
Daudeth Bandeira: Viola que Não se Cala
Esmeralda Costa e Pedro Sampaio
No sertão nasceu um canto
De tão imenso valor
Veio qual encanto forte
Feito brilho com ardor
Era a voz muito animada
Do poeta cantador.
Na terra paraibana
No sertão tão altaneiro
Foi São José de Piranhas
O amado torrão primeiro
Deu-lhe o verso que se inflama
No repente bem faceiro.
Foi dia nove de junho
Que o destino anunciou
Mil novecentos quarenta
E cinco, o Céu confirmou
Um menino veio ao mundo
E a poesia ele abraçou.
Por Manuel foi batizado
Nome forte e de respeito
Mas ganhou por apelido
Outro nome de conceito
Daudeth foi conhecido
Por seu verso tão perfeito.
Filho de Dona de França
E de Tobias Pereira
Recebeu muito carinho
Educação verdadeira
Nos acordes da viola
Tocou a canção primeira.
Neto de Manuel Galdino
Imortal do cancioneiro
Tinha o sangue nordestino
Do repente verdadeiro
Desde cedo fez seu hino
No compasso mais ligeiro.
Entre irmãos fez cantoria
Pedro, Chico e João
Era casa de harmonia
De viola e de emoção
Cada verso florescia
No terreiro do sertão.
Desde cedo fez a rima
Com coragem de guerreiro
Sua mente era oficina
De um poeta altaneiro
Transformava qualquer sina
Em troféu de violeiro.
Nos congressos foi presença
Com talento e com bravura
Sua voz tinha firmeza
No duelo era segura
Improviso era riqueza
De repente e compostura.
Torneios pelo Brasil
Seus roteiros consagraram
Nos palcos deste país
Lindos versos ecoaram
Seu repente e seu talento
Vão brilhando onde passaram.
Defendia a tradição
Do Nordeste brasileiro
Fez da viola estandarte
Do seu povo altaneiro
Era verso e era arte
De valor tão verdadeiro.
Quando entrava pra cantar
O silêncio se formava
Raciocínio bem ligeiro
Toda plateia encantava
Era mestre da viola
Que o repente dominava.
Deixou discos com esmero
Que guardamos na memória
No compasso verdadeiro
Fez do canto sua história
Com talento altaneiro
Transformou luta em vitória.
“Um Voo na Poesia”
O seu nome consagrou
E em “Capim Verdão” fazia
Verso forte que ecoou
E no “Grande Desafio”
O repente ele mostrou.
Em “Frenacrep” se ouvia
Sua voz firme e certeira
“Cantares da Terra” honrava
A cultura brasileira
“Estação Nordeste” dava
Força à chama violeira.
Com Louro Branco cantou
Também Benoni Conrado
Com o irmão Pedro Bandeira
Talento foi esbanjado
Com Juvenal Evangelista
O verso foi redobrado.
“Conversando com as Águas”
Mostra toda poesia
“O Preço do Nosso Amor”
Tem sentir, tem garantia
Fez da dor nascer a flor
Que no jardim florescia.
“O Pai, o Filho e o Carro”
Lição de grande valor
Já o “Adeus do Nordestino”
É saudade e é clamor
Fez do simples seu destino
Com grandeza e com amor.
Tem “O Plantador de Milho”
Raiz neste nosso chão
“Sorte de Vaqueiro” é
Carregada de emoção
“Pássaro Rural” é arte
De encantar o coração.
Cada obra foi semente
No roçado brasileiro
Germinou forte na mente
Do amante e bom violeiro
Fez do verso sua ponte
Entre o povo e o celeiro.
Foi pela Universidade
Um brilhante advogado
No direito brasileiro
Pela Federal formado
Com diploma verdadeiro
Na Paraíba, seu Estado.
Na lida com tanto esforço
Em João Pessoa morava
Entre leis e cantoria
Na justiça trabalhava
Sem deixar a poesia
A luta conciliava.
Pra cultura foi exemplo
De saber e tradição
Tinha mente sempre pura
E sensível coração
Transformava a amargura
Na mais pura inspiração.
Para o Céu e para a glória
Aos oitenta foi chamado
Mas aqui no meu Nordeste
Deixou verso eternizado
No cenário brasileiro
Seu legado consagrado.
A viola silencia
Mas por um pequeno instante
Porque sua poesia
Segue viva e tão vibrante
É a chama que irradia
No Nordeste bem pulsante.
Sua imagem de guerreiro
Nos festivais permanece
Seu talento altaneiro
Cada aplauso enaltece
Feito estrela tão brilhante
O seu nome resplandece.
Foi gigante da palavra
E foi mestre do improviso
Sua rima sempre fortel
Campo fértil e preciso
Cada verso desbravado
É memória e é sorriso.
O sertão chora sentido
Mas com fé tão verdadeira
Porque sabe que Daudeth
É cultura brasileira
Que encantou com o seu verso
Toda a nação violeira.
O seu nome é patrimônio
Da cultura nordestina
É raiz, é testemunho
Cantoria genuína
Sempre brilha nos acordes
Da viola cristalina.
Daudeth foi voz do povo
De timbre tão magistral
Fez seu verso ecoar
Com talento divinal
Seu repente é para sempre
Patrimônio cultural.
No calor da cantoria
Seu pensar era profundo
Transformava tudo em verso
Com saber puro e fecundo
E mostrava o meu Nordeste
Para o restante do mundo.
Sua mente era brilhante
Seu saber iluminado
Respondia no refrão
Com pensamento afiado
Nos duelos que travava
Terminava consagrado.
No combate da palavra
Fez da rima sua espada
Cantoria impressionante
Cada estrofe bem traçada
Sua arte permanece
Será sempre divulgada.
Quando a viola gemia
Sob seus dedos ligeiros
A plateia pressentia
Versos firmes e certeiros
Era aula de cultura
Para jovens violeiros.
No improviso imediato
Foi exemplo de firmeza
Com grandeza e com respeito
Respondia com nobreza
Escutar o seu repente
Era então uma beleza.
Tinha a força do sertão
Na palavra lapidada
Carregava a emoção
E uma fé determinada
Fez da vida cantoria
Bem vivida e bem cantada.
Hoje o céu ganhou um mestre
Da mais pura tradição
Que transforma cada prece
Em perfeita oração
E mantém viva na terra
A viola em vibração.
Daudeth segue infinito
No compasso da lembrança
Seu nome é verso bendito
Que renova a esperança
É semente que floresce
Na cultura e na herança.
No terreiro da memória
Vive forte a tradição
Sua vida foi vitória
De coragem, vocação
Transformou a cantoria
Numa sagrada missão.
Partiu grande Menestrel
Nosso orgulho nordestino
O Mestre Sala dos versos
Bandeira em mastro granfino
Pra Mansão Celestial
Em pleno clima momino.
Descansou o corpo em paz
No repouso transcendente
Mas o verso que ele fez
Permanece resistente
Daudeth vive na arte
E será sempre presente.
Que Deus receba o poeta
Seja o Céu seu paradeiro
A sua nova morada
Paraíso altaneiro
Pra cantar junto aos seus anjos
O repente derradeiro.
Mín. 18° Máx. 30°