J. ALVES/Difusora.
(Representação poética): Arte: mhl/Ginai J. ALVES/Difusora.

Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes

Na sexta-feira, em nossa última reunião de pauta, antes do recesso de Momo, pensávamos em alguma matéria impactante que pudesse fazer com que a mente de todos nós vibrasse num mesmo diapasão carnavalesco. Então nosso editor sugeriu pesquisar sobre a importância do rádio nas coberturas carnavalescas dos anos 60 e 70.

Eu mesmo estava nas ruas cobrindo o Carnaval para o Jornal Pequeno e ao meu lado, figuras incríveis do rádio maranhense como J. Alves (que cobria pela Rádio Difusora). E tinha um mote bem legal. No estúdio, comandando a cobertura, estava Fernando Sousa e de lá ele chamava o J. Alves assim: ‘Jota, onde está o Carnaval?’. E ele respondia: ‘O Carnaval está aqui em plena efervescência da Praça Deodoro, o centro maior da Folia....’. Nunca mais esqueci isso, porque se notava a pujança das transmissões da rádio AM em grandes acontecimentos populares”, confessa o jornalista Mhario Lincoln que militou na Rádio e TV Difusora, Rádio e TV Ribamar, tendo começado na Rádio Timbira e no "Jornal Pequeno", nos anos 70.

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E essa é a grande história para os amantes das transmissões “AM”. Porque antes da imagem de TV virar soberana, o Carnaval brasileiro já tinha uma espinha dorsal bem definida, o som, através das emissoras de rádio que fazia o ouvinte sonhar com as cores e os momentos.

Nos anos 60 e 70, o rádio foi mais do que trilha, foi bússola, serviço público e termômetro de rua. Uma transmissão ao vivo, feita no calor da multidão, não entregava apenas o que acontecia. Mas fazia sentir: qual bloco seguir, qual samba guardar na memória. E quando o aparelho ficou portátil, graças ao transistor, a cobertura deixou a sala e passou a caminhar junto do folião. (Anos de glória nas coberturas de rua, como na inesquecível Praça Deodoro, em São Luís-MA).

Essa engrenagem já vinha sendo montada havia décadas. Estudos sobre radiojornalismo lembram que a cobertura ao vivo do Carnaval, ainda nos anos 1950, foi decisiva para consolidar o modelo de transmissão externa e de reportagem em tempo real, um formato que depois se tornaria rotina em grandes eventos. Foi nessa base que, nos anos 60, a lógica de plantão, boletins e repórteres na rua ganhou importância e passou a organizar o imaginário do país para além do próprio reinado de Momo.

 

Na virada para os anos 70, mesmo com a televisão crescendo, o rádio manteve uma vantagem que a tela não conseguia anular: a sensacional ‘intimidade’. Ele entrava no ouvido, atravessava a madrugada, cabia no bolso, acompanhava o deslocamento do folião. Não por acaso, pesquisas sobre o período apontam que, nas décadas de 1970 e 1980, AM e FM foram fundamentais para espalhar sambas-enredo e fazer certas composições “estourarem” nacionalmente, ampliando o alcance do Carnaval para além da avenida.

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No Maranhão, não foi diferente. Grandes radialistas, excelentes profissionais vindos de várias partes do Brasil, integraram os estúdios das rádios locais. Isso aumentava muito na época de Carnaval. Por exemplo, as emissoras saíram dos estúdios para, inclusive, promover concursos. A Rádio Timbira aparece como promotora de competições ainda nos anos 1950. Já no começo dos anos 60, a cidade viu a ordenação do desfile ganhar um aliado importante. Há referência direta a uma promoção municipal de desfile na avenida Pedro II, com participação diretiva da Rádio Difusora, no ano de 1961.

Esse tipo de atuação muda o peso do rádio na cultura. A emissora não só transmitia o Carnaval, ela ajudava a desenhar o roteiro, a definir visibilidade, a empurrar padrões de apresentação, a premiar, a estimular crescimento de grupos. No início dos anos 70, h[á fortes registros da realização de concursos por organizações particulares, citando emissoras como Rádio Gurupi e a própria estrutura da Difusora, lado a lado com jornal e prefeitura, numa disputa prática por quem “puxava” a festa.

Quando se fala em época de ouro do rádio maranhense, aparecem nomes que formaram escola e deram timbre a essas emissoras. Na Rádio Timbira, passaram profissionais como Djard Martins, o sonoplasta José de Ribamar Elvas Ribeiro, conhecido como Parafuso, e Maria José Falcão Teixeira, lembrada como uma das poucas mulheres radialistas atuando no mercado local daquele período.

E, no ecossistema competitivo das rádios, surgem como destaques José Branco e Lauro Leite, associados à briga por audiência e à consolidação de programas que marcaram gerações. Na cobertura carnavalesca, algumas vozes aparecem de forma documentada como mediadoras entre o Carnaval visto de fora e o Carnaval vivido aqui. Um estudo sobre a “fuzarca” maranhense registra, por exemplo, os comentários de Jota Alves e Fernando Souza, da Rádio Difusora, sobre detalhes do desfile carioca, indicando como o rádio ajudava a transportar referências e modelos para a imaginação local.

E, do lado da Timbira, a memória institucional recente ainda relembra figuras que atravessaram décadas e ajudaram a sustentar o padrão narrativo que o rádio impôs aos grandes eventos, caso do radialista Edvan Fonseca, ligado à emissora desde 1963, e do comunicador Rui Dourado, lembrado pela criatividade e personagens que marcaram programação e transmissões.

 

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“Eu convivi com muitos radialistas, profissionais de peso que, mesmo tendo vaga assegurada na Tupi, Globo, Excelsior (etc), optaram pelos microfones das poderosas emissoras ludovicenses. Não porque aqui era linda a cidade. Mas porque na época, os profissionais eram tratados como ídolos mesmo! Pena que este espaço seja pequeno para citar todos os grandes nomes da radiofonia. Porém o imortal APB Antonio Guimarães fez isso em sua crônica publicada no Facebook”, completa Mhario Lincoln.

No fim, a lição dos anos 60 e 70 é simples e poderosa. O rádio não foi apenas um meio que “cobriu” o Carnaval. Ele ensinou o Brasil a acompanhá-lo como acontecimento, a escutá-lo como narrativa contínua e a reconhecê-lo como patrimônio vivo, do centro às margens, das avenidas famosas às ruas onde a festa ganha sotaque e alma própria.

 

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