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Rogério Rocha faz homenagem ao poeta Manoel Serrão da Silveira Lacerda, falecido em 12.2019

Aa poesia de Serrão sofreu influências de Rimbaud, William Blake e Sousândrade. Posteriormente, em exercícios mais ousados, também presentes na sua obra, ecos de Leminski e Pignatari.

26/04/2021 16h39
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Rogerio Rocha
Rogério Rocha
Rogério Rocha

 

UM COSMOS NA CASCA DE UMA NOZ 

Por Rogério Rocha

Quantos livros morreram no prelo? Quantos poetas morrem inéditos? Quantas obras sequer encontraram as retinas dos leitores? Trata-se de uma realidade que se tem manifestado durante toda a história da literatura, para não dizer da própria história da arte.

Hoje escrevo a partir da ausência do homem a quem este pequeno texto – que tem caráter de mera apresentação – busca alcançar. Falo da figura de Manoel Serrão da Silveira Lacerda, nascido em São Luís (MA), advogado e professor de direito, descendente de espanhóis e portugueses judeus, que partiu do plano terrestre em 26 de dezembro de 2019 sem deixar sequer um livro publicado.

É importante frisar, incialmente, um esforço hoje em curso para não o condenar ao solo frio do ineditismo – que, nesse caso, equivaleria não ao puro esquecimento, mas ao estado de eterno desconhecimento do poeta pelo público de hoje e talvez de amanhã.

Tal iniciativa vem sendo levada a cabo pelos mais íntimos amigos, dentre os quais cito dois, para fazer-lhes justiça: os escritores João Batista do Lago (por meio de quem pude conhecer a obra de Serrão) e Mhario Lincoln (grande divulgador da cultura brasileira e maranhense). Neles deposito a esperança de ver realizado um sonho do falecido escritor: o da publicação de sua obra. Ainda que póstuma, merece publicação.

Manoel Serrão é um poeta não lido, por isso não conhecido. Digo é (e não foi) pelas razões conexas às respostas que poderíamos oferecer aos questionamentos que fiz logo no primeiro parágrafo.

Poeta Serrão.

Não o pude conhecer, é verdade. Chegaram a mim, contudo, seus poemas, apresentados que me foram por um amigo do homenageado, o já citado poeta João Batista do Lago, que os tem disseminado em vários sites de literatura na rede mundial de computadores. Alguém que reconheceu nos versos daquele ser humano a força abrangente de um autor que, no recolhimento de sua timidez, praticou muito boa poesia, como a que encontramos na belíssima “Ses’sen’ta”:

Ó qu'eu por amor à ti vida, não fiz! / Se por ti me fiz o sono leve, o sonho, e o pesadelo/ a luz e a sombra./ Se me fiz pouco a pouco a paz e a escuridão/ sem medo da noite;/ 

Se me fiz o Sol, o céu preclaro, o sal, o cio, dias rútilos/ –, sementes;/ plantei-me em ipês de floradas amarelas./ Se me fiz o modular do bem-ti-vi cantador,/ e o revoar do colibri  beija-flor.

Serrão, que foi um escritor prolífico, estruturava suas criações dentro de um vasto repertório de signos, com riqueza vocabular e uma gramática de extensas raízes, fazendo excelente uso dos recursos estilísticos disponíveis a sua lírica, geralmente concretizada em versos longos, quais os que temos no poema “D’osgemeos”, reproduzido abaixo em excerto:

Ó tu imortal que ao sal das vagas emerge das entranhas líquidas,/ que desaba em fúria severa sobre o tombadilho,/ e quão um punho em brasais, esbatia-se contra o rochedo do "Náutilos"/: arremessa-o contra o tempo pelo eterno;/ desafia-o num só gesto à morte;/ e, atormenta-o nos interiores pelos seus contrários o mundo ao redor.

Manoel soube, contudo, expressar-se também em poemas curtos, como em “Água benta”: Dessedenta/ A língua/ E o céu da boca!/ Cospe o velho/ Saliva o novo. Ou em “Delirium”: Distorce-me/ O real pelo avesso.../ Ó delusão? Mentir para o/ Meu ‘eu’ não!/ Nunca fui (ao) mundo oposto.

Com versos livres ou rimados, com métrica ou não, através de aforismas, pensamentos, prosa poética e, às vezes, filosófica, apresentava, em seu temário, assuntos como a relação do homem com o Divino, a religião, o misticismo, a existência, os sonhos, o amor, a morte e a psique. É possível notar também conteúdo e formas absorvidas de autores da antiguidade ocidental, como Homero e Horácio, por exemplo.

Percebi, contudo, logo ao primeiro contato com a poesia do desconhecido maranhense, influências de Rimbaud, William Blake e Sousândrade. Posteriormente, em exercícios mais ousados, também presentes na sua obra, ecos de Leminski e Pignatari. Para além disso, a tentativa de construção de um percurso baseado na não-linearidade e na versatilidade, ambas demonstradas num estilo poético carregado de ecletismo e que tinha em vista, ao que me parece, a universalização das suas muitas vozes. Sim. Serrão foi dono de múltiplas vozes. Nelas havia beleza e solidão, intimismo e exterioridade, amor e vida.

Ademais, vi também um criador de versos, poeta com pê maiúsculo, que, infelizmente, nunca gozará da possibilidade de celebrarmos juntos a amplitude monumental da sua escrita, no rastro de uma obra quase invisível e capaz de realizar o milagre do enclausuramento de todo um cosmos na casca de uma noz.

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