
Natalino Salgado Filho
Na célebre tela O Retorno do Filho Pródigo, de Rembrandt, as mãos do pai — uma firme, outra terna — sintetizam a Quaresma: um tempo de volta e reencontro com o amor que nunca se cansa de esperar. Como na obra de Dante Alighieri, que inicia sua Divina Comédia "no meio do caminho" de uma selva escura, a Quaresma é o mapa para retomarmos a "vereda direita".
No capítulo 15 de São Lucas, a parábola revela que a verdadeira perda nasce antes da partida física; o afastamento ocorre quando o coração se desconecta da origem. Santo Agostinho recordava que "afastar-se de Deus é cair, voltar-se para Ele é levantar-se". Essa queda se manifesta hoje nas crises de desabrigo — da alma e do corpo.
Em 2026, a Campanha da Fraternidade nos confronta com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). O Deus que habita em nós nos desafia a olhar para quem não tem onde reclinar a cabeça. Retornar ao Pai é, portanto, inseparável do voltar-se ao irmão: a casa de Deus é espaço de perdão, mas também de responsabilidade social.
A Quaresma é a oportunidade concreta de vencer a indiferença e entrar na festa da reconciliação. A porta permanece aberta; o passo seguinte é nosso.
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