
LEOPOLDO VAZ (Convidado APB-MA).
Lançado em e.book o livro “Pião, pique-bandeira e bola de gude” que reúne produção acadêmica da USP na área de jogos tradicionais (disponível em https://jornal.usp.br/universidade/piao-pique-bandeira-e-bola-de-gude-livro-reune-producao-academica-da-usp-na-area-jogos-de-tradicionais/).
Já algum tempo venho me dedicando ao tema, na construção do Atlas do Esporte no Maranhão, em suas duas edições, além de vários artigos recuperando essas manifestações do lúdico e do movimento praticados no Maranhão, sejam por parte das nações originais, sejam africanos para cá trazidos durante a diáspora forçada, sejam aqueles de tradição portuguesa, especialmente açorianas que se manifestam desde o período colonial e subsistem até hoje.
Introdução
Resultado de mais de uma década de investigação sistemática sobre a cultura corporal maranhense, este texto insere se diretamente no itinerário intelectual do autor, consolidado na construção das duas edições do Atlas do Esporte no Maranhão e em artigos anteriores dedicados à recuperação histórica das manifestações lúdicas e de movimento no estado. O Maranhão constitui um dos territórios brasileiros em que a diversidade cultural se expressa de modo particularmente intenso nas práticas corporais, revelando continuidades, rupturas e ressignificações desde o período colonial até a contemporaneidade. Jogos, brincadeiras, danças e folguedos foram historicamente constituídos como formas de sociabilidade, resistência simbólica, educação do corpo e transmissão intergeracional de saberes.
As análises aqui apresentadas não se limitam à síntese bibliográfica, mas derivam de um esforço autoral de sistematização histórica, cruzando fontes documentais, registros de memória social e a leitura interpretativa acumulada pelo autor ao longo de seu percurso de pesquisa. Parte se do entendimento de que essas práticas são expressão da cultura corporal do povo maranhense e devem ser compreendidas como patrimônio imaterial, indissociável dos processos históricos que articularam povos indígenas originários, africanos submetidos à diáspora forçada e tradições europeias — sobretudo portuguesas, com forte presença de matrizes ibéricas de origem medieval e açoriana.
Matrizes Indígenas: o lúdico como aprendizagem e pertencimento
A abordagem das matrizes indígenas aqui desenvolvida resulta de uma leitura crítica construída pelo autor a partir de registros etnográficos, documentos históricos e narrativas orais recorrentes em comunidades indígenas e ribeirinhas maranhenses. Antes da colonização europeia, os povos indígenas que habitavam o território já desenvolviam um vasto repertório de práticas corporais e brincadeiras vinculadas à vida cotidiana, à preparação para a caça, à guerra simbólica, à convivência comunitária e aos ritos de passagem.
Jogos como a peteca, o arco e flecha, as corridas, o cabo de guerra, as brincadeiras de força coletiva — a exemplo do arranca mandioca — e os jogos de imitação de animais articulavam movimento, cooperação e aprendizagem social.
Conforme argumentado pelo autor em trabalhos anteriores, essas práticas não podem ser reduzidas a simples entretenimento infantil, pois cumprem funções pedagógicas, identitárias e cosmológicas, reforçando valores como coletividade, resistência física, equilíbrio e estratégia. Muitas delas permanecem incorporadas ao repertório lúdico popular maranhense até os dias atuais, seja em comunidades indígenas, seja ressignificadas em contextos escolares e comunitários.
Matrizes Africanas e Afro Indígenas: brincar, dançar e resistir
A leitura das matrizes africanas e afro indígenas proposta neste texto dialoga diretamente com a perspectiva defendida pelo autor de que o lúdico e o movimento constituem campos privilegiados de resistência cultural. A presença africana no Maranhão, marcada pela violência da escravidão, produziu formas próprias de ludicidade corporal, nas quais brincar, dançar, cantar e tocar constituem atos indissociáveis.
Jogos rítmicos, brincadeiras cantadas, rodas, desafios corporais e danças estavam profundamente relacionadas à religiosidade, à celebração e à organização comunitária. No Maranhão, essa herança manifesta se de maneira singular em práticas como o Tambor de Crioula, compreendido pelo autor não apenas como dança, mas como expressão complexa de cultura corporal, em que percussão, canto responsorial e movimentos circulares conformam um jogo coletivo de forte densidade simbólica. No mesmo horizonte analítico insere se o Bumba Meu Boi, entendido no vocabulário local como brincadeira, e interpretado aqui como uma síntese histórico cultural afro indígena e europeia, articulando teatro popular, dança, música, jogo cênico e participação comunitária em escala ampliada.
Matrizes Portuguesas e Europeias: jogos cavalheirescos e recreações coloniais
A análise das influências portuguesas e europeias fundamenta se em fontes históricas já exploradas em estudos anteriores do autor sobre o lúdico e o movimento no Maranhão. Desde o século XVII, registros documentais apontam a presença de práticas corporais associadas às festividades religiosas e civis, tais como cavalhadas, jogos de argolas, corridas de cavaleiros, jogo das canas e outras atividades de matriz equestre, fortemente vinculadas às elites coloniais.
Paralelamente, festas do calendário religioso, como a Festa do Divino Espírito Santo — de inequívoca origem portuguesa — incorporaram danças, jogos simbólicos, encenações e práticas corporais coletivas que, reinterpretadas no contexto maranhense, permanecem vivas em localidades como Alcântara e Guimarães. Brincadeiras infantis herdadas do repertório europeu, entre elas o pião, a bolinha de gude, a cabra cega e a amarelinha, foram gradualmente ressignificadas, integrando se ao cotidiano urbano e rural e compondo um repertório híbrido característico da cultura corporal local.
O lúdico no Maranhão oitocentista e republicano
Com base em relatos históricos e narrativas memorialísticas analisadas pelo autor, observa se que ao longo do século XIX e início do XX houve uma ampliação significativa das práticas de lazer e movimento no Maranhão. Caminhadas coletivas, caçadas, desafios de destreza, brincadeiras de rua e jogos atléticos informais compunham o cotidiano, sobretudo entre jovens, antes mesmo da consolidação do esporte institucionalizado.
Nesse mesmo período, manifestações populares como o Bumba Meu Boi foram alvo de repressões oficiais, revelando tensões entre a cultura corporal popular e os projetos civilizatórios das elites urbanas. Argumenta se, a partir da trajetória analítica do autor, que tais práticas sobreviveram justamente por sua capacidade de adaptação, negociação simbólica e enraizamento comunitário, consolidando se como elementos estruturantes da identidade cultural maranhense.
Da tradição à contemporaneidade: permanências e ressignificações
Na contemporaneidade, conforme mapeado nas edições mais recentes do Atlas do Esporte no Maranhão, jogos e brincadeiras tradicionais mantêm se presentes em contextos comunitários, escolares e em projetos culturais, ainda que em diálogo com novas formas de lazer. Brincadeiras como bete, pipa, queimada, jogos de roda e brinquedos artesanalmente confeccionados evidenciam continuidades históricas e processos de ressignificação.
O resgate dessas manifestações tem sido objeto de atenção do autor não apenas como exercício de memória, mas como estratégia de valorização cultural e educação patrimonial. O brincar é compreendido, assim, como linguagem cultural que articula corpo, memória e pertencimento, reafirmando se como dimensão indissociável da vida social maranhense.
Considerações finais
Este texto reafirma a perspectiva autoral segundo a qual as manifestações lúdicas e corporais do Maranhão constituem um mosaico histórico cultural complexo, resultante da interação entre matrizes indígenas, africanas e europeias ao longo de vários séculos. Jogos, brincadeiras, danças e folguedos não devem ser apreendidos apenas como repertórios do passado, mas como práticas vivas, dinâmicas e politicamente situadas.
Ao sistematizar essas manifestações à luz de uma trajetória contínua de pesquisa — materializada, entre outros produtos, no Atlas do Esporte no Maranhão — o autor busca contribuir para o fortalecimento da memória social, para o reconhecimento da cultura corporal maranhense e para a afirmação do direito ao brincar como dimensão constitutiva da experiência humana.
Notas etnográficas maranhenses
As observações etnográficas a seguir, incorporadas a partir do diálogo entre pesquisa documental, memória social e vivências de campo acumuladas pelo autor, buscam conferir maior densidade empírica à análise histórica desenvolvida ao longo do texto. Do ponto de vista teórico, essa leitura ancora se na Antropologia do Corpo, especialmente nas contribuições de Mauss sobre as técnicas do corpo, na noção de disposições incorporadas (habitus) desenvolvida por Bourdieu, nas abordagens fenomenológicas da corporeidade propostas por Csordas e nas reflexões de Le Breton acerca do corpo enquanto construção simbólica e sensível da vida social (Mauss, 2003; Bourdieu, 2009; Csordas, 2008; Le Breton, 2011). Nessa perspectiva, o brincar é compreendido como prática social que educa os sentidos, organiza gestos e inscreve no corpo modos culturalmente situados de perceber, agir e pertencer ao mundo.
Na Baixada Maranhense, especialmente em municípios como Viana, Penalva e São Bento, as práticas lúdicas infantis inscrevem se em um regime corporal diretamente articulado ao ambiente alagadiço e ao ciclo das águas. O corpo brincante é continuamente educado pela instabilidade do terreno, pela umidade e pela alternância entre cheia e vazante. Corridas sobre troncos, disputas simbólicas de força e jogos improvisados com materiais naturais não apenas expressam adaptação ambiental, mas constituem disposições corporais incorporadas — no sentido bourdieusiano — que produzem resistência física, equilíbrio e inventividade como saberes do corpo, aprendidos precocemente na experiência cotidiana.
Na Ilha de São Luís, em bairros populares como Madre Deus, Liberdade e Anjo da Guarda, observa se um processo intenso de socialização corporal por contiguidade. As brincadeiras de rua coexistem com ensaios e apresentações de manifestações culturais adultas, criando um campo sensível no qual crianças aprendem pelo olhar, pela escuta e pela imitação gestual. A presença constante de matracas, pandeirões e tambores faz com que ritmos, posturas e formas de ocupação do espaço sejam incorporados de modo pré reflexivo. O brincar opera, nesse contexto, como tecnologia de transmissão da cultura corporal, articulando aprendizagem sensório motora, pertencimento comunitário e memória coletiva.
Nas regiões das Reentrâncias Maranhenses e do litoral ocidental, as práticas lúdicas associadas ao mar e aos rios — como competições informais de natação, brincadeiras em canoas e jogos de equilíbrio em trapiches — constroem uma corporeidade moldada pela relação cotidiana com a água. O corpo aprende a flutuar, equilibrar se, calcular distâncias e responder a correntes e marés, desenvolvendo esquemas corporais específicos. Nessa perspectiva, o brincar não se separa das atividades produtivas ligadas à pesca e à navegação, configurando uma continuidade entre técnicas do corpo, trabalho e lazer.
No sul do estado, em áreas de transição entre cerrado e floresta, as brincadeiras rurais vinculadas ao trabalho no campo, à lida com animais e aos deslocamentos prolongados a pé evidenciam formas de educação corporal assentadas na resistência, na orientação espacial e na destreza. Jogos de perseguição, desafios físicos e disputas simbólicas funcionam como dispositivos de preparação do corpo para práticas adultas, dissolvendo fronteiras rígidas entre infância, trabalho e lazer. Trata se de um processo no qual o corpo é simultaneamente instrumento e produto da vida social.
Essas notas etnográficas, analisadas à luz da Antropologia do Corpo, reforçam a compreensão de que o lúdico e o movimento no Maranhão são práticas corporais socialmente situadas, constituídas por técnicas do corpo, disposições incorporadas e regimes sensíveis específicos. Ao integrá las à análise histórica, evidencia se que jogos e brincadeiras não apenas refletem a cultura, mas participam ativamente de sua produção, inscrevendo no corpo dos sujeitos formas particulares de perceber, agir e pertencer ao mundo social.
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Referências bibliográficas (ABNT)
BOURDIEU, Pierre. O senso prático. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.
CSORDAS, Thomas J. Corporeal experience: the phenomenology of embodiment. Cambridge: Cambridge University Press, 2008.
LE BRETON, David. Antropologia do corpo e da modernidade. Petrópolis: Vozes, 2011.
MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. 2. ed. São Paulo: Cosac Naify, 2003.
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.VAZ, Leopoldo Gil Dulcio (Org.). Atlas do Esporte no Maranhão. Versão 2025. Volume II: Cidades – Parte III. São Luís: s.n., 2025. Disponível em: .Disponível em: <https://issuu.com/leovaz/docs/atlas_do_esporte_no_maranh_o_-_volume_ii_parte_iii>. Acesso em: 18 abr. 2026. [issuu.com]
VAZ, Leopoldo Gil Dulcio. O lúdico e o movimento no Maranhão: memória, cultura e práticas corporais. ALL em Revista, v. 8, n. 3, p. 1–117, 2021. Disponível em: . Acesso em: 18 abr. 2026.
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