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Na apresentação de Contos e Crônicas, Jul Leardini - um dos mais aplaudidos diretores de Cinema e Teatro da região sul do Brasil, profundo conhecedor da linguagem brechtiana, propõe uma leitura sem obrigação de sequência, formada por fragmentos que se aproximam do modo como a memória organiza a experiência. O autor, também formado em Filosofia pela UFPR e premiado no cinema, no teatro e na literatura, transforma pequenas narrativas em pontos de observação. Em “O Meteoro”, poucas linhas bastam para colocar diante do leitor uma questão antiga e sempre presente — o que fazemos quando a verdade aparece à nossa frente?
O episódio é simples. Um meteoro gigantesco cai do céu trazendo inscrita a Verdade. Ninguém deseja aproximar-se para conhecê-la. Todos fogem, cada qual à sua maneira. O objeto permanece no lugar, esperando alguém disposto a ler sua inscrição. Basicamente isso. Contudo, a força do texto nasce justamente dessa economia. A verdade chegou, tornou-se visível, ficou disponível. O problema já não está em encontrá-la. Está na disposição humana de encará-la.
Sob o ponto de vista lógico, fugir do meteoro não modifica aquilo que está escrito nele. Uma proposição verdadeira não perde sua condição porque alguém se recusa a examiná-la. A recusa altera o conhecimento de quem foge, não o conteúdo daquilo que existe. Leardini constrói assim uma imagem precisa da diferença entre realidade e aceitação. Fechar os olhos diante de um fato modifica a consciência do observador. O fato permanece onde estava.
Socialmente, o conto alcança outra dimensão. Existem verdades capazes de exigir revisão de comportamentos, reconhecimento de erros, abandono de privilégios e ruptura com certezas coletivas. Conhecê-las pode ter um custo. A fuga diante do meteoro pode ser lida como defesa das próprias conveniências. O indivíduo prefere conservar determinada narrativa sobre si, sobre seu grupo ou sobre a sociedade. A ignorância, nesse cenário, deixa de ser simples ausência de informação e passa a funcionar como escolha.
Bertolt Brecht tratou diretamente desse problema em Writing the Truth: Five Difficulties - ou - "cinco dificuldades para escrever a verdade". No ensaio, publicado originalmente na década de 1930, ele sustenta que escrever e reconhecer a verdade exigem coragem, inteligência, habilidade, discernimento e capacidade de fazê-la chegar a quem possa agir. Uma de suas formulações pode ser traduzida assim: “é preciso coragem para escrever a verdade quando ela é combatida por toda parte.” O meteoro de Leardini produz situação semelhante. A verdade está presente. Falta a coragem de aproximar-se dela.
Hannah Arendt amplia essa questão para a vida pública. Em Truth and Politics - ou -"Verdade e Política" publicado em 1967, observa que a verdade factual encontra forte hostilidade quando contraria interesses ou prazeres de determinado grupo. Sua conhecida formulação de abertura registra, em tradução livre, que “a verdade e a política estão em relações bastante ruins uma com a outra.” O problema descrito por Arendt ajuda a compreender o conto. A rejeição de uma verdade pode nascer menos da dúvida sobre sua existência e mais das consequências que seu reconhecimento produziria.
Há ainda um aspecto inquietante. Todos fogem “a seu modo”. Essa expressão desloca o episódio do campo individual para o coletivo. Cada pessoa pode criar seu próprio mecanismo de evasão. Uns transformam o fato em opinião. Outros procuram desacreditar quem o anuncia. Alguns preferem o silêncio. Outros buscam uma explicação capaz de preservar aquilo em que já acreditavam. O meteoro permanece imóvel enquanto os homens constroem caminhos para permanecer longe dele.
O pequeno texto de Jul Leardini termina sem revelar o conteúdo da inscrição. Essa ausência entrega ao leitor a parte decisiva da narrativa. Saber exatamente qual verdade estava escrita (ou inscrita na pedra) importa menos do que perceber a reação produzida por sua presença. O meteoro torna-se espelho. Diante dele, a pergunta deixa de ser “qual é a verdade?” e passa a ser outra, mais difícil — se ela caísse hoje diante de nós, teríamos coragem de chegar perto e ler?
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Fontes de referência filosófica: Bertolt Brecht, “Writing the Truth: Five Difficulties”, registrado na bibliografia especializada da University of Wisconsin–Madison; Hannah Arendt, “Truth and Politics”, publicado originalmente em The New Yorker, em fevereiro de 1967.
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