
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
René Girard, autor de um dos mais importantes livros, nesse contexto, formulou a teoria do bode expiatório, segundo a qual sociedades em tensão descarregam sua violência sobre uma vítima substituta para restaurar, ainda que provisoriamente, a estabilidade do grupo. Eles não escreveram sobre o rito brasileiro em si, mas oferecem duas das chaves mais fortes para compreendê-lo.
A tradição da malhação ou “morte do Judas” no Brasil não pertence ao núcleo litúrgico da Igreja, mas se enraizou como costume popular do ciclo pascal desde o período colonial, trazido da Península Ibérica. Em geral, o boneco de pano, palha ou trapos, (que representa Judas, o Traidor), tem exposição pública. Em muitos lugares – com efeito de alta gozação com a população em geral – é lido um “testamento” satírico e, por fim, sua surra, enforcamento ou queima. Registros históricos indicam que a prática já era visível no Brasil do século XIX, inclusive nas observações de Debret, o que mostra o quanto ela cedo se tornou parte do imaginário popular brasileiro.
Mas que obras revelam mais à fundo esse processo folclórico em profundidade? Achamos três títulos se impõem. O primeiro é Queimação de Judas: catarismo, inquisição e judeus no folclore brasileiro, de Ático Vilas-Boas da Mota, estudo dedicado precisamente ao rito e às suas possíveis camadas históricas.
O segundo é o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo, referência clássica para a origem, os modos de execução e a permanência popular da tradição. O terceiro é A Malhação do Judas: rito e identidade, de Andreia Regina Moura Mendes, pesquisa etnográfica que acompanha a confecção do boneco, a dinâmica comunitária e os sentidos sociais do ritual. Correndo por fora, vale ainda lembrar O Judas em Sábado de Aleluia, de Martins Pena, peça de 1844 que confirma a força simbólica do tema já no teatro brasileiro oitocentista.
Essas obras não dizem exatamente a mesma coisa, e é nisso que está sua riqueza. Ático Vilas-Boas da Mota lê a queimação de Judas também à luz de práticas punitivas em efígie e de ecos da Inquisição, abrindo uma interpretação histórica mais dura do costume. Câmara Cascudo ajuda a situar o rito como fenômeno de folclore disseminado, moldado por variantes regionais e por sucessivos deslocamentos sociais.
Já Andreia Mendes mostra, no trabalho de campo, que o Judas não é apenas o traidor bíblico: ele pode funcionar como depósito simbólico de desavenças, críticas locais e hostilidades difusas que a comunidade resolve teatralizar. Inclusive, no “testamento” os desaforos são dirigidos geralmente aos mandatários da cidade, do estado e do pais, e em alguns casos, de personagens populares que circulam na comunidade.
Contudo é primordial observar – se o leitor gosta de leitura – que entre os clássicos mundiais, existem dois autores mais importantes para interpretar essa manifestação são James George Frazer e René Girard. Acho que esses dois trabalhos deveriam ser lidos com atenção, pois vão fundo em toda essa isonomia clássica do ato e da representação, fundamentais para o contexto geral.
Frazer, em torno de The Golden Bough, (O Ramo de Ouro), tornou-se central no estudo comparado de sacrifícios, ritos cíclicos e mecanismos de purgação coletiva. Girard, por sua vez, formulou a teoria do bode expiatório, segundo a qual sociedades em tensão descarregam sua violência sobre uma vítima substituta para restaurar, ainda que provisoriamente, a estabilidade do grupo. Eles não escreveram sobre o rito brasileiro em si, mas oferecem duas das chaves mais fortes para compreendê-lo.
Abaixo, as principais teorias de Girard:
Bode Expiatório e Violência Coletiva: A malhação de Judas é uma representação simbólica da expulsão de uma vítima coletiva. A comunidade, sentindo tensões ou culpas, direciona todo o seu ódio e frustração para uma única figura (o boneco de Judas) para querer restaurar a ordem social.
A "Mímesis" (Imitação) da Violência: O desejo de atacar o Judas é mimético, ou seja, imitado. As pessoas imitam o ódio coletivo, unindo-se contra um inimigo comum, o que fortalece a coesão do grupo através da violência compartilhada.
Purificação e Ordem: O ato de malhar e queimar o Judas no Sábado de Aleluia representa uma expiação de pecados e a purificação da comunidade. Girard explica que, ao sacrificar simbolicamente um "culpado", a sociedade acredita estar restabelecendo a paz e a harmonia.
Violência Ritual vs. Real: Embora Girard foque na violência real nos mitos, a malhação de Judas é uma "violência ritual" ou "violência lúdica", que substitui o linchamento real de uma pessoa.
Atualização do "Traidor": Girard argumenta que o mecanismo vitimário precisa de um "traidor" ou "outro" para funcionar. Na tradição brasileira, esse papel frequentemente se estende a figuras públicas ou autoridades que causam revolta popular.
É por isso que estudiosos do comportamento humano tendem a ver a “morte do Judas” como algo maior que uma simples brincadeira de Sábado de Aleluia. Na pesquisa de Andreia Mendes, o rito aparece ligado a uma função catártica e sociointegrativa; em outro ponto, a autora mostra que Judas pode concentrar tensões, conflitos e desavenças do bairro, tornando-se a vítima simbólica sobre a qual recai a punição aceita por todos.
A analogia contemporânea é quase inevitável: por um lado, a malhação do Judas funciona como um antigo teatro social de descarrego moral; por outro, lembra certos linchamentos simbólicos do presente, quando uma coletividade escolhe um corpo ou um nome para concentrar nele sua raiva. A diferença é que, no rito popular, a violência vem codificada pelo calendário, pela encenação e pelo símbolo.
Mas, nos incentivos “morais” das redes e na vida pública atual, ela costuma chegar sem freio ritual, mais direta e mais devastadora.
EM TEMPO:
Por que SÁBADO DE ALELUIA?
O Sábado de Aleluia (ou Sábado Santo) chama-se assim porque é o momento em que a Igreja Católica volta a cantar o “Aleluia” na Vigília Pascal, após o jejum dessa palavra durante toda a Quaresma. O termo celebra o fim do luto pela morte de Jesus e o início da alegria pela ressurreição.
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