Editoria de Literatura, Arte e Música da Plataforma Nacional do Facetubes c/ Jornalista Mhario Lincoln
“Pensei um dia, pensei / ser alguém, mais que doutor! / Mas Deus não quis, e eu fiquei / como nasci: trovador.” A trova de Carlos Cunha não deve ser lida como declaração de fracasso ou renúncia. É um autorretrato de grandeza. Nela, o poeta retira dos títulos formais o poder de medir um homem e entrega à poesia a responsabilidade de definir sua existência. Carlos Cunha não ficou abaixo do Doutor ou Mestre. Tornou-se maior pela palavra, pelo exemplo e pela capacidade de ensinar sem transformar a literatura em discurso fechado.
Jornalista, professor, poeta, crítico, ensaísta e historiador, Carlos Cunha exerceu a atividade intelectual como compromisso público. Sua atuação não se limitou à contemplação estética. A literatura, em sua obra, é uma forma de examinar a sociedade, defender a dignidade humana e confrontar injustiças. exemplo claríssimo disso - em resumo - é o prefácio de Ballet de Santos e Demônios, escrito por Wolney Milhomem, que apresenta um autor formado nas batalhas do jornalismo, firme diante dos conflitos políticos e sociais e profundamente identificado com os mais vulneráveis. Vale lembrar que essa é uma das obras mais fortes de Cunha, pois reúne artigos produzidos durante mais de duas décadas de experiência profissional e registra diferentes momentos da vida maranhense.
Carlos Cunha compreendeu que escrever bem não significa escrever de maneira inacessível, usando palavras insólitas catadas nos dicionários da ignorância. Por isso é que seu estilo buscava clareza, concisão e força humana. Essa escolha contém uma lição pedagógica essencial: "o verdadeiro conhecimento não precisa esconder-se atrás de palavras difíceis para demonstrar profundidade", como aprofundou Rui Barbosa, em uma de suas palestras. Assim, o bom professor, como o bom jornalista e o bom poeta, não empobrece o pensamento quando simplifica a linguagem. Ele organiza a complexidade para que o leitor possa compreendê-la, questioná-la e transformá-la em consciência.
Na trova, Carlos Cunha encontrou uma das formas mais rigorosas da língua portuguesa. São quatro versos submetidos à métrica, à rima, ao ritmo e à necessidade de conclusão. Não há espaço para palavras inúteis. Cada vocábulo precisa cumprir uma função sonora, semântica e emocional. Por isso, sua obra pode ocupar lugar privilegiado nas escolas. Estudar suas trovas permite trabalhar leitura, vocabulário, musicalidade, síntese, interpretação, memória, identidade regional e produção textual. Ensina também que a brevidade não é ausência de conteúdo: pode ser a mais alta concentração do pensamento.
Destarte, ao fundar a Academia Maranhense de Trovas, em 7 de dezembro de 1968, Carlos Cunha não criou apenas uma instituição literária. Estabeleceu "um espaço de preservação, formação e continuidade", como disse o poeta João Batista do Lago em entrevista à TVFacetubes, em 2014. Sua iniciativa ajudou a organizar o movimento trovadoresco no Maranhão e a assegurar que o gênero permanecesse vivo entre diferentes gerações. A própria revitalização da Academia, décadas depois, confirma a força de uma construção cultural que ultrapassou a vida de seu fundador.
Sua multiplicidade impressiona. Carlos Cunha atuou como jornalista combativo, professor, declamador, compositor, crítico e incentivador de novos autores. Pertenceu à Academia Maranhense de Letras e participou ativamente da vida cultural do Estado. "Não produziu uma literatura isolada do povo", escreveu Benedito Buzar, certa vez. Com base no que o próprio Cunha afirmava: "minha poesia sobe e desce as ladeiras de São Luís nos braços da população". Essa circulação popular não diminui sua relevância acadêmica. Pelo contrário: demonstra que sua elaboração estética conseguiu alcançar o leitor sem abandonar o rigor intelectual.
Acordem: Carlos Cunha precisa ser estudado, reeditado e levado às salas de aula. Seus livros pertencem ao patrimônio intelectual do Maranhão e constituem material relevante para pesquisas nas áreas de literatura brasileira, história da imprensa, educação, cultura popular, memória social e estudos regionais. Resgatar sua produção não é praticar uma homenagem ornamental. É corrigir uma lacuna na formação das novas gerações e reconhecer um autor que fez da escrita um exercício permanente de responsabilidade.
Sob uma perspectiva acadêmica, sua obra demonstra que a trova não é um gênero menor, mas uma estrutura poética de elevada exigência formal e amplo potencial pedagógico. Carlos Cunha reuniu criação literária, intervenção jornalística e consciência histórica em um mesmo projeto intelectual. Foi trovador por nascimento poético, professor por vocação humana e Doutor pela autoridade de uma obra que continua ensinando. O Maranhão não lhe deve apenas admiração. Deve-lhe leitura, pesquisa, reedição e presença efetiva nos estudos de sua literatura.
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Fontes: Plataforma Nacional do Facetubes, matéria “Prefácio de uma das obras mais impactantes do jornalista, professor e poeta Carlos Cunha”; registro histórico da Academia Maranhense de Trovas; Portal Falando de Trova.
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