Editoria-Geral do Facetubes
O 1º de abril nunca foi apenas uma data de gracejos inocentes. No Brasil, o caso mais marcante e historicamente documentado continua sendo o de 1828, quando o periódico mineiro A Mentira (claro) saiu às ruas com a falsa notícia da morte de D. Pedro I. O episódio ajudou a fixar entre nós a tradição do Dia da Mentira e já nasceu com peso político, porque não inventava a queda de um anônimo, mas a morte do imperador.
Mas, antes de mostrar casos em outros lugares, vale citar um 1º de abril estrondoso, acontecido em terras maranhenses. Segundo um jornal da época, cheio de um grande "espírito de porco", divulgou a história. Um tal de "sheik das arábias", na época em que estourou a venda de petróleo da Arábia Saudita, fazendo bilionários da noite para o dia, hospedou-se em um grande hotel da cidade, recém-inaugurado, e convidou jornalistas e algumas autoridades para uma grande festa nos salões do hotel. Era 31 de março (o que leva ao 1º de abril, após a meia-noite).
Muitos aceitaram ao convite. E lá comeram, beberam e dançaram muito com o tal do "sheik". Tiraram mil fotos. Só que, no meio da festa, autoridades policiais adentraram no ambiente e prenderam o tal do "sheik", esse, um "bilionário" que tinha ido a São Luís para comprar terras para implementar uma grande usina de beneficiamento de petróleo e deveria se instalar nas terras altas de uma cidade histórica. Na verdade, quando a polícia o prendeu, a história era outra que não vale a pena nem contar porque envolve coisas pesadas. Resultado: todo mundo correndo para alcançar os fotógrafos e pedir que "velassem" urgentemente os filmes. Teve fotógrafo que perdeu, inclusive, máquinas fotográficas caríssimas, pisoteadas durante o tumulto.
Se o calendário pede riso, a história brasileira impõe cautela. A data também ficou associada ao desfecho do golpe de 1964, consolidado no fatídico 1º de abril, ainda que por muito tempo se tenha insistido no 31 de março como marco oficial. Essa disputa pela data não é detalhe: mostra como a mentira, quando entra na política, deixa de ser brincadeira e passa a operar como instrumento de poder, memória e apagamento.
No campo da imprensa, o Brasil conheceu ainda um vexame famoso. Em 1983, a revista britânica New Scientist publicou, como trote de 1º de abril, a história do “boimate”, um híbrido de boi com tomate. A brincadeira atravessou fronteiras e acabou reproduzida no Brasil como se fosse fato científico verdadeiro, num dos exemplos mais lembrados de como o jornalismo também pode tropeçar quando a mentira veste roupa de credibilidade. (Hoje, chamada de fakenews).
Em outros países, a data produziu episódios quase literários. Em 1957, a BBC levou ao ar a famosa reportagem sobre a “colheita de espaguete” na Suíça e enganou parte do público britânico.
Duas décadas depois, em 1977, o The Guardian inventou San Serriffe, um arquipélago fictício construído a partir de trocadilhos tipográficos, com mapas, anúncios e aparência jornalística impecável. Foi um trote perfeito para o mundo da palavra impressa, porque unia humor, design, edição e leitura atenta.
Quando o assunto chega mais perto dos autores, um caso exemplar é o de Nat Tate. Em 1998, o romancista William Boyd, com apoio de David Bowie, lançou a falsa biografia de um pintor inexistente, apresentada em Nova York justamente no Dia da Mentira. O episódio entrou para a história cultural porque mostrou como o prestígio do meio artístico e editorial pode, sozinho, sustentar uma ficção por algum tempo. A lição é simples e atual: entre livros, jornais e revistas, a mentira mais eficiente quase sempre é a que sabe imitar a forma da verdade.
No fim, o 1º de abril serve menos para celebrar a esperteza do que para testar a maturidade de quem lê. A falsa morte de D. Pedro I, o “boimate”, San Serriffe e Nat Tate pertencem a contextos diferentes, mas todos repetem a mesma advertência: a credulidade humana continua sendo uma matéria-prima poderosa. E talvez a melhor resposta à data, hoje, não seja rir primeiro, mas desconfiar melhor.
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