Editoria de Literatura e Arte-Plataforma Nacional do Facetubes
Nos três movimentos apresentados por Joema Carvalho(*) — “Espinha Dorsal (1)”, “Espinha Dorsal (2)” e “Arte” — existe uma procura que atravessa as palavras como uma linha subterrânea: a tentativa de encontrar aquilo que sustenta a existência quando todas as certezas visíveis parecem insuficientes. A própria expressão “espinha dorsal” deixa de pertencer somente ao corpo. Torna-se estrutura, eixo, princípio de sustentação. É aquilo que permanece enquanto tudo se move.
Em “Espinha Dorsal (1)”, a poeta fragmenta a matéria - em “doce / sal / leite / cio” - cria uma sequência quase mineral, líquida, corporal. As palavras surgem separadas, como elementos anteriores à construção de um pensamento completo.
A linguagem parece retornar ao estado primordial das coisas. Quando essa espinha mergulha “n’água” e se torna “fluida em si”, Joema introduz uma contradição poética importante: aquilo que sustenta também pode ser flexível.
Isso mostra que nemtoda estrutura precisa ser rígida. Há forças que permanecem justamente porque aprenderam a acompanhar o movimento. Isso também lembrou o provérbio oriental que diz: O bambu que se curva ao vento é mais forte do que o carvalho que resiste.
Essa ideia alcança seu núcleo nos versos “dança no sentido / que lhe cai bem”. A existência não aparece submetida a uma trajetória geométrica. Ela dança. Escolhe caminhos, recebe acontecimentos, modifica-se. Surge então “a fé do invisível” e, logo depois, “a utopia da existência”.
Em “Espinha Dorsal (2)” Joema amplia esse movimento para o espaço. “luz e sombra” deixam a dimensão individual e passam a participar da procura pelo “sentido / de existências”. O plural merece atenção. Não há uma única existência sendo investigada.
A imagem do “buraco de minhoca” introduz um conceito vindo da física dentro de uma linguagem essencialmente poética. Não interessa aqui transformá-lo em explicação científica. Ele funciona como metáfora da passagem: ligação entre distâncias, tempos e possibilidades. A poesia faz exatamente isso.
Quando as existências “brilham em teias / e divagam / em qualquer direção”, Joema abandona a ideia de que viver significa avançar por uma estrada predeterminada. A teia substitui a linha reta. Trata-se de uma percepção próxima de uma questão filosófica permanente: o sentido da vida talvez não esteja pronto à espera de ser descoberto.
O terceiro poema, “Arte”, funciona quase como uma síntese dos anteriores. Seus primeiros versos já estabelecem o princípio de tensão: “contraste e dinâmica / criação e morte”. Criar passa a significar trabalhar entre forças opostas. Toda criação contém desaparecimentos.
Há especial força na imagem dos “cacos / que se reconstroem”. A poesia surge aqui não como representação de uma realidade perfeita, e sim como reorganização daquilo que foi fragmentado. Essa talvez seja uma das imagens centrais do conjunto.
Destarte, Joema Carvalho fecha esse percurso falando de “uma escala / de tempo / e cor”. Tempo e cor passam a pertencer à mesma medida poética. O tempo deixa marcas; o sentimento lhes atribui tonalidades. Esse poema adulto mostra uma Joema Carvalho trabalha com poucas palavras e grandes espaços entre elas. Esses vazios também participam do poema. São pausas para que o leitor complete aquilo que não foi declarado. Apresenta versos, deslocamentos e perguntas silenciosas sobre matéria, existência, tempo e criação.
Parabéns Joema Carvalho. Você soube muito bem delinear água e espaço, entre luz e sombra, entre criação e morte, situando o ser humano no lugar que talvez sempre tenha ocupado: diante do desconhecido, recolhendo seus cacos e transformando-os, ainda assim, em forma, movimento e arte.
A ÍNTEGRA DO POEMA DE JOEMA CARVALHO
ESPINHA DORSAL (1)
espinha dorsal
doce
sal
leite
sio
espinha dorsal
n´água
fluida em si
espinha dorsal
dança no sentido
que lhe cai bem
na fé do invisível
na utopia da existência
ESPINHA DORSAL (2)
luz e sombra em movimento
na busca do sentido
de existências
num buraco de minhoca
n’algum lugar no espaço
que brilham em teias
e divagam
em qualquer direção
ARTE
contraste e dinâmica
criação e morte
pigmentos inspirados
sustenido em si
diluídos na harmonia
de cacos
que se reconstroem
na marcação duma escala
de tempo
e cor.
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(*) JOEMA CARVALHO - Escritora, engenheira florestal, membro da Academia Poética Brasileira-APB/PR, colunista da Plataforma Nacional do Facetubes e Membro da Academia de Letras do Brasil-ALB, seccional Paraná.
(*) Editoria de Literatura e Arte-Plataforma Nacional do Facetubesc/Mhario Lincoln.
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