ÀS TERRAS DO BEM VIRÁ
Joema Carvalho
O carro parou.
- Acabou o combustível? Furou o pneu? Motor fundido?
- Não. Pior coisa que pode ocorrer com um carro.
Ele respondeu com um sotaque nordestino, interior de região de cerrado central.
- O que foi?!!! Questionou ansiosa e preocupada.
Não havia sinal de celular. Era por volta das 12 horas. Havia recém concluído um trabalho cansativo. Queria almoçar. Haviam andado muito, embaixo do semiárido sol. Revoada de araras antes de tudo começar, sobre a vegetação densa no corredor do rio.
Decidiu deixar o colega junto do carro. Seguiu pela estrada. Olhava para todos os lados e via árvores, menos retorcidas do que em outro tempo. A vegetação estava verde. Período de chuva. Limpava-se o que se precisava e se deixava escorrer o desnecessário. O cerrado se misturava com o pasto em uma mesma composição.
Estava cansada, algo a atormentava. Depois de década, a Besta despertava de um sono profundo. Pronta para proclamar o juízo final. Estava no meio do pasto pisoteado pelo gado, esparramava-se como àquelas árvores, buscando água por longasdistâncias. Deixava pesado o voo das araras. A criatura invasora estava por todos os lados de sua tormenta. Pedras e densidade eram mais um elemento daquela paisagem.
A mangueira do combustível havia rompido. Assim como a sua. Sem carga e desabastecida. Recebia injeções de novas demandas que a sugavam do tutano à massa cinzenta que escorria etanol e evaporavam com a sua paciência. Treinou ser melhor no coice de uma égua. Rastejava-se em réptil incorporando-se ali.
Em um determinado momento, abriu os seus braços e deu um sorriso de alegria. Sua expressão era outra. Nada como um novo problema para tirar o foco do primeiro. Sozinha naquele caminho, riu de si mesma. O carro quebrado era tudo o que precisava. A Besta agora, um graveto retorcido que restou depois da queimada. Típica dali, gerada por raios. Depois de mais de 40 minutos caminhando, pisou nela.
Viu uma residência em uma baixada. Distante a um quilômetro da estrada. Desceu até lá. Um sitiante estava ordenhando as suas vacas. Muito prestativo, permitiu que entrasse em sua residência com as botas sujas de lama. Na casa havia um aparelho de som de tocar vinil. Os eletros eram vermelhos, cheios de adesivos de lojas e de farmácia. Tv pequena antiga. O chapéu de couro estava no sofá, várias botas no chão. Um celular pequeno, difícil de mexer que cedeu de bom grado. Fez várias ligações para tentar um guincho. Logo depois, ele chegou. Voltou de carona para o carro.
Entregou-se “Às Terras do Bem Virá” no revoado das araras azuis que retornavam para o dormitório no final da tarde. Os tucanos consolidaram o pôr-do-sol.
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