Dr. Ruy Palhano, convidado da Plataforma Nacional do Facetubes
A palavra “ciúme” deriva do latim zelumen, relacionado a zelus e, em sua origem mais remota, ao grego zêlos, termo associado a zelo, ardor, rivalidade, emulação e desejo intenso. Essa origem etimológica revela a ambivalência do fenômeno, pois o mesmo sentimento que pode expressar cuidado e interesse também pode transformar-se em desconfiança, possessividade e sofrimento. Segundo Antônio Geraldo da Cunha, em seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, a formação da palavra conserva essa relação entre zelo, paixão e rivalidade.
Nas relações humanas, o ciúme constitui uma experiência frequente, encontrada em diferentes vínculos e etapas da vida. Pode surgir desde a infância, diante da percepção de que o afeto dos pais está sendo dividido, e prolongar-se ao longo da existência. Trata-se de uma resposta emocional complexa desencadeada pela percepção, real ou imaginária, de que um vínculo valorizado se encontra ameaçado. Nela podem coexistir medo de perda, insegurança, raiva, tristeza, sentimento de inferioridade, rivalidade, desejo de exclusividade e necessidade de controle. Em determinadas circunstâncias, o ciúme pode ser considerado compreensível, desde que seja passageiro, proporcional aos acontecimentos e não prejudique a liberdade, a dignidade ou a convivência.
Camilo Castelo Branco, escritor português que viveu entre 1825 e 1890, sintetizou a força deformadora desse sentimento ao afirmar: “O ciúme vê com lentes que fazem grandes as coisas pequenas, gigantes os anões, verdades as suspeitas”. Marcel Proust também observou: “É espantoso como o ciúme, que passa o tempo a fazer pequenas suposições em falso, tem pouca imaginação quando se trata de descobrir a verdade”. Madame de La Fayette, escritora francesa do século XVII, escreveu: “É impossível exprimir a perturbação que o ciúme causa a um coração em que o amor ainda não se tenha declarado”.
Esses autores, pertencentes a épocas e contextos diferentes, reconhecem no ciúme uma experiência capaz de modificar a percepção da realidade. O ciumento não observa apenas os fatos, mas os interpreta a partir de seus receios, inseguranças e expectativas. Pequenos acontecimentos podem adquirir proporções excessivas, enquanto gestos neutros passam a ser entendidos como indícios de rejeição ou traição. Essa experiência pode ocorrer em relacionamentos amorosos, entre irmãos, entre pais e filhos, nas amizades e até nas relações profissionais. Em geral, quanto maior o investimento afetivo e mais intensa a dependência emocional, maior poderá ser a vulnerabilidade ao ciúme.
É necessário distinguir o ciúme ocasional do ciúme patológico. O primeiro aparece diante de uma situação específica, preserva a capacidade de reflexão e tende a diminuir quando os fatos são esclarecidos. A pessoa consegue escutar explicações, reconhecer exageros e conversar sobre seus sentimentos. Mesmo esse ciúme considerado funcional, porém, não deve ser apresentado como prova necessária de amor. É possível amar sem controlar, vigiar ou restringir a liberdade do outro. A ausência de ciúme não significa indiferença, assim como sua intensidade não comprova a profundidade do vínculo.
O ciúme torna-se patológico quando é excessivo, persistente e desproporcional, produz sofrimento relevante e compromete o funcionamento pessoal, familiar ou social. Nesses casos, a pessoa pode verificar mensagens, controlar horários, seguir o parceiro, vasculhar objetos, exigir explicações repetidas, formular acusações constantes ou interpretar acontecimentos banais como provas de infidelidade. A relação deixa de ser sustentada pela confiança e passa a organizar-se em torno da vigilância, do interrogatório e do medo.
Do ponto de vista psicopatológico, o ciúme mórbido não corresponde necessariamente a um diagnóstico independente. Ele pode apresentar-se sob a forma de pensamentos obsessivos, ideias prevalentes ou convicções delirantes. Nos pensamentos obsessivos, a pessoa reconhece, ao menos parcialmente, que suas suspeitas podem ser exageradas, embora não consiga afastá-las. Nas ideias prevalentes, a desconfiança ocupa posição central em sua vida mental e orienta grande parte de seus comportamentos. Nos delírios de ciúme, também conhecidos como síndrome de Otelo, existe uma convicção rígida de infidelidade, mantida apesar da ausência de evidências e resistente aos argumentos contrários.
O ciúme patológico pode estar associado a transtornos delirantes, esquizofrenia, transtornos do humor, transtorno obsessivo compulsivo, determinados transtornos da personalidade, doenças neurológicas, transtornos neurocognitivos e uso problemático de álcool ou de outras substâncias. A relação entre álcool e ciúme merece atenção especial, pois a intoxicação, a abstinência, o comprometimento cognitivo, a impulsividade e a deterioração dos vínculos podem favorecer interpretações persecutórias e acusações de infidelidade. Disfunções sexuais, sentimentos de inadequação e redução da autoestima podem intensificar a insegurança, embora não expliquem isoladamente o desenvolvimento do delírio. Em alguns casos, as suspeitas surgem durante a intoxicação e, com a progressão da dependência, permanecem mesmo nos períodos de sobriedade.
O ciúme patológico representa importante fator de risco para conflitos conjugais, perseguição, agressões, violência doméstica, homicídio e suicídio. A presença de ameaças, acesso a armas, intoxicação por substâncias, histórico de violência ou incapacidade de controlar impulsos exige intervenção imediata e planejamento de segurança. A violência jamais deve ser justificada como demonstração de amor, sofrimento ou cuidado.
O tratamento depende da forma assumida pelo ciúme e de suas causas predominantes. A avaliação deve investigar transtornos mentais, uso de álcool e outras substâncias, alterações neurológicas, risco de violência e dinâmica do relacionamento, bem como outras condições psicopatológicas. A psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo comportamental - TCC, pode ajudar a identificar interpretações distorcidas, reduzir comportamentos de vigilância, desenvolver regulação emocional e fortalecer formas mais saudáveis de comunicação. Medicamentos podem ser necessários diante de sintomas psicóticos, obsessivos, depressivos ou alterações do humor. Nos transtornos relacionados ao álcool e a outras drogas, o tratamento da dependência é indispensável.
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