Domingo, 28 de Novembro de 2021
18°

Muitas nuvens

Curitiba - PR

Cidades Convidados

"O turista e o contador de histórias". Texto do convidado especial, Roger Dageerre. S.Luís-MA

Conto.

04/05/2021 às 19h00
Por: Mhario Lincoln Fonte: Roger Dageerre
Compartilhe:
capa
capa

         O turista e o contador de histórias. 

Convidado especial: Roger Dageerre*          

O francês Daniel Louis resolveu fazer turismo no Brasil e escolheu as três capitais ilhas. Primeiro visitou Vitória – Espírito Santo, depois foi conhecer Florianópolis – Santa Catarina. E no dia 05/07/2014 chegou ao aeroporto Marechal Cunha Machado em São Luís – Maranhão. Logo ao desembarcar, soube que estava na Ilha dos Amores. Acenou para um táxi e ordenou ao motorista a seguir em frente. Percorreram toda a Avenida Guajajaras e quando chegaram ao retorno da Forquilha mandou dobrar à direita. Foi uma intuição, pois não sabia aonde ia. Então seguiram pela Rodovia Ma-201 - Estrada de Ribamar. Passaram pelo Maiobão, um bairro muito movimentado, Laranjal, Rio São João e Pindaí. E ao se aproximarem da Igreja São José dos Índios pediu para o motorista fazer uma parada. Desceu do veículo e foi olhar a Capela de perto, mas viu apenas por fora, pois a Igreja estava fechada. Retornou ao taxi e seguiram em frente. Ao se aproximarem da cidade de São José de Ribamar perceberam um clima de festa, pois estava acontecendo o encerramento das festas juninas com o tradicional encontro de grupos de bumba meu boi onde reúne principalmente o boi da Maioba e Ribamar. Ali estava sendo encerrado a 61ª edição do Lava bois. Ao se aproximarem da placa onde estava escrito sejam bem-vindos a São José de Ribamar, o turista Daniel despachou o taxista, pôs a sua bagagem nas costas e se misturou aos quase cinquenta mil brincantes. Para chegar à Igreja de São José de Ribamar, que era a intenção do turista francês conhecer o número máximo de igrejas, teve que seguir pelo bairro da Campina e Barbosa, pois a Av. Gonçalves Dias estava interditada porque contava com a presença dos bois: Tamarineiro, Inês Maranhão, Novo Brilho, o batalhão da Maioba e o batalhão de São José de Ribamar. Bem como a animação da Banda Dois Corações. Por isso, o francês teve que usar os atalhos para visitar a Igreja Matriz. Contam os fiéis antigos, que as três tentativas para construir a igreja, todas desabaram misteriosamente porque foram construídas de costas para a Baía de São José. A atual, construída em 1915 de frente para o mar, permanece até hoje de pé. Daniel Louis entrou pela porta lateral da igreja e ficou encantado, pois dentro sentiu a presença de “Deus”. Ajoelhou-se e rezou a Oração que Deus nos ensinou. Tomou a benção ao padroeiro da cidade e saiu pela porta da frente e foi apreciar a beleza da Praça da Matriz. Parecia um sonho, pois o francês pôde se misturar às esculturas existentes na praça que contam a história da peregrinação da família de “Jesus”. Esculturas do tamanho de humanos e de animais, onde ele pôde tirar fotos bem perto das imagens. Depois de apreciar toda a história da peregrinação, visitou a Gruta de Lourdes, que é uma réplica da Gruta da existente na França, local mais visitado do Maranhão. Ao sair da Gruta, ajoelhou-se aos degraus da Concha Acústica e fez o Sinal da Cruz. Levantou-se, comprou um chapéu de palha, óculos escuros e desceu para a Praia de Banho. Depois seguiu à esquerda em direção à Praia de Panaquatira, uma praia sem poluição e considerada de ondas fracas, mas um imenso muro de arrima que foi arrancado pela força da maré, era uma prova de que não existe fraqueza em fenômenos da natureza, por isso tem que ser eternamente respeitados. Incrível como a maré arrancou o muro por completo como se não aceitasse aquele obstáculo. Um alicerce construído para evitar que a maré de quarta danificasse o morro de barro. Ele fez questão de caminhar sobre o muro de arrima como se fosse um tapete da sua sala de estar. Tapete de pedra bruta com quase três metros cúbicos. Parou, e inconformado perguntou ao garoto que estava lá em cima do morro apreciando a praia:

          - Foi a maré que rebentou esse muro?

          O garoto confirmou apenas gesticulando positivamente com a cabeça.

            Daniel Louis desceu da pedra e continuou sua caminhada apreciando os encantos da Praia de Panaquatira. Foi nessa praia que o turista francês aprendeu a comer caranguejo e a saborear o famoso peixe pedra. Depois caminhou mais um pouco e chegou à Praia do Araçagi, que fica ao norte da ilha de Upaon-açu, na Região Metropolitana de São Luís. A praia mais cobiçada, com orla de dunas, com vegetação rasteira típica. Possui um farol que pode ser visto da praia. Com muitos hotéis, pousadas, vilas, albergues e motéis.

         Muito cansado, Louis pagou um catraieiro para leva-lo até à Praia do Olho D’ água. Agradeceu, desceu da canoa e foi em direção ao primeiro bar e ficou ouvindo a lenda que um violeiro contando em melodia:

aldeias antigas.

- “Antigamente existia aqui, nesta praia, uma aldeia indígena, o chefe era Itaporama. A filha dele se apaixonou por um índio que gostava de tomar banho no mar que foi desejado pela “Mão D’ Água”, que se apaixonou pelo jovem que o enfeitiçou com seu canto e o levou para sua morada nas profundezas do mar. A filha do chefe sofrendo de saudades recusou-se a comer e a beber. Por isso, ela faleceu e foi enterrada na areia da praia. No local onde a índia havia sido enterrada, nasceram dois olhos d’água, diz a lenda que foram dos olhos dela que viraram duas nascentes que correm sem parar em direção ao mar”.

          O francês aplaudiu o violeiro e pediu ao dono do bar para guardar a sua bagagem enquanto foi mergulhar nas ondas do mar. Depois continuou a sua caminhada em direção à Praia de São Marcos. A maré estava enchendo e os sufistas se espalhavam pela beira da praia aguardando o momento ideal para a prática do suf. Um dos jovens ofereceu a sua prancha ao francês. Ele arriou a bagagem e sem tirar o chapéu pisou na prancha e ficou equilibrado. O jovem sufista disse:

          - Quero vê sobre as ondas...

          O francês respondeu falando o português arrastado:

          - Quando a maré encher...

         Os dois deram gargalhadas. O sufista pegou a prancha de volta, o francês pôs a mochila nas costas e seguiu a sua caminhada. Andou todo o percurso da Litorânea e depois chegou à Praia do Calhau. Logo percebeu que a praia era cercada por dunas e coqueiros. Também uma grande quantidade de esportistas e uma variação de alimentação típica. Digamos “uma bela praia”.

          Daniel pegou um ônibus e foi à Praia da Ponta da Areia. Procurou saber a origem do nome e descobriu que foi por causa de sua localização e formato; e também por ficar próximo da foz do Rio Anil que forma uma ponta onde começa a praia e por isso é chamada de ponta. Quando chegou, percebeu que a praia era muito habitada. Muitos hotéis, bares, restaurantes, festas, principalmente de reggae. E logo encontrou a Lagoa da Jansen. Ficou impressionado com a quantidade de restaurantes, quadras poliesportivas, ciclovias, pistas para Cooper e muito espaço para quem gosta de ar puro e espaço livre. Sem falar na diversão noturna.

          Logo depois, andando pela Lagoa da Jansen, Louis avistou a Ponte do São Francisco e a Ponte Bandeira Tribuzi. Mas não quis passar sobre a ponte e procurou fazer contato com tripulantes de uma embarcação que estava ancorada. Era um veleiro de Cajapió – Ma. O francês começou a gritar até que apareceu, no convés, um velho perguntando:

          - O que deseja? – perguntou o mestre da embarcação.

          - Quero atravessar o mar...

          Com o gesto, deu para entender o que ele queria, e disse:

          - Pode ir pela ponte...

          - Não. Quero ir de veleiro...

          O mestre autorizou um catraieiro a trazer o francês até a embarcação, pois precisava entender melhor o que ele queria.

          Depois que Daniel conseguiu explicar que queria ir embarcado, o mestre concordou em satisfazer o desejo dele porque reconheceu que se trava de uma pessoa muito simpática. Abriram as velas e seguiram em direção à Beira Mar, pois ele queria conhecer a Fonte do Ribeirão. O veleiro atravessou do bairro São Francisco a Beira Mar e encostaram ao lado da ponte. Dali mesmo o mestre mostrou a rua que ele deveria seguir direto até encontrar a Fonte do Ribeirão. O mestre não cobrou pelos serviços e o francês agradeceu. O veleiro retornou e Louis saiu procurando a Fonte.

          Poucos minutos depois, o francês encontrou a Fonte do Ribeirão. Pôs a bagagem no chão e levado pelo cansaço, deitou-se sobre a própria bagagem.

          Um rapaz que estava na porta do prédio da Fundação Municipal de Cultura, preocupado com o turista, que aparentava desmaiado, foi verificar de perto. Ao se aproximar, percebeu que ele estava cansado e perguntou:

         - O senhor está bem?

         - Muito cansado.

         Pelo sotaque percebeu que não era brasileiro. E perguntou:

         - O senhor é de onde?

         - Sou francês e quero saber toda história de São Luís. Principalmente das igrejas. Você conhece a lenda desta fonte?

          - Um pouco.

          O francês Daniel Louis levantou-se e disse:

           - Conte-me...

           - A mais conhecida, trata de uma imensa serpente adormecida que cresce aos poucos no subsolo, a cabeça está aí dentro. – E apontou na direção da fonte – e a cauda abaixo da igreja São Pantaleão. No dia em que a cabeça encontrar a cauda, a serpente acordará e destruirá a cidade.

            O turista não resistiu e deu uma boa gargalhada.

             - Não é só essa não! São muitas histórias...

             - Obrigado. Vou ter muito tempo para ouvi-las, pois resolvi residir nesta terra maravilhosa para sempre, porque aqui tem muita inspiração e muita história para se contar...

*Roger Dageerre é contista, escritor e poeta maranhense.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias