
Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Mhario Lincoln, poeta e jornalista
Ontem (17.02), quando a intelectual APB-MA, Linda Barros, esposa do acadêmico APB/AML José Neres publicou no Grupo da Academia Poética Brasileira o insight, “dizem que Fevereiro é o mês dos intelectuais”, essa retórica despertou de imediato a vontade de expandir a temática isso porque, essa frase pode até soar como algo aleatório, mas, bem no fundo, não é, porque ganha força quando o olharrecai para datas aniversárias de peso, que se apresentam, quase como se o calendário tivesse escolhido um mesmo corredor para reunir vozes de estudo, escrita e pensamento.
Aí claro, também como ponto citado no insight anterior de Linda Barros, há algumas literaturas que mostram o Maranhão, realmente, como berço-gonadal de escritores como José Neres, nasceu em 17 de fevereiro de 1970; Augusto Pellegrini Filho, nascido em 1940; Paulo Rodrigues, de Caxias, nascido em 16 de fevereiro de 1978, (os três, ilustres integrantes da APB-MA), além do jornalista e pesquisador Benedito Buzar que também veio ao mundo em 17 de fevereiro, em 1938.
Desta forma, quando a lente da pesquisa se volta para o Maranhão, o fevereiro oferece um fato histórico que explicita e que combina com o tema do pensamento crítico. A Revolta de Beckman começou em São Luís em 24 de fevereiro de 1684, como reação a abusos econômicos e a tensões coloniais, e permanece como uma das grandes chaves para entender conflitos de poder e comércio no período.
No Brasil, o fevereiro também guarda datas de virada institucional e cultural. A Constituição de 1891 foi promulgada em 24 de fevereiro, redesenhando a ordem da Primeira República. Por isso, Linda tem razão ao tratar o mês de Fevereiro como “mês dos intelectuais”, mesmo que metaforicamente. Não porque o mês determine a inteligência, mas porque o próprio fevereiro carrega, desde Roma, "a ideia de purificar, recomeçar e medir o tempo com humildade" (Augustus). E porque, por coincidência ou por afinidade histórica, ele reúne aniversários que lembram ao Maranhão e ao Brasil que a inteligência pública precisa de gente que escreve, pesquisa, debate, discorda e, às vezes, insiste. José Neres, Paulo Rodrigues, Benedito Buzar e Augusto Pellegrini, junto de tantos outros aniversariantes de fevereiro, viram assim um pretexto nobre para um compromisso simples – e que alguns intelectuais deveriam seguir essas regras: ler mais e melhor, pensar com mais rigor e escrever com mais verdades; mesmo que essas – melhor ainda – sejam verdades inerentes ao autor.
Destarte, quando três nomes da literatura se encontram na mesma data e outro entra logo ao lado, fica fácil entender por que o mês parece ganhar a reputação lembrada por Linda. Ora, essa coincidência cresce quando se amplia o mapa e se inclui Coelho Neto, maranhense de Caxias e um dos grandes do nosso cânone, nascido em 21 de fevereiro de 1864, bem como o poeta Bandeira Tribuzi (nasceu em 2 de fevereiro de 1927). O também poeta Augusto de Campos (São Paulo) nasceu em 14 de fevereiro de 1931. O intelectual setecentista Santa Rita Durão, que nasceu em 15 de fevereiro de 1722. Entre os estrangeiros, dois aniversários de fevereiro parecem feitos para sustentar o mito: Charles Darwin (nasceu em 12 de fevereiro de 1809) e James Joyce, nascido em 2 de fevereiro de 1882.
Então, alguém da editoria lembrou a influência da astrologia que 'gosta muito' desse tipo de coincidência porque fevereiro costuma se dividir entre dois signos, e cada um carrega uma narrativa própria. Aquarius, na tradição simbólica, puxa para a ideia de mente inquieta, invenção e ruptura. Na mitologia grega, ele se associa a personagens como Ganymede, o jovem que vira copeiro no Olimpo, imagem de serviço à vida alta, ao convívio com os deuses e, por extensão, ao mundo das ideias.
Já ‘Pisces’ governa, no imaginário astrológico, a temporada que começa por volta de 19 de fevereiro e costuma ser descrita como mais intuitiva e imaginativa. Sua figura de dois peixes amarrados remete ao mito de Aphrodite e Eros, que se transformam para escapar de Typhon, um enredo antigo que já sugere um tema literário clássico, o da metamorfose, como forma de sobreviver.
E como as editorias sempre buscam mais informações no campo da Filosofia dá para “ajustar” a conversa sem cair no determinismo do horóscopo. Isso porque, intelectualidade não é prêmio de berço, é disciplina, fricção com o mundo, hábito de perguntar e coragem de rever respostas. Ainda assim, os signos funcionam como metáforas úteis. Aquário vira emblema do inconformismo que move ensaios, pesquisas, polêmicas e invenções. Peixes vira emblema da imaginação que dá corpo a poemas, romances e canções. O que a astrologia chama de destino, a filosofia costuma chamar de formação, e formação é obra cotidiana.
Porém, quando a gente sai do símbolo e entra na evidência, a explicação do “mês dos intelectuais” muda de lugar. E como ambos, tanto Linda Barros quanto José Neres são professores, vale, então, citar igualmente que pesquisas sobre data de nascimento/desempenho escolar apontam que o mês em que a criança nasce pode influenciar resultados não por alguma magia sazonal, mas por regras de 'modus' escolar e da maturidade relativa dentro da mesma turma.
Basta ler e atentar para relatórios da OECD - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico - com dados do PISA - (Programme for International Student Assessment, ou Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) que discutem essa ligação entre mês de nascimento, idade relativa e desempenho nos primeiros anos, mostrando como que tal fato pode afetar notas, repetência e trajetórias. Ou seja, o calendário pode interferir, mas por engrenagens sociais, não por constelações.
Também é curioso notar como fevereiro aparece nas grandes estreias literárias que mudaram o pensamento ocidental: o romance Ulysses, por exemplo, foi publicado em Paris em 2 de fevereiro de 1922, no aniversário de Joyce, e se tornou um divisor de águas do modernismo. O Manifest of the Communist Party foi publicado pela primeira vez em fevereiro de 1848, e atravessou séculos como um dos textos políticos mais influentes e debatidos do mundo.
No Brasil, fevereiro carrega outro marco de lançamento cultural. A Semana de Arte Moderna acontecida entre 13 e 18 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo, e sinalizou uma virada de linguagem na arte, na literatura e na música, com impacto que ainda ecoa.
Os mitos de fevereiro, aliás, não nascem da astrologia, mas do rito. O próprio nome do mês vem da antiga Februalia, associada a práticas de purificação, e fevereiro foi, por muito tempo, o mês “de limpeza” antes do reinício do ciclo. Em Roma, a Lupercalia, celebrada em 15 de fevereiro, carregava sentidos de purificação e fertilidade, numa mistura de religião, corpo e política típica do mundo romano. E, entre 13 e 21, a Parentalia lembrava os mortos, fechava templos e suspendia casamentos, como se a cidade pedisse silêncio para reordenar a memória.
Quem sabe se não se esteja precisando urgentemente (ainda) neste Fevereiro, “lembrar os mortos, fechar templos e pedir silêncio para reordenar a memória?”
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