
*Mhario Lincoln c/editorias da Plataforma Nacional do Facetubes.
Quando a Quarta-Feira de Cinzas recolhe os últimos brilhos da avenida e devolve à cidade o som comum dos dias, fica mais nítido o tamanho do silêncio que certas ausências deixam. Este foi o primeiro Carnaval, em muito tempo, em que faltou uma das presenças mais orgânicas da folia maranhense. Meu amigo, parceiro musical e pessoa das mais queridas de meu círculo de amizade, no Maranhão: Wellington Reis não chegou a ver, em 2026, o mês em que a alegria costuma desembarcar com força total. Ele partiu em 22 de julho de 2025, aos 74 anos, depois de internação e de uma infecção generalizada, segundo a família.
O que se perde, quando um artista assim sai de cena, não é apenas um nome no palco. Some um modo de fazer cultura com o corpo inteiro, como quem aprende a rua por dentro e devolve ao povo uma música que cabe em todo mundo. Wellington vinha contribuindo desde os anos 1970 e ajudou a organizar uma linguagem própria de Carnaval em São Luís, com invenções que nasceram do chão da Madre Deus e ganharam a cidade. Criou o Unidos do Regional Tocado a Álcool - (URTA), reunindo artistas do Laborarte e do Coral São João, com concentração em frente ao Ceprama, e fundou também o bloco Vagabundos do Jegue, que virou emblema de irreverência na cidade.
Há artistas que compõem músicas. Há outros que compõem territórios. Wellington fez as duas coisas. Na Companhia Barrica, foi ele quem batizou o nome Boizinho Barrica em 1985, gesto que parece simples até a gente perceber o quanto nomear é também fixar identidade, oferecer um destino, abrir uma história para o futuro.
E como compositor, deixou marcas que atravessam gerações. No repertório do grupo, “Rompendo Fogo” aparece como uma das composições que ajudaram a desenhar a memória do boi e de seus sotaques, com assinatura do próprio Wellington.
Para o grande público, há um instante definitivo em que seu nome vira coro. É a marchinha O Gaguinho, tratada como hino do Carnaval maranhense; uma dessas canções que não precisa de convite para entrar, porque já mora no ouvido coletivo. A TV UFMA, ao registrar o falecimento de WR, lembrou exatamente isso, sublinhando outra característica central do artista: a capacidade de misturar tradição com invenção sem quebrar o fio da origem.
Talvez nenhum projeto resuma melhor essa ousadia afetuosa do que o disco feito com José Ignácio, Sotaque Maranhense na Arte de Cozinhar, em que música e gastronomia se encontram como duas formas de memória, com reconhecimento e prêmios destacados por instituições locais e internacional. Wellington não produzia para “se mostrar”, produzia para ligar pessoas, saberes, cozinhas, terreiros, igrejas, ruas.
Na vida pública, também ocupou funções decisivas. Na Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão (SECMA), atuou por longo período e chegou à Superintendência de Ação e Difusão Cultural. Já estava aposentado quando faleceu. Lá, era conhecido como alguém de dedicação e doação às manifestações culturais do estado, com a marca de quem trabalha para que os outros possam brilhar.
Nas entrevistas exclusivas conduzidas por mim, na última vez que estive no Maranhão, Wellington* aparece inteiro, com aquela lucidez de quem sabe que cultura popular é também ética do cuidado. Num diálogo sobre o CD “Ladainha e Canções à São Pedro”, ele explicou a gênese do projeto, a pesquisa, as parcerias e o caráter beneficente, destinando a renda às ações sociais da Capela de São Pedro, no coração da Madre Deus. Ali estão as conexões que ele costurava com naturalidade, reunindo nomes como Cesar Teixeira, Luís Bulcão, José Pereira Godão e Gabriel Melônio, entre intérpretes e músicos, numa obra que nasce de fé, mas se espalha como cultura viva.
E há uma frase que, de tão precisa, parece fotografia. Wellington descreveu a Madre Deus como um “Planeta”, um mundo particular à parte, onde arte e cultura florescem com exuberância. Quem conheceu sua trajetória entende que essa imagem não era metáfora de efeito. Era método. Ele tratava o bairro como origem e como horizonte, e o Carnaval como um pacto comunitário em que o riso também pensa, em que a sátira também protege, em que a música não serve para distrair, serve para lembrar quem somos.
Por isso, dói que ele não veja mais o Carnaval chegar neste Plano humano. Mas talvez seja justamente aqui que sua lenda começa a trabalhar de outra forma. Porque toda vez que “O Gaguinho” ou “O Chato”, reaparecer numa esquina, toda vez que um bloco se formar com sucata, suor e alegria, toda vez que o boi acender seus bordados e a cidade se reconhecer no próprio batuque, Wellington estará presente do jeito que sempre esteve. Não como lembrança estática, mas como motor, como centelha, como aquela pessoa rara que não apenas participou da festa. Ele ajudou a inventar a festa.
VÍDEO-BÔNUS*
Mhario Lincoln, poeta e jornalista c/Editoria da Plataforma Nacional do Facetubes
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