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Conto do poeta, músico e compositor Zeca Tocantins, "BANZEIROS", parte 01

Aguarde a parte 02, neste espaço.

05/05/2021 às 12h42
Por: Mhario Lincoln Fonte: Divulgação
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Zeca Tocantins.
Zeca Tocantins.

BANZEIROS

(parte 01)

Conto do convidado Zeca Tocantins 

Nora procurou no fundo do bolso um naco de fumo, colocou-o na boca e mastigou com satisfação. Vício miserável! Tinha tentado todas as simpatias até se entregar completamente. No começo tinha certo receio, fazia às escondidas; com o tempo foi fazendo escancaradamente: “Costume do cachimbo é que entorta a boca”, recitava o velho ditado, enquanto atirava longe uma farta cusparada. Isso lhe produzia certo conforto. 

Ninguém ali poderia censurá-la. Todos, sem exceção, tinham os seus próprios defeitos, muitas deles mais de um. Provavelmente eram seus próprios vícios que os traziam tão próximos. Partindo desse contexto, tudo ali era permitido, menos... Encheu os pulmões de ar e cantou forte: “Ó meu Divino Espírito Santo!...” A caixa repicava e o coro respondia animado. 

A luza da lamparina se debatia contra o vento, mas sempre aparecia uma mão protetora. A cachaça circulava pelas mãos dos presentes. Era sempre motivo de festa cantar o Divino pela redondeza, e só uma coisa preocupava Nora: eram as águas da Cachoeira. Estranha mania; já as havia atravessado várias vezes, mas sempre carregava fixa a ideia de que sua vida findaria ali naquelas águas turbulentas. 

Enquanto a caixa respondia. Nora imaginava como as pessoas são antagônicas: todos ali odiavam os defeitos dos outros, no entanto, sentiam-se na obrigação de suportá-los. Seu Mumbaca, por exemplo, sempre fora um acompanhante indispensável, fiel no coro, nunca perdia uma cantoria do Divino. No entanto, nos tempos de prosperidade do garimpo do Clementino, ele era o famoso cara-amarrada, sujeito que amedrontava todos os garimpeiros, principalmente aqueles que tinham adquirido algum recurso. Quando sabia da notícia de que algum aventureiro tinha bamburrado, ele se punha de tocaia na estrada, com a cara amarrada num lenço, abria fogo contra o infeliz – uma das mortes mais traiçoeiras. Quantos coitados tinham perdido a vida por conta de boatos! Nos garimpos é assim: quando alguém se propõe a voltar para a sua casa, todos imaginam que está com dinheiro. 

Certa feita era ouvira uma dessas histórias do próprio Mumbaca – que, quando passava dos limites nas suas goladas, costumava contar vantagens de suas aventuras criminosas. Ele contava que tinha cometido um desses crimes e que isso inda hoje lhe doía a alma, até porque nutria uma certa amizade pela vítima, um jovem que chegara, como tantos outros, com a disposição de enricar. Talvez por isso ninguém acreditasse que ele retornaria sem dinheiro ou, pelo menos, com uma boa quantidade de diamantes no picuá. 

Mumbaca fez a tocaia e aguardou paciente até ouvir os primeiros passos. Um frio lhe subiu a espinha, rezou baixinho uma ave-maria e encomendou pela alma do falecido. Este era na verdade um velho costume. Mas tinha outro, talvez ainda mais estranho: carregava no bolso sempre uma vela, que colocava na mão do infeliz na hora da agonia. Defunto seu não morria sem vela, era um de seus orgulhos. Na quietude da mata , os passos se aproximam; uma mosca varejeira fez festa nos seus ouvidos; espantou com a mão, e imaginou que o pequeno inseto deveria está adivinhando chuva. 

Convencer um garimpeiro a regressar sem dinheiro era uma tarefa quase impossível, e Zé Mário tinha prometido voltar com riqueza. Dissera que iria a busca de fortuna e que só voltaria com dinheiro pra mudar de vida. Cinco anos fazia que zanzava pelo mundo dos garimpos. Conseguira alguma coisa, é bem verdade, mas dinheiro de garimpo parecia amaldiçoado, desaparecia rapidinho. Enquanto não se obtinha, pensava-se em investimento, na família. Mas, era colocar um pouco nos bolsos e os planos iam todos de água abaixo. O pensamento se pervertia, a imagem que os perseguia era das mulheres alegres dos cabarés, cujos lábios se avolumavam pela tintura do batom. Ali os garimpeiros esqueciam as amarguras no meio da bebida e músicas cheias de saudades. Os que tinham dinheiro possuíam as mulheres mais belas, em noites incontáveis de farra, até que os bolsos se esvaziavam. Depois, retornavam pro cabo da picareta mastigando sonhos milionários. 

Zé Mário vivera esse sonho, um sonho longo que durou cinco anos. Durante todo esse tempo escrevera duas vezes para seus familiares. Notícia deles também não tinha. Fora difícil tomar aquela decisão; voltar para casa sem dinheiro representava a sua derrota. Mas, ultimamente, a saudade vinha lhe martirizando de tal maneira que resolvera ceder. A angústia da distância lhe criara uma ferida. Nas horas de intervalos do serviço, no silêncio da noite, as vozes das crianças lhe seguiam acendendo um desespero que lhe tomava de tristezas. Será que a família lhe aceitaria? As crianças, não tinha dúvida; mas, e a esposa? Ela teria sido fiel durante todo aquele tempo?... Um profundo desânimo invadira seu pensamento, 

ele recorda de lhe ter feito esta pergunta várias vezes, e talvez tenha sido a desconfiança que lhe causara todo o empecilho. Um fogo lhe queimava a face, era o fogo da vergonha de ter sido corneado. Teria ele agora alguma autoridade para cobrar fidelidade a sua esposa?...Ouvia a voz das crianças na solidão da estrada, nunca a palavra “papai” tinha lhe soado tão bonita. Imaginava o menino, que ficara apenas com três anos de idade, lhe chamando para jogar bola; a menina, agora com seis anos, com a mochila nas costas, lhe beijando a face na despedida pro colégio. Essas imagens lhe roíam a alma e ele imaginava o quanto estivera distante do crescimento daquelas crianças. Mas ele agora tinha certeza de que seria diferente; se não levava dinheiro, pelo menos levava uma mochila carregada afetividade, diria aos filhos o quanto sentira saudades. No caminho, solitário, uma pergunta ainda mais cruel lhe criara chagas: E se a esposa estivesse vivendo com outro? Os filhos estariam entregues na mão de padrasto. Imaginou-se chegando a casa e encontrando outro em seu lugar. Um desespero tomou conta de sua alma, queria mil vezes a morte, mil vezes! Pareceu ouvir um estrondo, como se o ventre da terra estivesse explodindo. O impacto lhe arremessou distante. Sentiu como se um vulcão dentro de si tivesse entrado em erupção e as larvas banhassem seu corpo, queimando até o último pensamento. Viu uma rosa desabrochando do lado esquerdo de seu peito, cor de sangue. 

Mumbaca prendeu a vela nas mãos do moribundo, enquanto o tiro inda ecoava pelos confins da mata. Revirou todos os seus pertences e o que descobrira lhe deixara muito contrariado: apenas uma dúzia de pequenos diamantes cujo valor mal daria para cobrir o preço do cartucho e uma fotografia já amarelada de duas crianças. Baixou-lhe as pálpebras e rezou contrito mais uma ave-maria. Partiu dali amaldiçoando o boato de que o outro carregava bastante dinheiro. 

O canto varava a capoeira e se estendia pela chapada, subia a serras, a caixa repicando e o coro respondendo. 

Nora era feliz quando cantava o Divino, mas alguma coisa naquela noite estava lhe incomodando. Era justamente a travessia pela Cachoeira de Santo Antônio. Todo mundo sabia que a descida era sempre mais perigosa. O que ela não entendia era que aquela ideia se fazia tão presente, encravada no canto do Divino como uma pedra no sapato. Afinal de contas, seu Maroto, o comandante do barco, era dos mais competentes. Vinham barcos de Belém do Pará e de Porto Nacional e, quando chegavam ali, no pé da Cachoeira, comandantes entregavam o leme para Maroto, ele conhecia a sobra das pedras, por onde os barcos deslizavam tranquilamente. Portanto, não entendia o motivo para tanta preocupação. 

Na calada da noite o canto enchia a casa. Invadia a escuridão e adentrava a mata. Ninguém poderia imaginar que ali já fora uma rua movimentadíssima. Ali mesmo, onde ficava a capoeira, era a Rua do Comércio. Havia bailes, mulheres bonitas e muito dinheiro; isso no auge do Clementino. Nora foi uma das mulheres mais requisitadas, escolhia com quem ia para a cama independente da quantia financeira. Sua vida era cheia de histórias; histórias de homens aventureiros, cheios de sonhos. Então ela experimentou uma profunda nostalgia. 

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