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Rogério Henrique Castro Rocha escreve sobre "As polêmicas vendem, rendem e marcam..."

"O fato é que mexer em vespeiros, colocar lenha em fogueiras, cutucar onças com varas curtas, efetivamente ajuda a tirar qualquer autor ou autora, e sua obra, do anonimato, havendo ou não qualidade no escrito"

13/04/2021 13h59
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Rogério Rocha
Rogério Rocha
Rogério Rocha

AS POLÊMICAS VENDEM, RENDEM E MARCAM

Por Rogério Henrique Castro Rocha

Quanto vale a notoriedade alcançada por meio de um escândalo? A polêmica é mesmo a melhor publicidade que uma obra pode ter?

Escritores sempre usaram das tintas da imaginação para tratar de toda espécie de assunto. A história tem sido pródiga em exemplos da grandeza da linguagem literária, com temas de maior ou menor importância sendo trazidos à luz por meio das páginas dos livros e da criatividade de seus criadores. 

Há, conduto, obras que ganharam notabilidade não somente pelo apuro técnico, por alguma nova abordagem narrativa, pelas habilidades de quem as escreveu ou mesmo pela beleza do estilo, mas, principalmente, pelo furor que causaram e causam ainda hoje. Nessa condição específica, abrir e ler tais livros é uma experiência que se assemelha a mexer em vespeiros, botar mais lenha numa fogueira ou presenciar uma grande confusão sem nada poder fazer para encerrá-la.

A aparição de livros polêmicos é sempre um acontecimento. 

Toda vez que o mundo recebe, nas prateleiras das livrarias, alguma obra que possa ser inserida no rol das que tocam em questões sensíveis, como tabus, valores morais e outros assuntos geralmente reservados às esferas mais íntimas das conversas havidas nos círculos familiares, a sociedade acaba sendo atingida de alguma forma. O que termina por instigar as pessoas (leitores ou não) a debaterem publicamente sobre elas, seus criadores e as consequências no plano objetivo, fazendo com que o rumor do fato polêmico termine por ser definitivamente disseminado.

Neste artigo trarei quatro livros que nunca mais sairão da lista de obras cujas existências representam a mais acabada versão do tema. Ou seja, algumas daquelas que saíram do campo da literatura para o campo da vida pública, dadas as proporções de polemicidade que ganharam os acontecimentos nelas narrados.

A primeira obra que me vem à mente é a famosa “Versos Satânicos” (1989), do autor Salman Rushdie. Rushdie escreveu a história de dois muçulmanos que sobrevivem a um atentado a bomba num avião. Depois da queda da aeronave, uma das personagens misteriosamente cria chifres, cascos e rabo, enquanto na outra  surge uma auréola. 

De saída, devo dizer que o livro pega um pouco pesado com o Islamismo e o Alcorão, destilando críticas e ironias contra eles. Por essa ousadia no uso da expressão da liberdade de pensamento, Salman teve a cabeça colocada a prêmio, mundialmente, por líderes religiosos e fiéis enfurecidos, que chegaram a oferecer 6 milhões de dólares como recompensa pela morte do autor.

Obviamente, como vocês podem imaginar, o livro vendeu milhões de exemplares, tornando-se um bestseller daquela década. Além disso, deu ao mundo um novo nome da literatura que, em oposição a sua fama repentina, teve que recusar as noites de autógrafos em prol da conservação de sua vida, vez que passou a sofrer ameaças, tendo de viver escondido, mudando constantemente de país.

O segundo livro que quero rememorar é o clássico “Lolita” (1955), de Vladimir Nabokov. A obra foi rejeitada seguidamente pelos editores, dado o teor pornográfico da história, que mostra a atração sexual e erótica da personagem Humbert Humbert, um professor de quarenta anos de idade, pela enteada, a menina que dá nome ao livro. O problema é que, além das motivações do eixo central da narrativa, Lolita tinha só doze anos quando o pervertido Humbert pousa os olhos e os instintos sobre ela. Por aí vocês veem o tamanho do problema que Nabokov arrumou com a sociedade da época.

Por fim, outra polêmica dentro da polêmica diz respeito ao fato de haver enorme proximidade entre a história contada em Lolita e os fatos acontecidos com a menina norte-americana Sally Horner, que desapareceu dias após completar 11 anos, em junho de 1948, sequestrada por um pedófilo.

Estudiosos argumentam que o escritor russo teria tomado conhecimento do caso e o retratado em seu romance, com os devidos reparos. Argumento que é reforçado no livro de Sarah Weinman “The real Lolita: the kidnapping of Sally Horner and the novel that scandalized the world”, baseado nas investigações do universitário Alexander Dolinin, que encontrou indícios e incríveis semelhanças entre Dolores Haze (personagem de Nabokov) e a garota Sally Horner.

Cabe destacar ainda que Lolita não é a única personagem menor de idade a sofrer violência sexual ou tornar-se objeto do desejo de personagens adultos dentro da bibliografia nabokoviana. Há outras ninfetas a sofrerem abusos em pelo menos seis de seus dezenove livros de ficção. Seria essa uma fixação do autor?

A terceira polêmica em forma de livro retiro do romance “Os 120 Dias de Sodoma” (1785), do Marquês de Sade, que, aliás, tem praticamente toda sua obra construída sobre a base de violentas polêmicas. 

O livro tem tudo aquilo que é comum ao repertório do sadismo: escatologia, incesto, pedofilia, abusos físicos e sexuais, tortura de crianças, assassinato e orgias. 

Lembremos que o contexto histórico que fundamentou a trajetória literária do Marquês foi por demais turbulento, levando-o a fazer opção pela linguagem da violência como instrumento político e ideológico para afrontar instituições como a família, a Igreja e o Estado. Ademais, o escritor francês viveu libertinamente a vida, assumindo como sua filosofia os preceitos que pregava em suas obras. Impossível, portanto, não chamar a atenção do mundo, ainda mais com o caráter perturbador das suas histórias, que, de algum modo, denunciavam o lado mais sombrio da psique humana, desnudando também as hipocrisias da moral da época.

Para terminar, o quarto exemplo de obra polêmica na literatura mundial é o livro “Minha Luta” (1925/1926), escrito por Adolf Hitler. O chanceler da Alemanha nas décadas de trinta e quarenta do século passado escreveu nada menos que a Carta Magna do nazismo, movimento que ajudou a fundar.

Trata-se de um escrito de divulgação da filosofia nazista, dos planos e ambições de seu autor e de suas supostas qualidades. De quebra, trazia a público ideias antissemitas, preconceituosas e racistas do futuro ditador. Nele são plantadas as sementes que vingariam com o projeto do Holocausto, durante a Segunda Guerra Mundial, visto que, dentre outras coisas, incitava os alemães a combater os judeus que, segundo ele, acabariam por dominar o país. 

Depois de um bom tempo retirado das livrarias europeias, o livro caiu em domínio público, retomando, em 2016, a polêmica mundial, com matérias na imprensa acerca de suas reedições em vários países.

Para além desses títulos, há uma lista enorme de outros, em tempos idos ou na contemporaneidade, capazes de suscitar toda espécie de sentimento, (principalmente os piores) seja pela ousadia das questões abordadas (ou pela forma como foram feitas), pela repulsa que causavam, pelos debates que levantaram, pelas figuras e valores que envolveram. 

O fato é que mexer em vespeiros, colocar lenha em fogueiras, cutucar onças com varas curtas, efetivamente ajuda a tirar qualquer autor ou autora, e sua obra, do anonimato, havendo ou não qualidade no escrito. Além do mais, fazer polêmica é sempre uma boa forma de garantir publicidade e vendas, agitar os debates públicos e marcar espaço na literatura de uma época (para o bem ou para o mal).

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