Plataforma Nacional do Facetubes — Editoria de Pesquisa e Extensão
O Fragmento de Sísifo ocupa o lugar mais importante entre os textos poéticos antigos de autoria incerta ligados ao ateísmo; Shelley, Swinburne e Diágoras constituem três casos centrais de controvérsia; e Queen Mab representa o ataque moderno mais sistemático ao cristianismo institucional.
Esta é a verdade: por mais que avançasse a pesquisa, não houve consenso acerca da existência de uma classificação acadêmica capaz de estabelecer, de maneira definitiva, qual seria “o poema ateu mais polêmico da história”, premissa levantada pela reunião de pauta da equipe da editoria. Nem no Velho Mundo, nem no Brasil, com um vasto número de poetas que se intitulam “ateus”. (Veja mais abaixo alguns deles).
Há, no entanto, um texto que reúne três características raramente encontradas numa mesma obra: antiguidade, autoria controvertida e uma explicação abertamente política para o nascimento da religião. Trata-se do chamado Fragmento de Sísifo, composto nas últimas décadas do século V antes de Cristo e atribuído, conforme a tradição consultada, ao poeta e político ateniense Crítias ou ao dramaturgo Eurípides. Eis a dúvida!
Preservado por Sexto Empírico, o fragmento apresenta uma teoria contundente: em determinado momento da história humana, as leis teriam conseguido impedir os crimes praticados publicamente, mas não aqueles cometidos em segredo. Assim, um homem inteligente teria então inventado os deuses, colocando-os simbolicamente no céu, de onde poderiam observar pensamentos, palavras e ações escondidas.
A religião surgiria, nessa narrativa, como mecanismo de vigilância moral. A Stanford Encyclopedia of Philosophy classifica a passagem como uma das manifestações mais explícitas do ateísmo antigo, enquanto estudos recentes da Universidade de Cambridge a tratam como um dos documentos mais conhecidos da história da descrença.
Então, quando começaram os poemas escritos por ateus? A resposta historicamente mais segura conduz novamente à Grécia do século V antes de Cristo. Diágoras de Melos, poeta lírico conhecido pelas fontes antigas como “o Ateu”, é a primeira figura literária constantemente associada ao ateísmo. Pouco de sua poesia sobreviveu e a natureza exata de sua descrença ainda é discutida. As fontes, porém, registram sua oposição à religião tradicional, sua acusação por impiedade e sua transformação em símbolo do descrente na Antiguidade. A historiografia especializada considera Diágoras o primeiro personagem antigo regularmente apresentado como ateu, embora reconheça a fragilidade documental em torno de sua vida e de suas ideias.
Porém o Fragmento de Sísifo é mais importante do ponto de vista textual porque seus versos sobreviveram. Ele não apenas questiona os deuses: formula uma teoria segundo a qual a religião teria sido inventada para controlar a sociedade. Por isso, constitui um ponto inicial mais seguro para uma história da poesia ateia – até de certa forma e entendimento, apócrifa - preservada.
Não é uma crítica ao cristianismo, que ainda não existia, mas ao princípio de uma divindade onisciente utilizada como fundamento da ordem moral.
Cerca de quatro séculos depois, o romano Lucrécio escreveu De rerum natura, ou Da natureza das coisas. O longo poema apresenta em versos a física epicurista, rejeita a criação providencial do universo, combate o medo da morte e procura libertar o ser humano do terror religioso. Lucrécio, contudo, não deve ser classificado automaticamente como ateu no sentido moderno: o epicurismo admitia a possível existência dos deuses, mas negava que eles governassem o mundo, aplicassem castigos ou interferissem na vida humana. O poema é materialista e antiprovidencial, não necessariamente uma negação literal de toda divindade.
Durante muitos séculos, a poesia explicitamente ateia permaneceu rara, clandestina ou disfarçada por personagens, alegorias e sátiras. A acusação de ateísmo poderia significar censura, prisão, perda de direitos ou perseguição política. Isso porque, estudos sobre o Romantismo britânico observam que o ateísmo publicamente declarado permaneceu sujeito a sanções legais e sociais durante todo o período. A descrença existia, mas nem sempre podia assinar o próprio nome.
No meio desse turbilhão aparece Percy Bysshe Shelley. Em 1811, ainda estudante, publicou The Necessity of Atheism — A necessidade do ateísmo — e foi expulso da Universidade de Oxford depois de se recusar a negar a autoria. Dois anos mais tarde, lançou privadamente Queen Mab, poema filosófico no qual vinculou religião institucional, poder político, guerra, desigualdade e dominação sacerdotal. A obra circulou posteriormente entre reformadores e trabalhadores britânicos, chegando a ser descrita pela crítica como uma espécie de “bíblia” dos radicais.
Outra obra nesse mesmo caminho é de Algernon Charles Swinburne. Sua coletânea Poems and Ballads, de 1866, provocou reação na sociedade vitoriana por reunir erotismo, paganismo, liberdade sexual e hostilidade ao cristianismo estabelecido. A Oxford Dictionary of National Biography identifica uma fase explicitamente ateia em seus poemas de 1866. A edição acadêmica preparada pela Oxford University Press o define como um dos poetas mais brilhantes e controversos do século XIX e como um crítico permanente do cristianismo institucional.
Outro nome indispensável é o escocês James Thomson, conhecido como B. V., autor de The City of Dreadful Night, publicado inicialmente em 1874. Ateu e republicano, Thomson produziu sátiras contra a religião e a monarquia. Seu grande poema não combate o cristianismo por meio de uma proclamação política direta; apresenta uma cidade noturna na qual esperança, fé e possibilidade de salvação desapareceram. É uma das expressões mais sombrias do universo sem providência divina na poesia vitoriana.
Então vem a pergunta que não quer calar: qual é o poema mais forte na contramão do cristianismo na Europa? Queen Mab é o candidato mais consistente. Shelley não se limita a substituir Cristo por uma divindade pagã. Questiona a revelação, a providência, a autoridade sacerdotal, a ideia de punição eterna e a utilização da religião pelos governos. Mas, se o critério for a força concentrada de uma única composição lírica, a resposta muda para “Hymn to Proserpine” — “Hino a Prosérpina”, de Swinburne. Algernon Charles Swinburne foi um poeta, dramaturgo, romancista e crítico inglês da época vitoriana, conhecido pela controvérsia gerada no seu tempo pelos seus temas sadomasoquistas, lésbicos, fúnebres e anti-religiosos.
Mais adiante tem um poema mais provocador: “Inno a Satana” — “Hino a Satanás”, escrito por Giosuè Carducci em 1863 – pasmem! Giosuè Carducci, poeta Toscano, primeiro italiano agraciado com o Nobel de Literatura, recebido em 1906.
Porém, há críticos defensores que afirmam entender o poema não com a figura do Satanás é exposta na Bíblia. Esse, de Carducci, funciona no poema como símbolo da razão, da matéria, da ciência, da rebelião política e do progresso moderno. A crítica italiana ressalta o caráter anticlerical e positivista da obra; não uma adesão literal ao satanismo. Carducci, vencedor do Nobel de Literatura de 1906, utilizou a figura do adversário bíblico como alegoria de tudo aquilo que resistia ao poder político da Igreja.
A distinção é decisiva. Poesia ateia, poesia anticlerical, poesia apócrifa, poesia pagã e poesia anticristã não são sinônimos. Um ateu pode escrever sobre silêncio, morte ou natureza sem atacar qualquer religião. Um cristão pode produzir uma crítica severa à Igreja. Um poeta pode colocar uma declaração ateia na boca de uma personagem sem transformá-la em profissão pessoal de fé. A análise literária precisa separar autor, narrador, personagem dramática e contexto histórico.
Quando o assunto foca no Brasil, Antonio Cicero e João Cabral são os exemplos mais seguros de poetas brasileiros que se declararam ateus. Ferreira Gullar e Carlos Drummond pertencem mais precisamente ao campo do agnosticismo e da descrença, embora tenham produzido uma poesia frequentemente materialista, secular e sem expectativa de salvação sobrenatural.
E Augusto dos Anjos? Ele também costuma aparecer nesse debate por sua visão biológica do homem, por sua linguagem científica e pela obsessão com a decomposição do corpo. Parte da crítica considera que, em sua poesia, “o naturalismo é o credo e o materialismo é a doutrina”, como escreveu o crítico literário Álvaro Lins, no ensaio “Augusto dos Anjos, poeta moderno”, publicado originalmente no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, em março de 1947.
Contudo a Plataforma cometeria um erro se classificasse dos Anjos como ‘ateu essencial”, pois sua obra combina materialismo, imagens bíblicas e tensões espirituais. Por essa razão, ele pode ser tratado como precursor da poesia materialista, mas não com a mesma certeza documental dos quatro nomes anteriores.
Vamos relembrar: Antonio Cicero e seu ateísmo declarado. Foi o caso mais inequívoco. Poeta, filósofo e integrante da Academia Brasileira de Letras, afirmou ter sido ateu desde a adolescência. Sua produção não se limitou a atacar religiões; construiu uma ética baseada na autonomia individual, na finitude e no valor da experiência humana. Em sua carta de despedida, escreveu que, por ser ateu, entendia caber ao próprio indivíduo decidir sobre o sentido e os limites de sua vida.
No poema “Brasileiro profundo”, a referência aos deuses termina em negação:
“Tenho em mim todos os deuses
E nenhum.”
Os versos sintetizam sua posição: as divindades existem como elementos culturais, mitológicos e poéticos, mas não como verdades transcendentes.
Outro é João Cabral de Melo Neto — ateísmo racional e poesia concreta. Ele se declarou ateu em entrevista concedida em 1998. O dado mais curioso é a contradição que ele próprio admitia: embora não acreditasse em Deus, continuava temendo o inferno que lhe fora apresentado durante a educação religiosa na infância. Para o poeta, essa permanência do medo demonstrava que o ser humano podia conservar marcas psicológicas de uma crença já abandonada racionalmente.
Sua poesia evita revelações, milagres e transcendências. Prefere a pedra, a faca, o rio, a cana, o trabalho e a realidade social. Em “Metadicionário”, João Cabral submete até o nome de Deus às limitações da linguagem:
“Nem mesmo Deus tem a faculdade
de se chamar em qualquer língua.”
Vale ainda citar Ferreira Gullar — agnóstico, materialista e humanista. O maranhense dizia ser agnóstico. Para ele, Deus era uma criação humana destinada a responder às perguntas que permanecem sem solução. Gullar afirmava que a vida não traz um sentido previamente estabelecido; cabe ao ser humano construí-lo. Sua posição não era de militância antirreligiosa, pois reconhecia a importância psicológica e cultural das religiões.
Em sua poesia, o sujeito não encontra uma essência divina ou imortal. Encontra fragmentação, linguagem, memória, corpo e consciência. Em “Traduzir-se”, escreve:
“Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.”
O poema apresenta a identidade como divisão e conflito, não como alma permanente concedida por uma instância superior. O indivíduo é composto por relações sociais, solidão, matéria, linguagem e experiência.
E Carlos Drumond de Andrade? Foi um agnóstico rigoroso? Nesse caso, Drummond não deve ser classificado simplesmente como ateu. Ele se declarou “rigorosamente agnóstico”: não afirmava a inexistência de Deus. Ao mesmo tempo, dizia viver bem sem qualquer crença divina e considerava a vida uma experiência que se encerra definitivamente com a morte.
Essa posição aparece com força em “Os ombros suportam o mundo”, publicado em “Sentimento do mundo”:
“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.”
O poema descreve um momento histórico em que o homem já não espera socorro do céu. As guerras, a fome e o sofrimento devem ser suportados e enfrentados no plano humano. Seu encerramento — “A vida apenas, sem mistificação” — constitui uma das formulações mais fortes da poesia brasileira sobre uma existência sem consolo metafísico.
Diante de todos esses exemplos, vale dizer que a poesia da descrença – do ateísmo - não começou com Nietzsche, Shelley e nem passou por Augusto dos Anjos, João Cabral, nem Gullar, Drummond ou, ainda, pelos movimentos revolucionários modernos. Seus primeiros vestígios documentais pertencem à Grécia clássica. Desde o Fragmento de Sísifo, o gesto fundamental permanece reconhecível: retirar dos deuses a autoria da ordem humana e devolver aos próprios homens a responsabilidade pelas leis, pelos castigos, pelas injustiças e pelo sentido da existência.
E você, leitor, o que acha de tudo isso?
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Fontes consultadas: Tim Whitmarsh, “Atheistic Aesthetics: The Sisyphus Fragment, Poetics and the Creativity of Drama”, Cambridge Classical Journal; The Cambridge History of Atheism; The Cambridge Companion to the Sophists; The Cambridge Companion to British Romanticism and Religion; Martin Priestman, Romantic Atheism: Poetry and Freethought, 1780–1830; Oxford Dictionary of National Biography; Stanford Encyclopedia of Philosophy; Poetry Foundation; Universidade de Oxford; Treccani; Fundação Nobel; estudos hispânicos sobre Jorge Luis Borges.
Supervisão bibliográfica de Mhario Lincoln: história do ateísmo, filologia clássica, literatura comparada e relações entre poesia e religião. Não houve entrevista direta com pesquisador externo; a revisão técnica foi fundamentada nas obras acadêmicas identificadas acima.
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