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Meio Ambiente SEGUNDA POÉTICA

JOEMA CARVALHO: A ESPINHA INVISÍVEL DAS COISAS

Como delinear água e espaço, entre luz e sombra, entre criação e morte, situando o ser humano no lugar que talvez sempre tenha ocupado: diante do desconhecido, recolhendo seus cacos e transformando-os, ainda assim, em forma, movimento e arte.

15/09/2026 10h40 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Literatura e Arte-Plataforma Nacional do Facetubes
(GinaiFT/MHL).
(GinaiFT/MHL).


Editoria de Literatura e Arte-Plataforma Nacional do Facetubes

Nos três movimentos apresentados por Joema Carvalho(*) — “Espinha Dorsal (1)”, “Espinha Dorsal (2)” e “Arte” — existe uma procura que atravessa as palavras como uma linha subterrânea: a tentativa de encontrar aquilo que sustenta a existência quando todas as certezas visíveis parecem insuficientes. A própria expressão “espinha dorsal” deixa de pertencer somente ao corpo. Torna-se estrutura, eixo, princípio de sustentação. É aquilo que permanece enquanto tudo se move.
Em “Espinha Dorsal (1)”, a poeta fragmenta a matéria - em “doce / sal / leite / cio” - cria uma sequência quase mineral, líquida, corporal. As palavras surgem separadas, como elementos anteriores à construção de um pensamento completo. 

A linguagem parece retornar ao estado primordial das coisas. Quando essa espinha mergulha “n’água” e se torna “fluida em si”, Joema introduz uma contradição poética importante: aquilo que sustenta também pode ser flexível. 

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Isso mostra que nemtoda estrutura precisa ser rígida. Há forças que permanecem justamente porque aprenderam a acompanhar o movimento. Isso também lembrou o provérbio oriental que diz: O bambu que se curva ao vento é mais forte do que o carvalho que resiste.

Essa ideia alcança seu núcleo nos versos “dança no sentido / que lhe cai bem”. A existência não aparece submetida a uma trajetória geométrica. Ela dança. Escolhe caminhos, recebe acontecimentos, modifica-se. Surge então “a fé do invisível” e, logo depois, “a utopia da existência”. 

Em “Espinha Dorsal (2)”  Joema amplia esse movimento para o espaço. “luz e sombra” deixam a dimensão individual e passam a participar da procura pelo “sentido / de existências”. O plural merece atenção. Não há uma única existência sendo investigada. 

A imagem do “buraco de minhoca” introduz um conceito vindo da física dentro de uma linguagem essencialmente poética. Não interessa aqui transformá-lo em explicação científica. Ele funciona como metáfora da passagem: ligação entre distâncias, tempos e possibilidades. A poesia faz exatamente isso.
 
Quando as existências “brilham em teias / e divagam / em qualquer direção”, Joema abandona a ideia de que viver significa avançar por uma estrada predeterminada. A teia substitui a linha reta. Trata-se de uma percepção próxima de uma questão filosófica permanente: o sentido da vida talvez não esteja pronto à espera de ser descoberto. 

O terceiro poema, “Arte”, funciona quase como uma síntese dos anteriores. Seus primeiros versos já estabelecem o princípio de tensão: “contraste e dinâmica / criação e morte”. Criar passa a significar trabalhar entre forças opostas. Toda criação contém desaparecimentos. 

Há especial força na imagem dos “cacos / que se reconstroem”. A poesia surge aqui não como representação de uma realidade perfeita, e sim como reorganização daquilo que foi fragmentado. Essa talvez seja uma das imagens centrais do conjunto. 

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Destarte, Joema Carvalho fecha esse percurso falando de “uma escala / de tempo / e cor”. Tempo e cor passam a pertencer à mesma medida poética. O tempo deixa marcas; o sentimento lhes atribui tonalidades. Esse poema adulto mostra uma Joema Carvalho trabalha com poucas palavras e grandes espaços entre elas. Esses vazios também participam do poema. São pausas para que o leitor complete aquilo que não foi declarado. Apresenta versos, deslocamentos e perguntas silenciosas sobre matéria, existência, tempo e criação.

Parabéns Joema Carvalho. Você soube muito bem delinear água e espaço, entre luz e sombra, entre criação e morte, situando o ser humano no lugar que talvez sempre tenha ocupado: diante do desconhecido, recolhendo seus cacos e transformando-os, ainda assim, em forma, movimento e arte.

 

A ÍNTEGRA DO POEMA DE JOEMA CARVALHO

ESPINHA DORSAL (1)

espinha dorsal

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doce

sal

leite

sio

 

espinha dorsal

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n´água

fluida em si

 

espinha dorsal

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dança no sentido

que lhe cai bem

 

na fé do invisível

na utopia da existência

 

 

 

ESPINHA DORSAL (2)

 

luz e sombra em movimento

na busca do sentido

de existências

num buraco de minhoca

n’algum lugar no espaço

que brilham em teias

e divagam

em qualquer direção

 

 

ARTE

 

contraste e dinâmica

criação e morte

pigmentos inspirados

sustenido em si

diluídos na harmonia

de cacos

que se reconstroem

na marcação duma escala

de tempo

e cor.

 

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(*) JOEMA CARVALHO - Escritora, engenheira florestal, membro da Academia Poética Brasileira-APB/PR, colunista da Plataforma Nacional do Facetubes e Membro da Academia de Letras do Brasil-ALB, seccional Paraná.

(*) Editoria de Literatura e Arte-Plataforma Nacional do Facetubesc/Mhario Lincoln.

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