SOBRAMES EM VERSO E PROSA
Linda Barros, Professora e Atriz
“... Escreva, cuide e viva
Cuide, viva e escreva
Viva, escreva e cuide
Minha paixão é viver,
Cuidar e escrever
Vivo por devoção,
Cuido por coração,
escrevo só por paixão.”
Ruy Palhano
A vida em seu mais alto grau de complexidade ainda consegue nos surpreender e mostrar que há caminhos lineares ou tortuosos a seguir, que nos levam a dimensões inimagináveis, e, assim, alcançar o maior dos júbilos: dar esperanças àqueles que já não mais acreditam nelas. Alguns dizem que arte é que nem o amor: ou você sente ou não sente. Assim também é com a poesia, ou você gosta ou não gosta. No entanto, podemos afirmar que há beleza nas verdades mais cruas.
Vazio como um saco de supermercado
Pendurado no trinco da porta da cozinha
O start da geladeira reprova o silêncio da noite
Penso no mar de Azov
Coloco óculos tênis short camisa
Em outdoors de manhã
Encontro ofertas de lábios pernas sorrisos
De repente um frio de oito graus pede socorro
Na esquina
(versos do poema VERDADES de Rafael de Oliveira, médico e escritor)
A SOBRAMES – Sociedade Brasileira de Médicos Escritores - é uma Associação cultural com relevantes trabalhos intelectuais e sem nenhum fim lucrativo. A egrégia instituição foi fundada em 23 de abril de 1965, em São Paulo. Ela abarca médicos e intelectuais em todo o Brasil, com o intuito de disseminar a literatura em outras vertentes acadêmicas. A academia é composta por mentes brilhantes que se dedicam além de salvar vidas, têm o brilhantismo cunho literário não científico.
VIVER, CUIDAR E ESCREVER é uma antologia de arte em forma de palavras que chegou para expressar o mais sublime dos sentimentos: amor à vida. É uma coletânea composta de textos escritos por médicos-escritores ou escritores-médicos. O que sabemos é que se trata de uma das obras mais singulares e enriquecedoras que chegou recentemente ao mundo das letras literárias não científicas. É uma antologia escrita e composta por autores atuantes na medicina e por autores consagrados que não são médicos, mas que prestam relevante contribuição à SOBRAMES.
Doutor Arquimedes Viegas Vale, médico gastroenterologista e um dos autores da coletânea, nos apresenta a obra como “uma corrente de ideias que passa incólume, com a mesma forma e conteúdo por várias mentes, uniformizando um conhecimento à essência da comunicação humana”. Arquimedes Vale é também escritor, dentre as obras publicadas estão Resíduos cartesianos – poesias e Apologia do abstrato, também de poesias, entre outros.
Organizada pelo médico, poeta e escritor Michel Herbert, a antologia é composta de poemas, contos e crônicas. Os profissionais que compõem a coletânea são como os próprios médicos em seus postos de saúde, incansáveis com a pena como em seus bisturis em seus plantões. Eles nos brindam com seus versos para acalentar o sofrimento,
Seja a tua oração, peta, a tua poesia,
bem como a voz da tua profecia...
Teus versos, poeta, sejam nossos guias
deleite o ovo com a tua sabedoria.
Continuamente noite e dia sejas, luz,
Sejas glória. Sejas guia.
O poetar seu teu respirar
na terra, deitado ou andando,
ou no mar navegando.
(Trecho do poema POETAR SEM CESSAR de Michel Herbert, Médico e Escritor)
VIVER, CUIDAR E ESCREVER, como bem disse o doutor Arquimedes ao escrever na orelha dessa coletânea, “podem ser usadas em qualquer ordem, que ainda assim chegam a mesma finalidade”. Cuidar do próximo está no juramento de todo e qualquer profissional da medicina, principalmente daqueles que mais requer cuidado e atenção.
VEM, Ó ANJO DIVINO,
DERRAMA DE TEUS OLHOS
A LUZ DA PAZ
DEBRULHA SONORO
A TUA DOCE VERDADE
E ENVOLVE-NOS
ENSINA-NOS
A TRANSFORMAR AS DORES
EM FLORES,
OFERTA DE REDENÇÃO.
(Trecho do poema ORANDO PELOS DOENTES de Socorro Veras, Médica e Escritora)
Essa antologia é uma semente que foi plantada, vingou e brotou outros frutos, hoje está na 5° edição, traduzindo com palavras o que há de mais sublime no intelecto desses homens e mulheres que nasceram com o dom de salvar vidas, seja pelas mãos calejadas, seja pela pluma já gasta. Com a sonoridade dos versos, perpassam a vida,
Ponte:
concreto armado,
inanimado,
morto.
Onde
trafegam
angústias
de estar aqui.
Dilaceram tuas veias.
Tuas artérias
Pulsam em neón.
Motores alucinados
Explodem em vida
O teu leito.
(Trecho do poema A PONTE do médico cirurgião e escritor Mário Luna)
Na antologia é possível encontrar a mais simples tradução em palavras de momentos de angústia, revelados em códigos da escrita literária, traduzindo a simbologia da dor em beleza e cor nos versos e prosas de cada um destes 26 intelectuais que compõem essa coletânea.
Lâminas em voo
sangram cores.
Parábolas ao vento
ultrajam o limite.
beija a flor,
Livre,
Voa.
(Versos do poema COLIBRI de Mário Luna)
Na V Antologia SOBRAMES há muitos convidados. São autores que não são médicos, mas que compõem a Academia. É o caso do professor, escritor e membro da Academia Maranhense de Letras José Neres, que se juntou aos intelectuais a convite dos mesmos. Nesta Coletânea, Neres traz cinco contos, entre eles, “A viagem”, “Amores Assassinos”, “Colegas”. Outra convidada da coletânea é Eliane Morais, escritora, poetisa e romancista, que presenteia o público com três poemas e um conto. Um convidado a mais que compõe a Antologia é escritor e engenheiro Sanatiel de Jesus Pereira, que oferece quatro contos, entre eles, “Saco de Gato” e “A Caixa de Pandora”.
Completando esse passeio poético, está o médico e escritor Ruy Palhano, nome de peso na Psiquiatria maranhense. Emprestando seus dotes poéticos, oferece os enigmáticos versos,
Ilumine, ilumina a minha ilusão
Quanta paixão, lá no fundo do meu coração
É luna
É lusa
É ela, nós nela, ela em nós
É na vida a lua sopro e luz, tudo por vós.
(Versos do poema A lua, de Ruy Palhano)
A obra como um todo é um verdadeiro ensinamento, em cada verso, em cada estrofe, em cada conto, em cada canto. São espalhados e disseminados os mais sutis significados, doces, melódicos, que cativa o leitor de qualquer idade, de qualquer espaço e de qualquer momento. Por fim, dizer que arte salva, independente de qualquer idade, qualquer classe social, qualquer faixa etária, no mais longínquo dos recantos. E para jamais esquecer que poesia é um acalanto à alma, abaixo segue esse belo texto da médica e escritora Márcia Sousa, para comprovar que a palavra cura:
ALZHEIMER
Antes que eu esqueça
E meus olhos te estranhem
Olho nos teus profundamente.
Antes que me espante a tua voz
Bálsamo da minha alma
Conta-me teu amor diariamente.
Antes que recuse teu abraço
Alento dos meus dias
Aninha-te em meu colo permanente,
E quando for indo distraía
E o tempo apagar tudo que há
Chama o meu nome todo dia
Se eu me esquecer
Tu te lembrarás.
FLORENCIO, Michel Herbert Alves (org.). Viver, cuidar e escrever. V Antologia Sobrames-MA. São Luís: Viegas Editora, 2020. 345 páginas.
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