*Mhario Lincoln
A Sociedade Recreativa Favela do Samba (leia-se Euclides Moreira Neto), abriu, até 10 de setembro de 2026, o período de inscrições para compositores interessados em concorrer à escolha do samba-enredo oficial do Carnaval de 2027. O hino será inspirado no enredo “GAMAR: O Mágico Semear de Artes, Sonhos e Transformações”, de autoria do carnavalesco Pedro Padilha, concebido a partir da metáfora da semente, do semeador e do terreno fértil como forças capazes de produzir arte, sonhos e transformação.
Ou seja, a linguagem falada por muitas escolas de samba brasileiras do primeiro escalão, começam a ser direcionadas - com maior frequência - a "motivos" ou temas culturais. Muito bom isso! Basta lembra daquele Carnaval carioca recente, quando várias escolas de samba do grupo especial elegeram a literatura do Brasil como musas inspiradoras de seu sambas-enredos. Foi a Acadêmicos do Salgueiro, que levou para a avenida o Brasil indígena, a partir da tragédia e da luta do povo Yanomami, através do enredo "Hutukara", o céu que desabou na terra-floresta, a escola percorre a cosmologia Yanomami e critica a tirania do invasor.
Esse belo enredo teve como base o livro "A Queda do Céu", do Xamã Davi Kopenawa e Bruce Albert, cuja obra é vista como um manifesto decolonial, desafiando as narrativas dominantes e promovendo uma desobediência epistêmica.
Kopenawa, através da escrita, articula o poder do discurso xamânico Yanomami, posicionando-se contra as imposições e violências do colonialismo. Este livro representa uma voz autêntica na luta pela descolonização do conhecimento indígena e oferece alternativas metodológicas decoloniais, destacando a importância de ouvir e dialogar com as perspectivas indígenas​​.
Debrucei-me em suas mais de 700 páginas nos últimos 4 meses e realmente me surpreendi em vê-lo transformado em enredo: se todas as Escolas de Samba fossem relicário para divulgar nossa literatura seria realmente um grande trabalho. O importante é que algumas delas delas, começam a seguiu esse caminho com maior acuidade.
Já a Portela levou para a Sapucaí o enredo: “Um defeito de cor”. Vale dizer que é um enredo composto a partir do romance homônimo de Ana Maria Gonçalves, que levou todo mundo a uma reflexão sobre a história das "negras mães de todos nós". Pela trajetória de uma matriarca negra, a escola narra "a busca pelo sentido" da existência dos negros no Brasil.
As perguntas que o enredo faz são: "Por que somos? Por que assim fazemos? Por quem lutamos? Em memória do que?". Esse fato é tão importante que a autora disse: "Expresso minha satisfação com a escolha da obra, haja vista a importância de popularizar a literatura e suas temáticas através do carnaval". e eu digo, "na mosca", Ana Maria Gonçalves!
A Acadêmicos do Grande Rio, se enveredou pelo enredo, "Nosso destino é ser onça". A escola de Duque de Caxias seguiu as pegadas do felino cuja presença pode ser observada em diferentes narrativas míticas de povos originários do Brasil e da América Latina. Bom, mas vamos ao centro de minha escrita hoje: o povo Yanomami. E quando se fala nele, a figura de Davi Kopenawa vem imediatamente à cabeça. E por que?
Leiam essa passagem que virou 'top', em todas as citações do livro que li, nesse intervalo de pesquisas:
O um diálogo de um General (exatamente no dia 19 de abril de 1989), com Davi Kopenawa:
- O povo de vcs gostaria de receber informações sobre como cultivar a terra?
Ao que o Xamã replicou:
Não! O que eu desejo é obter a demarcação de nosso território.
Para entender melhor o que se vai seguir, num rápido apanhado do livro, se deve complementar esse diálogo com o que Davi Kopenawa, algum depo depois, em uma entrevista pública:
"Os brancos nos chamam de ignorantes apenas porque somos gente diferente de- les. Na verdade, é o pensamento deles que se mostra curto e obscuro. Não conse- gue se expandir e se elevar, porque eles querem ignorar a morte. [...] Ficam sempre bebendo cachaça e cerveja, que lhes esquentam e esfumaçam o peito. É por isso que suas palavras ficam tão ruins e emaranhadas. Não queremos mais ouvi-las. Para nós, a política é outra coisa. São as palavras de Omama e dos xapiri que ele nos deixou. São as palavras que escutamos no tempo dos sonhos e que preferimos, pois são nossas mesmo. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos(...)". "A Queda do Céu"/p. 390.
Outros excertos denunciados pelo Xamã Yanomami, dentro do livro devem ser observados com muita acuidade realística. Por exemplo: garimpos ilegais.
"O garimpo ilegal em terras indígenas, especialmente no território Yanomami, revela uma estrutura de exploração e violência que ecoa as práticas coloniais históricas. São devastadores. Assim como no narcotráfico e no colonialismo, a dinâmica do garimpo é sustentada por homens em situações de vulnerabilidade, enquanto os verdadeiros beneficiários, muitas vezes envolvendo políticos influentes, permanecem distantes e protegidos. A legislação minerária, que alguns desses políticos buscam liberalizar, facilita ainda mais essa exploração, colocando em risco não apenas o meio ambiente, mas também a vida e a cultura dos povos indígenas (...)". A contaminação por mercúrio, um metal pesado utilizado no processo de extração de ouro, tem sido identificada em níveis alarmantes, afetando diretamente a saúde dos indígenas. Além disso, o garimpo tem sido associado ao aumento da violência, desmatamento e à disseminação de doenças infectocontagiosas como a malária. Os conflitos resultantes dessas invasões têm levado a mortes e desestruturação social, com relatos de abuso sexual e desvio de medicamentos. A presença dos garimpeiros também interfere na educação, com o fechamento de escolas e atração de jovens indígenas para atividades ilícitas (..)".
A partir dessa análise, é possível perceber que a obra "A Queda do Céu" de Davi Kopenawa transcende a mera etnografia, tornando-se um manifesto político e poético que denuncia as consequências nefastas do garimpo ilegal. O livro, assim como o conto "O recado do morro" de Guimarães Rosa, convida o leitor a refletir sobre as relações de poder, exploração e resistência, evidenciando a urgência de proteger os povos indígenas e seus territórios.
Destarte, ao trazer para a avenida, seja em São Luís do Maranhão ou na Sapucaí, no Rio de Janeiro, os enredos acabam por ser transformados em grandes histórias que vão além do entretenimento. E mais: as Escolas de Samba, passam a contribuir de forma direta para a educação e conscientização das pessoas, demonstrando o potencial da literatura em dialogar com diferentes expressões artísticas e alcançar um público mais amplo.
Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira.
Referências:
"A Queda do Céu – Wikipédia, a enciclopédia livre". Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Queda_do_C%C3%A9u
"“A queda do céu”: o pensar decolonial na obra de Kopenawa Yanomami (1990-2015)". Disponível em: https://repositorio.bc.ufg.br/tede/items/05dc39f5-9d3f-447a-a07f-40a0eeb67734
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