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Brasil Educação

“PEQUENOS CORPOS VIOLADOS: A VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA MENORES” (PArte III)

Apontamentos dentro da Literatura Brasileira contemporânea.

20/06/2026 19h18 Atualizada há 1 hora atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Linda & Neres (ensaio)
Sob original (UFMA/E-book)
Sob original (UFMA/E-book)

Ebook: Literatura, memória e discursos em trânsito: poéticas, identidades e resistências

Editores - chefes

Dr. José Dino Cavalcante – Universidade Federal do Maranhão

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Dra. Naiara Sales Araújo Santos – Universidade Federal do Maranhão

 

PEQUENOS CORPOS VIOLADOS: A VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA MENORES NA LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

Lindalva Maria Barros Neres1

1 Mestranda em Letras pela Universidade Federal do Maranhão. Graduada em Letras (Ufma)

José Ribamar Neres Costa 2  

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2 Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional (Uniderp), mestre em Educação (UCB), graduado em Letras (UFMA), História, Pedagogia e Design Editorial (Uninter).

 

(PARTE III)

Em seguida, [o homem] me tirou da cama pelo braço e me jogou no chão. Comecei a gritar. Ele pôs a mão na minha boca e começou a arrancar minha roupa. Olhei para os braços peludos dele e aquilo me causava asco.

Ao meu lado, vi o homem ainda em cima da minha mãe. E mesmo sentindo dor, ela pedia por favor para me deixar em paz, que eu era só uma menina. Mas o homem não se importou. Fingia que ela nem existia. E quando estava terminando de tirar minha roupa, todos nós ouvimos um barulho do lado de fora, ficaram em silêncio. Os homens se assustaram com alguma coisa. Logo em seguida eles se levantaram e nos mandaram para o quarto, disseram que se gritássemos eles nos matariam (Tenório, 2022, p. 37).

Essas cenas acompanham a trajetória de Estela durante toda a narrativa dos trechos de sua vida, comprovando a tese defendida por Negreiros (2022) e por Toporosi (2022) quando afirmam que a vida de uma pessoa vítima de estupro nunca mais será a mesma, pois as marcas psicológicas tendem a continuar atormentando o dia a dia da pessoa até o final de seus dias.

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No caso de Estela, a ameaça maior não estava dentro se sua casa, embora ela tenha estado diversas vezes a situações constrangedoras, principalmente nos episódios acontecidos durante a estada no exíguo apartamento de Conceição, onde a família se abrigou depois abandonar a casa onde houve a cena de estupro supracitada. A narradora declara que “as coisas na casa da Conceição começaram a ficar ruins para nós quando ela conheceu o Betão” (Tenório, 2022, 49). Certa noite, a dona do apartamento e o namorado chegaram bêbados, expulsaram os filhos dela, que dormiam no quarto e foram manter relações sexuais, sem se importarem com o fato de todas as demais pessoas passarem a madrugada amontoadas na pequena sala. Ao amanhecer, as crianças presenciam uma acalorada discussão entre Conceição, seu namorado e os filhos. Essa cena de violência verbal que beira ao contato físico se repete diversas vezes ao longo do livro, geralmente envolvendo a presença de Betão, que não é bem-vindo pelos filhos de Conceição.

 

No entanto, no conto “O Diabo Nu”, de Rinaldo de Fernandes, o agressor faz parte da família da vítima, o que corrobora com os dados apresentados pelo Ipea (2025) que dão conta de que grande parte da violência sofrida por mulheres, crianças e adolescentes ocorrem dentro da própria casa da vítima e por pessoas de seu círculo familiar, o que novamente corrobora com os dados apresentados pelo Ipea (2005).

Como se trata um conto bastante sintético, ele pode ser reproduzido na íntegra abaixo:

Você não sabe o que é ter a tua única filha, de cinco anos, e ver o que eu vi hoje. Ver tua filha caída ao pé da cama, de calcinha toda ensopada, o sangue ainda escapando-lhe por entre as pernas. Ver que o pavoroso pulou a janela, mas deixou, como uma ave desastrada, as penas pousadas no assoalho: a calça e a cueca esburacada, obscena. O diabo nu pulando o muro, as pernas brancas e secas, a bunda de pedra. O diabo que nunca, nunca mais quero ver na minha vida, porque só hoje descobri, tarde demais, que sou filha do diabo4

4 Esse conto também faz parte do livro intitulado A paixão mortal de Paulo, do mesmo autor. Cuja referência é a seguinte: FERNANDES, Rinaldo de. A paixão mortal de Paulo. Rio de Janeiro: 7Letras, 2020, página 103.! (Fernandes, 2024, pág. 74).

A forma narrativa se aproxima bastante do conto “de olhinho fechado”, de Dalton Trevisan. Novamente o texto é narrado pela mãe da vítima. Porém, desta vez, no lugar de um namorado ocioso que se aproveita da ausência da mãe de menina para abusar sexualmente da criança, tem-se a figura do avô como abusador. No conto não é possível identificar a voz da vítima, porém os vestígios deixados para trás e a própria imagem em fuga não deixa dúvidas sobre o agente do abuso.

O texto deixa evidente também que o único castigo aplicado ao agressor será o desprezo de sua filha e o consequente afastamento dele com relação à pequena vítima. Aparentemente não haverá denúncia formal em uma delegacia. Isso conduz à ideia de que, mesmo sendo fruto de uma apurada pesquisa pautada em bases científicas os resultados colhidos e divulgados pelo Ipea (2025) estão sempre abaixo dos números reais de agressões sexuais sofridas por crianças e adolescentes.

Assim como ocorre com a prosa de Dalton Trevisan, Rinaldo de Fernandes também investe na economia verbal e constrói seus textos com base em uma crítica social repleta de nuances nas quais as relações familiares podem conter rupturas, como é o caso do microconto intitulado “Infiel”, que apresenta uma relação incestuosa entre pai e filha dentro de uma igreja.

Meto-te a mão. Entre as coxas. Ninguém vendo na igreja. Penumbra. Reclinas, acolho-te o busto. E finco o dedo:

– Ui, Pai!

(Fernandes, 2016, pág. 213)

Tais contos não têm a finalidade de escandalizar a sociedade, mas sim de desnudar a aura de hipocrisia que pode acobertar cenas reprováveis em qualquer sociedade que se considere civilizada.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante de um problema tão grave como a violência cotidiana e reiterada vivida por tantas pessoas, os artistas da palavra têm pelo menos duas saídas: fingem que nada acontece, que tudo está muito bem, ou utilizam a literatura como forma de denúncia contra aquilo que lhes incomoda. dessa forma, acabam vindo à luz alguns textos literários que apresentam um tom de engajamento social ao defenderem algumas causas em especial. Uma dessas causas que merece uma atenção especial é a violência sexual sofrida por menores de idade.

Os dados estatísticos colhidos em pesquisas sérias informam que a própria casa, que deveria ser um refúgio seguro para todas as pessoas tem se tornado um lugar extremamente perigoso para as pessoas em geral, principalmente para as mulheres, as crianças e os adolescentes. O Atlas da Violência no Brasil mostra que é no próprio lar que acontecem diversas cenas da chamada violência doméstica, inclusive as que envolvem questões de natureza sexual. Parentes próximos e pessoas que conquistaram a confiança dos menores muitas vezes se tornam abusadoras e nem sempre esses fatos chegam ao conhecimento das autoridades competentes, não sendo então contabilizadas nas estatísticas relacionadas com a violência.

 

Alguns escritores bastante reconhecidos no universo literários imiscuem em seus textos cenas que podem levar os leitores a uma reflexão acerca desses inúmeros matizes de violências que estão presentes em quase toda a sociedade. É o caso de Dalton Trevisan, prosador bastante conhecido por sua escrita sintética e pelas situações sombrias que norteiam céus cenários. No livro Capitu sou eu, aparecem diversos episódios nos quais a agressão sexual sofrida por menores de idade. Dois desses episódios envolvendo estupro de vulnerável foram estudados neste artigo.

Profs. Linda & José Neres

O romance Um destino provisório, de Lucy Teixeira é outra dessas obras na qual há uma forte denúncia com relação aos sofrimentos impostos a jovens por causa de uma situação de agressão sexual. No livro, Mundoca – a protagonista da história – é uma vítima silenciosa de seu padrasto e isso irá se refletir em todas as suas atitudes a partir da violência sofrida. Algo parecido ocorre com a adolescente Estela, personagem do romance Estela sem Deus, de Jeferson Tenório. Dessa vez, os agressores não fazem parte da família, são meros desconhecidos, mas, novamente, a casa acaba servindo como cenário de uma ação condenável. É dentro de casa também que um avô violenta a própria neta, como ocorre no miniconto “O diabo nu”, de Rinaldo de Fernandes, que, em uma narração crua e sem rodeios descreve a cena pela visão da mãe da criança abusada, que, após, o flagrante, identifica recorre à figura do diabo para se referir ao pai abusador.

 

A leitura, a análise e a discussão de obras com essa temática servem para alertar os leitores para a situação de violência que ronda jovens e crianças, inclusive dentro dos próprios lares, e podem também para levantar questionamentos e encontrar soluções para esse problema que pode ter sérias consequências na vida das vítimas.

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Para ler o E-Book completo, siga o link abaixo:

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REFERÊNCIAS

BRASIL. Código Penal. Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2017.

BRASIL. ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente. São Paulo: Eureka, 2015.

FERNANDES, Rinaldo de. A mulher que sequestrou Chico Buarque. Rio de Janeiro: Garamond, 2024.

FERNANDES, Rinaldo de. Contos reunidos. São Paulo: Novo Século Editora, 2016.

IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da violência – 2025. Brasília: Ministério do Planejamento e Orçamento, 2025.

LOUZEIRO, José. Aracelli, meu amor. São Paulo: Prumo, 2012.

MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira: Modernismo. 10ª ed. São Paulo: Cultrix, 1997.

NEGREIROS, Adriana. A vida nunca mais será a mesma: Cultura da violência e estupro no Brasil. Rio de Janeiro: Objetiva, 2021.

NERES, Gabriel Barros. Jornalismo literário: uma análise de Araceli, meu amor à luz do Novo Jornalismo. São Luís: Socigraf Gráfica e Editora, 2020.

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