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De Raimundo Fontenele: “MEMÓRIAS AVULSAS - PARTE FINAL”

Raimundo Fontenele é colunista da Plataforma Nacional do Facetubes.

07/10/2025 às 19h19 Atualizada em 07/10/2025 às 19h58
Por: Mhario Lincoln Fonte: Raimundo Fontenele
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Raimundo Fontenele e a professora Filomena Mota
Raimundo Fontenele e a professora Filomena Mota

Raimundo Fontenele, poeta, escritor e pesquisador.

 

Na fachada do prediozinho de dois pisos uma placa branca, escrita com letras negras, anunciava, para mim, a boa nova: HOTEL MARANHENSE.

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Estava anoitecendo quando me anunciei com um bater de palmas, em seguida uma senhora com seus quarenta e tantos anos de idade se aproximou e, antes que ela abrisse a boca, fui logo perguntando:

— A senhora é maranhense?

Ela me respondeu, de modo ríspido,  seco, que era do Crato e olhando minha maleta no chão perguntou o que eu desejava.

Praticamente sem dinheiro, eu sabia que talvez ela fosse cobrar caução ou um adiantamento, e engatei uma mentira atrás da outra. Disse que tinha vindo pra assumir um emprego no jornal do Bispo. Falar em jornal e em Bispo era alguma coisa com a qual ela não estava acostumada, diferente das referências de outros hóspedes daquele hotelzinho chumbrega.

Vi que ela forçou um meio sorriso e, abaixando-se um pouco, pegou minha surrada malinha e dizendo “me acompanhe” principiou a subida dos degraus de uma escadaria que nos levou ao segundo piso.

Parou diante de uma porta, pegou de um bolso da saia um molho de chaves e, com uma delas, abriu a porta de um quarto pequeno com duas camas de solteiro, uma mesa com duas cadeiras e um pequeno guarda-roupa. Também era só isso que cabia.

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Ela falou que eu podia me ajeitar por ali, e que um hóspede que dormia lá, esse sim, era maranhense, chamava-se Haroldo e que eu ia me dar bem com ele.

Eu acabara de tomar um banho e trocar de roupa quando o tal Haroldo chegou. Moreno, baixo, magro, com cerca de trinta anos, simpático e falante. Nos apresentamos e ele falou que trabalhava no DNER, e como já passava das sete da noite descemos para o jantar.

A dona do Hotel chamava-se Valmira, separada, tinha só uma filha que morava ali com ela, a Paula, uma louraça capaz de fuzilar o cabra só com o rabo do olho. Os outros filhos, em número de três e ambos do sexo masculino, ganharam o mundo, só Deus sabia por onde andavam e o que faziam, foram suas palavras.

À noite, antes de cairmos  no sono, eu e o Haroldo ficávamos conversando, ele falando sobre seu trabalho na construção de estradas, descrevendo os pormenores das tarefas. Notava-se que ele tinha gosto, amava mesmo o seu trabalho. Eu, da minha parte, deixava transparecer como estava perdido e sem rumo, e ele me consolava dizendo que no final tudo ia ficar bem.

Na segunda-feira de manhã fui até a arquidiocese de Fortaleza atrás do tal emprego. Primeiro tomei um chá de banco daqueles até que um padre veio me atender. Depois, pela maneira como o padre me atendeu e pela indiferença com que ouviu o meu relato, ficou claro pra mim que eu tinha ido bater na porta errada.

E foi o que aconteceu. Ele disse que não estavam precisando de ninguém, não tinham nenhuma vaga de emprego e, em outras palavras, era melhor eu ir cantar em outra freguesia.

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Também com aquele visual hippie que eu estava, barbas e cabelos longos, camiseta branca e calça jeans e um chinelão de couro, nem sei como me deixaram entrar naquele recinto.

Fiquei uns dois, três dias andando ao léu, pensando em como sair daquela enrascada, pois o dinheiro encurtara e não dava pra pagar as diárias do hotel e mais a passagem até São Luís. De certa forma, a minha vida toda até ali era um tal de procurar sarna para me coçar, outra coisa eu não tinha feito na vida.

Eu saía de manhã e só chegava na hora do jantar, certamente dona Valmira, a dona da espelunca, achava que eu estava trabalhando; uma vez até perguntou como ia no emprego e eu, na maior cara de pau, respondi que estava legal, era um ótimo serviço.

Até que um dia, por volta das onze horas, transitava pela Major Facundo quando ouvi alguém chamar meu nome, “Fontenele!, Fontenele!”, me virei e dei de cara com o Carvalinho, muito conhecido em São Luís como atleta e jogador de xadrez, aquele tipo de cara enturmado, sempre dando um jeito de sair-se bem em qualquer situação.

Paramos num bar para tomar umas e outras, misturei conhaque com cerveja e, devido ao meu estado psicológico e má alimentação mesmo, fiquei meio bêbado, momento em que o Carvalinho aproveitou para escafeder-se sem deixar nada pra despesa e nem ao menos me dizer “até logo, otário”.

Dali me arrastei até um banco de praça onde dormi umas duas horas, após o que continuei a andar a ermo e fui parar nos arredores da Prainha, onde além da beira mar existia uns casebres mal arranjados numa restrita zona de prostituição.

A mulher tinha cerca de cinquenta anos, magra, mal vestida, a pobreza, o sofrimento e a humilhação nela fizeram morada. Ela veio até onde eu estava e meio que me arrastou para um casebre onde só havia uma cama. E lá chegando foi logo tirando o vestido, mas a desgraça era tanta que recusei a oferta. Catei o que restava de dinheiro no bolso e, entregando-lhe a grana, fui saindo sem nem ouvir o que ela falava, enquanto procurava vestir-se e lágrimas rolavam dos seus pobres olhos, tristes e miseráveis.

Perto das cinco da tarde ia escalando mais uma vez a Rua Major Facundo em direção à Praça do Ferreira, pensando na situação difícil em que me encontrava: sem um centavo no bolso, empenhado no hotel sem poder pagar as diárias, desistira de arranjar emprego ou qualquer trabalho, ressaca, dor de cabeça, é, suspirei apavorado, o inferno é aqui.

Do inferno ao  céu é só um sopro, um segundo apenas e um milagre aconteceu. Eis que, senão, quando me dou conta de novo do mundo real, surge diante dos meus olhos, e caminhando em minha direção o Plácido. Abraçamo-nos, ambos admirados por tão inesperado e improvável encontro.

— Mas, rapaz, isso é tu mesmo, Fontenele? Tua família morta de preocupação por não saber teu paradeiro…

— Sou eu mesmo, cara, em carne, osso e sofrimento.

— Conta aí o que aconteceu.

Fomos andando e relatei com detalhes os últimos acontecimentos. Ele me olhou de cima a baixo e constatou que meu aspecto não era nada apresentável.

— Olha, Fontenele, nós somos uma turma e estamos aqui em companhia da professora Filomena Mota. Ela é Coordenadora Estadual do MOBRAL e viemos participar de um treinamento.

Aí me disse que estavam num hotel ali perto, e me intimou a ir com ele, tomar um banho, jantar e ele iria me apresentar à professora Filomena.

— Ela é um amor de pessoa —  ele disse —, vais ver como teus problemas terminaram.

— Deus te ouça, Plácido, Deus de ouça —, foi o que eu falei, alegre e esperançoso.

Chegando no Hotel o Plácido me apresentou à professora como um seu amigo de adolescência e juventude de São Domingos, e que além de boa pessoa era também um jovem e bom poeta.

Banho tomado, barriga cheia, ânimo renovado, mantive uma conversa agradável com a professora Filomena Mota. Falei da dificuldade financeira e ela prontamente me deu a grana necessária para despesas com passagem e alimentação até São Luís.

Nunca esqueço esse amigo querido, o Plácido, que me ajudou a sair de uma verdadeira sinuca de bico na qual eu estava metido.

À noite na pensão pedi o auxílio do meu companheiro de quarto, o Haroldo, e disse-lhe que pretendia sair sem pagar a despesa, pois estava com o dinheiro contado para passagem e comida. E além do mais se a dona Valmira me enganou, fazendo-me acreditar que ela era maranhense, eu também tinha o direito de lhe passar a perna.

O Haroldo prontamente concordou em me ajudar na empreitada, e às cinco da matina, pé ante pé, com minha maleta na mão, ele foi comigo até a porta, abriu-a e por ela desapareci na bruma da manhã em direção à Agência de Ônibus na rua Major Facundo, bem pertinho mesmo do tal Hotel Maranhense, onde, às seis da manhã, tomei o ônibus da empresa Expresso de Luxo que me levaria de volta a São Luís, e a novas e mirabolantes aventuras.

Não posso terminar este texto sem deixar de prestar uma justa homenagem a essa mulher guerreira e emancipada que foi a professora Filomena Mota.

Depois daquele nosso encontro em Fortaleza voltamos a nos encontrar também de forma, pelo menos para mim, inusitada e inesperada.

Numa tarde, alguns meses depois, eu estava lendo Assim falou Zaratustra numa depressão horrível, quando me chamaram à porta do Hotel Campinas, na rua Cândido Ribeiro onde estava residindo nessa época. Fui atender e era um motorista do Mobral, apelidado de Cabo Zé, e disse pra eu entrar naquela caminhonete da moda, uma Veraneio azul, era um chamado da professora Filomena Mota que queria me ver com urgência.

Lembro que era perto do Ateneu a Coordenação do Mobral. Ela perguntou se eu queria trabalhar com ela, era só fazer um teste de datilografia ali mesmo e naquela hora. Resultado: já saí dali empregado. Ela conseguiu a minha cedência pelo Estado, pois eu continuava funcionário da Secretaria de Educação.

Cheguei a ser seu Chefe de Gabinete, ocasião em que levei para trabalharem no Mobral os poetas e amigos Valdelino e Viriato.

Dedico a ela essas memórias avulsas, parte final, ela que era natural de Codó, tendo falecido em julho de 2021, aos oitenta e dois anos de idade. Grande mulher! Grande e inesquecível amiga!

 

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Wellson Alves de Oliveira Há 8 meses Coelho Neto- Maranhão Tuas memórias avulsas são cheias de sentimentos e causa emoção ao lê-las. Teus perrengues trouxe à tona lembranças das dificuldades que nós retirantes em busca da independência passamos por este mundão de meu Deus.
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