Carlos Furtado
Essa fruta — o abricó — sempre me transporta à minha primeira infância. Recordo-me do colégio em que estudei, o ADAPI, até hoje existente na Avenida Senador João Pedro, nas proximidades do Canto da Fabril. No pátio, havia três pés de abricó que, quando amadureciam, deixavam cair seus frutos ao chão, anunciando, com um som seco, um dos momentos mais esperados por todos nós.
Bastava o ruído da queda para que a tranquilidade se rompesse. Em segundos, meninos e meninas saíam em desabalada carreira, numa disputa inocente e vibrante. O abricó, de sabor singular, transformava-se em um verdadeiro troféu. Quem o recolhesse primeiro exultava de alegria — e quase sempre o levava para casa, não apenas como conquista, mas como partilha com a família.
Naquele tempo, cada turma tinha sua única professora — eram três ao todo, uma para cada período do jardim de infância. Havia uma rotina simples, mas cheia de significado, que hoje se agiganta na memória.
Quando a professora faltava, éramos confiados à diretora, Dona Ana. E, curiosamente, apesar da pouca idade que tínhamos, sua imagem nunca se apagou. Muito magra, fumante inveterada, de presença firme, ela marcava o ambiente com sua autoridade silenciosa.
Havia, porém, um ritual que nos intrigava. Dona Ana aguardava tranquilamente que retornássemos para a sala de aula. Em seguida, dirigia-se ao aluno que havia conseguido o abricó e, com naturalidade, solicitava que o entregasse. Colocava-o sobre sua mesa com um gesto sereno, quase protocolar.
Nós, na inocência própria da idade, acreditávamos que, ao final da aula, o fruto seria devolvido ao seu legítimo conquistador. Mas não. Ao término das atividades, Dona Ana simplesmente apanhava o abricó, guardava-o consigo e partia, deixando para trás nossos olhares silenciosos e uma frustração difícil de explicar.
Talvez ali, sem que percebêssemos, começávamos a entender que nem sempre as expectativas se cumprem, e que o mundo dos adultos possui regras próprias, nem sempre compartilhadas com o universo infantil.
Hoje, ao recordar o abricó, não é apenas o sabor que retorna. É toda uma época: o pátio, os colegas, as corridas, os sonhos simples e a pureza de um tempo em que a felicidade cabia inteira dentro de um fruto que caía do pé — mesmo quando ele não ficava conosco.
Algum tempo atrás, voltei ao ADAPI e naquele templo sagrado, não contive a emoção, observando aquelas crianças ocupando um lugar em que já estive e lembrando de um tempo vivido e que não volta mais.
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