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Contos Especiais. Convidado, Escritor e Contista Roger Dageerre. Ele escreve, "A Fábula".

"Foi num final de uma festa. Eu fui levá-la, eu na lambreta bem devagar e ela ao lado da mãe"

03/04/2021 17h40
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Roger Dageerre
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A fábula           

Roger Dageerre

Era uma vez um grupo de alunos do curso de ciência da computação da universidade que estavam chegando para a primeira aula do ano letivo. O professor Meireles já estava na sala; cumprimentava cada aluno que chegava e percebeu que dois se atrasaram porque conversavam caminhando lentamente, sem nenhuma pressa.

          Assim que eles entraram, Meireles ficou aguardando os jovens terminarem o diálogo, mas, como eles não pararam de falar, o professor perguntou:

          - Posso iniciar a aula?                                                                                          

          - Desculpe-me, pois éramos namorados na adolescência, perdemos o contato e só agora, no caminho da universidade, nos reencontramos. Eu sou Reginaldo e ela é a Yara.

          - Prazer! – Disse Yara acenando ao professor.

          - O prazer é meu. Eu sou o professor Meireles. Mas, eu posso saber por que perderam o contato?

          - Minha mãe era rigorosa e ele era muito moderno para a época. Quando ela percebeu que o nosso namoro estava esquentando, transferiu-me para a capital e não tivemos como nos comunicar.

          - Então, o Reginaldo era a “raposa” e você as “uvas”?

          - Não entendi...

          - Ele está falando da fábula. – Interrompeu Reginaldo.

          - Explique a ela, mas bem resumido, pois estamos atrasados...

          - Assim diz a fábula: uma raposa, morta de fome, viu, ao passar diante de um pomar, penduradas nos ramos de uma   viçosa   videira,   alguns   cachos   de   uvas  maduras.                                                        

A fábula.

Resolveu colher seu alimento. Tentou pegá-las, mas estava totalmente fora do seu alcance, cansou-se em vão e não conseguiu. Cansada, deu-se por vencida. Na verdade, preferiu admitir que as uvas estivessem estragadas, para não aceitar a sua falta de capacidade. Moral da história: “ao não reconhecer e aceitar as próprias limitações, o vaidoso abre assim o caminho para sua infelicidade”. Não foi assim?

          - Mais ou menos...

          - O professor quer dizer que eu não tive competência para recuperar a namorada?

          - Quem pode afirmar isso é ela.

          - Digamos que ele andou perto de comer as uvas. Não o fez por causa de minha mãe. E ficou difícil de nos encontramos porque eu fui levada de surpresa. Naquela época, a comunicação era precária e eu mudei de uma cidade pequena para uma capital.

          - Não quis dizer que foi falta de competência, apenas te comparei com a raposa porque você se interessou por ela. Muito bem. Agora, vamos iniciar a aula, e no intervalo, faço questão de participar da continuação deste diálogo, pois fiquei curioso para saber como era o namoro de vocês.

          - Tudo bem. – Concordou Reginaldo.                                                                                                               

          - Eu também concordo. – Disse Yara.

          - Pronto. Vamos iniciar a aula. A ciência da computação é o estudo dos algarismos, suas aplicações e de sua implantação, na forma de software, para execução em computadores eletrônicos. O papel importante é armazenar e manipular dados, como é o computador digital, de uso generalizado. Também importantes são as metodologias, técnicas ligadas à importância de software que direcionam para a especificação, modelagem, codificação, teste e avaliação de sistemas de software. O estudo pode ser aplicado em qualquer área do conhecimento humano. A ciência da computação avançou em particular as áreas de redes de computadores, internet, net, web e computação móvel... Alguma pergunta?

          Nenhum aluno se manifestou. Então o professor avisou que estava na hora do intervalo de vinte minutos.

          A maioria dos alunos retirou-se e ficou apenas o professor, Reginaldo, Yara e meia dúzia de alunos curiosos tal qual o mestre, pois eles também ficaram interessados na história de amor de quando Reginaldo e Yara eram adolescentes.

          - Podemos começar? – Perguntou Reginaldo.

          - Sim! Você conta, mas ela pode interromper quando  achar necessário. Combinado?

          - Tudo bem. – Concordou Reginaldo, e iniciou explicando assim: Tudo começou num bailinho, onde tocava um baião e eu a tirei para dançar agarradinho.

          - Na verdade, ele não ia para dançar e sim para me abraçar. Quase não saía do lugar. Eram passos miúdos. – Explicou Yara.

          - Lembro-me como se fosse hoje. Ela usava laquê nos cabelos e um vestido rodado aparecendo à anágua. Sentava-se só para me mostrar.

          - E a bebida? – Perguntou Meireles.

          - Pouca. Tudo que a gente tomava eram algumas doses de cuba...

          - Naquela festa, você representava a raposa e ela as uvas?

          - Isso. O meu desejo era comer as uvas, mas até os beijos eram roubados, porque a mãe dela não dava trégua.

          - Fale da lambreta. – Lembrou Yara.                                                                                         

          - Foi num final de uma festa. Eu fui levá-la, eu na lambreta bem devagar e ela ao lado da mãe; caminhavam conversando. Quando chegamos, eu puxei assunto com a mãe dela para distraí-la. Yara entrou pela porta da frente e saiu pelos fundos. A mãe trancou a casa pensando que a filha estivesse do lodo de dentro. Estava muito escuro e Yara chegou com a chave da porta do fundo na mão, tremendo de medo, querendo desistir. A ideia foi minha, mas confesso que também tive medo. Então, ela apenas me beijou e voltou correndo. Tentei ligar a lambreta, mas não quis funcionar. Aí, começou a aparecer cachorro latindo. Cada vez que eu tentava acionar o arranque: “ram”, “ram”, “ram”, e os cachorros: “au”, “au”, “au”. Os animais foram se triplicando e o jeito foi eu sair empurrando a lambreta com um monte de cão me seguindo, latindo sem parar. Por uma questão religiosa, não posso dizer que era uma procissão, mas parecia.

          - E depois? – Perguntou o professor enquanto Yara não parava de sorrir.

          - Aproveitei uma ladeira e a lambreta pegou, mas os cachorros ainda tentaram me seguir. A sorte foi que, apesar de ter chamado a atenção da vizinhança, os pais dela não perceberam.

         - Então, você não comeu as uvas?                                                                                                        

          - Não! De jeito nenhum.

          - E qual foi a próxima festa?

          - Foi um noivado da colega dela. Yara estava com um vestido tomara que caia e a orquestra resolveu tocar músicas antigas. Eu a apertava e, ao mesmo tempo, ficava olhando, por dentro do corpete; os seios dela pareciam que queriam pular. Nós estávamos muito perfumados.

        - Na época vocês eram quase crianças?

           - Éramos, mas ele fazia o papel do homem terrível e fazia tudo para me agradar. Ia sempre me levar de volta para casa, mas minha mãe estava sempre comigo...

          - Como você se sentia? – Perguntou o mestre.

          - Pagando “mico”. Era assim que as minhas colegas diziam.

          - E a pílula já existia?

           - Já, mas ninguém comentava, pois os pais daquela época diziam que só podia comer uvas depois de casados.

          - E agora, como estão vivendo?

          - Com outra?

          - Sim! Nunca pensei que fosse acontecer este reencontro.

          - E você? – Perguntou o professor para Yara. 

         - Casei-me também. Tenho uma filha e o Reginaldo prometeu uma visita para conhecer minha herdeira e o rival dele.      

         - Então desejo que vocês sejam felizes e que mantenham esta amizade viva, com o mesmo respeito que a mãe dela ensinou, porque o método antigo pode não ser agradável, mas tem muito ensinamento e é rico em exemplos de vida saudável. Agora, vamos continuar com a aula e esquecer um pouco a fábula...

 

Autor: Roger Dageerre.

 

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