Dr. Ruy Palhano
A credibilidade é um dos fundamentos essenciais do poder público. Nenhuma autoridade consegue governar legitimamente apenas por meio de leis, regulamentos ou instrumentos de coerção. É necessário que exista alguma correspondência entre aquilo que os governantes afirmam, as decisões que tomam e os resultados que efetivamente produzem.
Quando essa relação se rompe repetidamente, a autoridade pode conservar formalmente o cargo, mas perde progressivamente sua legitimidade moral. A confiança no homem público, entendido como todo aquele cujas decisões interferem na coletividade, depende de transparência, responsabilidade, coerência e respeito às instituições. Quanto maior o poder exercido, maior deve ser o compromisso com a palavra pronunciada e com as consequências sociais de suas decisões.
A deterioração dessa confiança raramente decorre de um único acontecimento. Ela se constrói pela repetição de promessas descumpridas, contradições, privilégios, corrupção, favorecimentos, incompetência, impunidade e discursos oportunistas. O problema torna-se ainda mais grave quando a mentira política deixa de ser percebida como desvio moral e passa a ser utilizada como estratégia de comunicação e instrumento de poder.
Na sociedade digital, esse fenômeno ganhou enorme alcance. Informações falsas ou enganosas circulam rapidamente, enquanto explicações complexas exigem tempo, reflexão e documentação. O cidadão passa a conviver com versões concorrentes da realidade, nas quais fatos, opiniões, propaganda e manipulação se misturam, favorecendo a insegurança e dificultando o exercício de uma consciência verdadeiramente crítica.
A polarização política aprofunda esse processo quando o julgamento das condutas deixa de obedecer a princípios e passa a depender da identidade partidária ou ideológica. Condena-se no adversário aquilo que se tolera no aliado, e a política transforma-se em confronto de identidades, ressentimentos e fidelidades.
O culto à personalidade é uma das expressões mais perigosas dessa deformação, pois desloca a confiança das instituições para a figura do líder. Quando um governante passa a ser percebido como indispensável, infalível ou redentor, a crítica tende a ser interpretada como hostilidade e a fiscalização como ameaça. O poder, quando pouco controlado, pode ainda favorecer arrogância, narcisismo, intolerância às críticas e distanciamento da realidade, razão pela qual democracias maduras necessitam de instituições fortes, controles independentes e limites claros ao exercício da autoridade.
As consequências da perda de credibilidade ultrapassam a política. Quando a população deixa de confiar nas autoridades, diminui sua disposição para cooperar com normas e políticas públicas, cresce o cinismo e amplia-se a percepção de que honestidade e integridade possuem pouco valor prático.
O descrédito pode levar também ao afastamento dos cidadãos da vida pública e à crença de que participar, votar, fiscalizar ou cobrar nada modifica. Esse sentimento favorece a apatia e, em situações extremas, pode aumentar a atração por soluções autoritárias apresentadas como respostas rápidas para problemas complexos. Uma sociedade cansada da incoerência e da ineficiência pode aceitar maior concentração de poder em troca de uma sensação imediata de ordem, sem perceber que a redução dos controles também diminui sua capacidade de conhecer, questionar e corrigir abusos.
Há igualmente repercussões psicológicas e sociais importantes. A convivência prolongada com instituições percebidas como contraditórias, injustas ou pouco confiáveis pode favorecer insegurança, frustração, raiva, desamparo e desesperança. Em pessoas vulneráveis, a exposição permanente a conflitos políticos, notícias alarmantes e narrativas de ameaça pode intensificar ansiedade, irritabilidade, insônia, ruminação, sintomas depressivos e manifestações relacionadas ao estresse. Isso não significa transformar indignação política em doença mental, pois a crítica ao poder e a reação diante de injustiças podem ser legítimas.
O problema ocorre quando essas experiências se tornam intensas e persistentes a ponto de comprometer o funcionamento pessoal, os vínculos e o bem-estar. A perda da confiança pública também enfraquece o sentimento de pertencimento e transforma a sociedade, antes percebida como projeto comum, em espaço de suspeita, competição e defesa individual. A reconstrução da credibilidade pública depende de cidadãos críticos e gestores responsáveis. O cidadão deve avaliar ações, resultados e trajetórias, fiscalizar o uso dos recursos públicos e compreender que a cidadania continua além do voto. Ao governante cabe conquistar confiança por meio da coerência, transparência, prestação de contas e reconhecimento dos próprios erros.
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