
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/o prof. Carlos Simon Jacy.
"Exdrúxulas ou Inóspitas: há palavras que não entram num poema para enfeitá-lo. Entram para feri-lo. E, ao feri-lo, fazem o verso durar séculos". (in Questões preparatórias para o ENEM).
Foi essa a trilha mais visível nas fontes consultadas que a equipe da editoria procurou anotar e desenvolver. Mas algo sério que saísse, apenas, do campo da curiosidade. Portanto, aprofundou-se o tema até chegar à crítica real: a crítica literária, que recentemente tem destacado, com pertinência, os chamados vocábulos de choque, raridade e opacidade, palavras que travam a leitura, deslocam o leitor e obrigam a língua a pensar mais alto do que o costume. Em Dante, esse gesto já aparece como conquista do indizível. Em Drummond, Mário de Andrade, João Cabral, Huidobro e Vallejo, ele reaparece como fratura, vertigem, cidade, matéria e crise do sujeito.
Tanto que esta matéria obrigatoriamente, necessitou antes de jornalística, apenas, ter uma clareza didática, emprestada com esmêro, pelo professor Carlos Simon Jacy, convidado da Plataforma. Então, quando um crítico chama uma palavra de “esdrúxula” nesse universo, nem sempre está falando apenas de gramática. Está falando, muitas vezes, daquilo que soa excessivo, abrupto, quase inóspito ao ouvido comum. Já a palavra “inóspita”, no campo poético, costuma nomear o vocábulo que parece não oferecer conforto imediato ao leitor. E é justamente aí que mora sua força.
Nos clássicos europeus, esse tipo de palavra costuma erguer um mundo. Há exemplos entre modernistas brasileiros e sul-americanos? Sim. Um, constrói; outro desmonta: de um lado, a linguagem se volta para o sublime, o mito, a transcendência e a solenidade. De outro, encosta na cidade partida, na identidade rachada, na lama social, no delírio moderno e na reinvenção do idioma. É esse arco que ajuda a entender por que certos termos continuam voltando em ensaios, teses e leituras universitárias.
A fortiori, nosso grupo escolheu dez exemplos (contundentes) que ajudam a ver, sem rodeios, como a palavra difícil pode ser a viga central do poema.
"(...) porque a dor não cabe na gramática comum". Viviane Mosé
1. trasumanar
No Paradiso, Dante Alighieri, de Florença, escreve “Trasumanar significar per verba / non si poria”. (“Transumanizar é algo que não se pode expressar em palavras”). A crítica contemporânea continua tratando o termo como uma peça decisiva da poética dantesca/gigantesca, porque ele tenta explicar o que ultrapassa o humano e já nasce admitindo que a língua não basta.
2. hipogrifo
Na abertura de La vida es sueño, Pedro Calderón de la Barca, de Madri, lança “Hipogrifo violento” (uma criatura híbrida, fruto do cruzamento entre um grifo e uma égua). A palavra não apenas nomeia um ser fabuloso. Ela instala, desde o primeiro golpe, um universo de desordem, excesso e teatralidade barroca.
3. Adamastor
Em Os Lusíadas, Luís de Camões, de Lisboa, crava “Chamei-me Adamastor”, (personifica as forças da natureza, os perigos do mar e o medo do desconhecido que os navegadores portugueses enfrentaram ao dobrar o Cabo das Tormentas). O nome monstruoso virou mais que personagem. Tornou-se síntese verbal do medo marítimo, da alteridade e do peso épico da travessia.
4. ptyx
Stéphane Mallarmé, de Paris, escreve “nul ptyx” em seu célebre soneto de difícil acesso. Em tempo: ("Sur les consoles, en le noir Salon: nul ptyx", isto é, "Sobre os consoles, no salão negro: nenhum ptyx. É central para a estética de Mallarmé e significa essencialmente - nenhuma concha - ou -inexistência de um objeto sonoro-). A palavra se consagrou como símbolo de uma cápsula do hermetismo simbolista. Soa (ou não soa) como objeto e abismo ao mesmo tempo.
5. gauche
No “Poema de sete faces”, Carlos Drummond de Andrade, de Itabira, recebe a sentença “Vai, Carlos! ser gauche na vida”. O galicismo foi incorporado pela crítica como emblema de inadequação, desencontro e estranheza do homem moderno diante do mundo. Na verdade, ser "gauche, é descrever alguém desajeitado, inábil, tímido ou sem refinamento social. Essa expressão, Drummond popularizou no Brasil. Tanto que o termo foi usado diversas vezes pelo "Pasquim", por exemplo.
6. arlequinal
Em “Inspiração”, Mário de Andrade, de São Paulo, escreve “Arlequinal!... Traje de losangos...”. A palavra veste a cidade com fragmentação, máscara e movimento. Não é adorno. É projeto estético. É São Paulo transformada em figura nervosa da modernidade.
7. alvinitente
Manuel Bandeira, do Recife, em “Alumbramento”, faz surgir a visão rara da “licorne alvinitente”. Trata-se de um vocábulo de brilho quase irreal, uma palavra que irradia mais do que explica e que a crítica lê dentro do campo da epifania verbal bandeiriana. Vale aqui um adendo: Licorne: É um sinônimo de unicórnio (a criatura mitológica com um chifre na testa. Alvinitente, um adjetivo que significa resplandecente, muito branco, cintilante, que brilha como "brancura". Tudo leva a crer que essa expressão é usada por Bandeira para evocar imagens de pureza, misticismo e beleza idealizada. Em "Licorne alvinitente" não é apenas um animal fantástico, mas parte de uma visão poética, de um sonho ou "alumbramento" (iluminação súbita) do poeta.
8. espesso
Em O cão sem plumas, João Cabral de Melo Neto, também do Recife, a matéria do mundo endurece em expressões como “líquido espesso”, enquanto o poema insiste que “o que vive é espesso”. A crítica recente tem voltado a esse núcleo para mostrar como Cabral substitui o lirismo fácil por densidade, lama, corpo e realidade social.
9. Altazor
Vicente Huidobro, de Santiago do Chile, abre seu poema com “Altazor ¿por qué perdiste tu primera serenidad?”. Na verdade, esse é o verso inicial do Canto I do poema épico Altazor (1931), do poeta chileno Vicente Huidobro. A frase marca a queda do protagonista; um "homem-anjo" ou poeta, que abandona a calma divina para mergulhar na angústia, no terror da existência e no caos, simbolizando a perda da inocência e o início de uma jornada existencial. O nome inventado já funciona como programa poético. Ele não descreve apenas uma personagem. Ele cria uma altitude verbal, um ser feito de queda, angústia e linguagem em combustão.
10. todaviiza
Em Trilce, César Vallejo, de Santiago de Chuco, no Peru, deforma o idioma ao escrever “todaviiza”. Esse tipo de torção lexical segue central na crítica vallejiana por mostrar que, em certos autores, "(...) a dor não cabe na gramática comum", nas palavras de Viviane Mosé. Assim, o poema precisa quebrar a palavra para que a experiência caiba nela. Destarte, o poemaTrilce é conhecido por quebrar as normas da linguagem para expressar que a dor de forma crua, com o poeta assumindo toda a responsabilidade pela nova estética.
Emfim, o leitor atento perceberá uma linha de força. Dante, Calderón, Camões e Mallarmé usam a palavra rara como escada para o mistério, para o monstro, para o símbolo e para o sublime. Já Drummond, Mário, Bandeira, João Cabral, Huidobro e Vallejo usam a palavra áspera como modo de expor a rachadura da modernidade. Em todos os casos, a dificuldade não é defeito. É método. O estranhamento não afasta o poema de sua verdade. Ao contrário. É o estranhamento que o aproxima dela.
Num tempo em que muita escrita corre para ser imediatamente entendida, esses vocábulos reaparecem como lembrete severo. "A grande poesia não vive apenas de clareza. Vive também de atrito", como bem deixou a entender João Cabral de Melo Neto. Há palavras que não foram feitas para acariciar o leitor. Foram feitas para acordá-lo. E talvez seja esse, ainda hoje, o traço mais moderno de todos.
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes c/o prof. Carlos Simon Jacy.
Fontes consultadas:
Dante Alighieri, Divina Commedia, “Paradiso”, Canto I — fonte usada para o verso com “Trasumanar significar per verba”.
Pedro Calderón de la Barca, La vida es sueño, na Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes — base para “Hipógrifo violento”.
Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto V, em edição da Wikisource — base para “Chamei-me Adamastor”.
Stéphane Mallarmé, “Ses purs ongles très haut dédiant leur onyx”, em Wikisource — base para “nul ptyx”.
Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia, edição da Companhia das Letras — usada para o verso “Vai, Carlos! ser gauche na vida.”
Mário de Andrade, “Inspiração”, em reprodução do poema no acervo Tudo é Poema — usada para “Arlequinal!… Traje de losangos…”.
Manuel Bandeira, “Alumbramento”, com o poema reproduzido no artigo da revista Signótica / UFG — base para “Vi a licorne alvinitente!”.
João Cabral de Melo Neto, O cão sem plumas — usei tanto a reprodução do poema quanto o apoio crítico; para o texto-base do verso com “líquido espesso”, foi útil a reprodução publicada em Vermelho.
Vicente Huidobro, Altazor, em Wikisource — fonte primária para o poema citado na matéria.
César Vallejo, Trilce XXXVI — para o trecho com “todaviiza”, usei a indexação do artigo crítico da Revista Archivo Vallejo e uma reprodução acadêmica do poema em trabalho disponível no repositório da UFSC.
Estudos críticos e acadêmicos usados para sustentar a interpretação
George Alexander Rayson, Dante’s Hapax Legomena in the Commedia: A Study of Poetic Singularity, tese de doutorado em Cambridge/Selwyn College — foi a principal base crítica para a ideia de singularidade lexical em Dante.
Clarice Zamonaro Cortez e Sarah Casagrande, “Mário de Andrade: ‘Inspiração’, poesia e música”, da Universidade Estadual de Maringá — apoio para o tratamento crítico de “Inspiração” e seu projeto estético.
André Vinícius Pessôa, “As imagens do ‘Alumbramento’ de Manuel Bandeira”, na Signótica / UFG — base crítica para o vocabulário raro e imagético em Bandeira.
Amanda Pestana Pereira e Márcia Manir Miguel Feitosa, “A percepção do espaço em João Cabral de Melo Neto: uma leitura da experiência em ‘O cão sem plumas’”, em Cadernos de Pesquisa / UFMA — apoio para a leitura da densidade material e social do poema cabralino.
O. F. Brakspear, “Trilce XXXVI, ¿el primer ars politica de César Vallejo?”, na Revista Archivo Vallejo — apoio para a leitura crítica do neologismo “todaviiza” e da deformação verbal em Vallejo.
Estudos complementares sobre Vallejo e “Trilce XXXVI”, como “More on the Sources of Trilce XXXVI” e a discussão do termo em estudos sobre o legado dissonante do modernismo hispano-americano, serviram como reforço interpretativo secundário.
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