Plataforma Nacional do Facetubes c/Mhario Lincoln
Livro: "O Presente de Olivia" , de Camila Prando/ Ilustrações: Gra Mattar
Resenha: Jornalista Mhario Lincoln
Há livros infantis que contam histórias para crianças e há aqueles, mais raros, que parecem falar primeiro aos adultos e depois encontram a criança que ainda existe dentro deles. Esta delicada narrativa de Olivia e seu vovô careca pertence a essa segunda categoria. Sob desenhos simples, poucas cores e uma linguagem deliberadamente desarmada, existe um tema de enorme densidade humana: o que acontece com o amor quando a memória começa a desaparecer?
Olivia chega ao mundo, pequena, ruidosa, imprevisível, como chegam quase todas as crianças. Dorme sobre a barriga do pai, mama, chora sem compreender o porquê, gargalha sem que os adultos saibam a razão. E há um avô observando tudo isso. O Vovô Careca. No início, suas falhas parecem pertencer ao território cotidiano dos esquecimentos: as chaves, a finalidade de um objeto, pequenas informações. Aos poucos, porém, aquilo deixa de ser distração e passa a anunciar algo maior: a memória começa a retirar-se.
É justamente aí que o livro encontra sua imagem mais bonita: o avô percebe que precisa guardar a neta em outro lugar. Se a cabeça pode deixar escapar nomes, acontecimentos e rostos, ele decide construir uma espécie de arquivo no coração. Guarda o sorriso de Olivia. Guarda sua gargalhada. Guarda seu choro. Guarda aquilo que não cabe numa gaveta, num álbum ou num computador. E o texto encontra uma formulação extraordinariamente simples para uma questão devastadora: mesmo quando chegar o dia em que ele já não souber intelectualmente que Olivia é sua neta, seu “coração sabido” talvez ainda reconheça alguma coisa.
É nesse ponto que a narrativa toca discretamente uma sensibilidade estoica. O avô não dispõe de poder sobre tudo aquilo que sua doença poderá retirar-lhe. Não pode negociar com o futuro nem ordenar à memória que permaneça intacta. Pode, entretanto, decidir o que fazer agora, enquanto Olivia está diante dele. Pode abraçá-la. Pode ouvi-la. Pode recebê-la. Pode aspirar profundamente seu cheiro. Pode estar presente. É quase uma tradução afetiva da velha distinção estoica entre aquilo que depende de nós e aquilo que não depende: não dominamos a duração das coisas, mas ainda podemos responder pela qualidade com que as vivemos.
Por isso a cena em que o avô encosta-se ao cangote da menina e respira profundamente é tão poderosa. Ele parece tentar realizar o impossível: reter um instante. O cheiro de Olivia transforma-se, literalmente, numa espécie de cofre. Não é perfume, não é xampu, explica a narrativa; é aquilo que pertence somente a ela. Nesse instante, o cheiro deixa de ser sensação e torna-se identidade, presença, intimidade. E o gesto do avô ganha uma dimensão diferente, porque o leitor adulto sabe aquilo que Olivia ainda não entendeu completamente: ele está tentando despedir-se antecipadamente daquilo que ama.
E como uma criança observa tudo isso? Provavelmente de maneira muito diferente de um adulto. Para ela, o Alzheimer não é necessariamente o nome de uma doença. Existe apenas um avô que pergunta de novo, que não encontra alguma coisa, que troca funções dos objetos, que em determinado momento talvez não reconheça quem está diante dele. Crianças podem sentir confusão, tristeza, medo ou até imaginar que fizeram algo errado; por isso, organizações especializadas recomendam explicações verdadeiras, tranquilas e adequadas à idade, além de espaço para que façam perguntas.
O livro oferece justamente uma linguagem capaz de fazer essa ponte. Em vez de apresentar à criança, primeiro, a palavra perda, apresenta-lhe a palavra 'presente'. O avô vai perdendo lembranças, mas, enquanto isso, oferece partes de si à neta. Toda vez que guarda “um bocadinho” de Olivia, entrega também um pouco dele. É uma inversão literária muito bonita: pensamos estar acompanhando aquilo que a doença está retirando do avô; quando percebemos, estamos contemplando tudo aquilo que ele conseguiu deixar na menina.
E então chega a imagem mais dura: “Hoje, a cabeça lustrosa do vô careca não lembra mais que a Olivia é sua neta.” Poderia ser o final de uma história sobre desaparecimento. Não é. A página seguinte desloca o centro da narrativa da cabeça do avô para o coração da menina.
No coração dela, permanece uma coleção de cheiros, gargalhadas, gestos e momentos. O presente finalmente se abre. E compreendemos que o embrulho diferente anunciado no início era justamente esse: aquilo que alguém deposita em nós enquanto ainda está aqui.
Talvez seja essa a delicada filosofia deste livro: amar alguém não significa impedir que o tempo o transforme. Significa fazer com que sua passagem por nossa vida deixe alguma coisa que o esquecimento não consiga levar com a mesma facilidade. Vovô careca pode não lembrar de Olivia. Olivia, entretanto, tornou-se também aquilo que recebeu do avô. É uma história sobre legado, presença e ternura — e sobre essa estranha vitória humana de continuar existindo, de alguma maneira, dentro daqueles que amamos.
Mhario Lincoln é jornalista e poeta; editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
(www.facetubes.com.br)
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