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O músico, poeta e contista Zeca Tocantins volta com a segunda parte de "Banzeiros"

Contos

22/05/2021 às 12h03 Atualizada em 22/05/2021 às 12h14
Por: Mhario Lincoln Fonte: Zeca Tocantins.
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Zeca Tocantins.
Zeca Tocantins.

BANZEIROS

(parte 02)

 

Conto do convidado Zeca Tocantins 

Vida diferente a daqueles homens. Chegavam dos lugares mais distantes, cada qual com seus sonhos mais extravagantes, acreditavam que seu futuro se encontrava na ponta da picareta; que, com mais algumas picaretadas, suas vidas mudariam completamente. E baixavam com força a estranha ferramenta no ventre da terra, corriam para a peneira para a lavagem do cascalho... e nada. Não desistiam, existiam sempre os felizardos, embora raros, para alimentar suas esperanças. Eram homens festivos, solidários, que se iam embrutecendo na luta pela sobrevivência. Distante de sua terra e de suas famílias construíam laços afetivos que se desfaziam com facilidade. Quando o garimpo já nada tinha a lhes oferecer, eles abandonavam os seus barracos e simplesmente desapareciam, em busca de outras aventuras. 

Seu Cametá vivenciara toda aquela transformação. Aliás, seu verdadeiro nome era Raimundo Lopes Barras, vindo da numerosa família dos Barras da cidade de Cametá, cidade paraense onde tinha nascido. Essa prática era exercida com muita facilidade: as pessoas recebiam o nome da cidade ou do estado em que moravam. Isso acabava possibilitando o conhecimento da origem daqueles aventureiros. Cametá chegara ali também em busca de fortuna, foi um dos pioneiros do velho garimpo, viu as ruas se estenderem e chegou a ser um dos mais bem sucedidos comerciante do Clementino. Tinha estoque de mercadorias e garimpeiros a seu serviço. Depois, como uma pedra de gelo atingida pelo sol, viu tudo aquilo se derretendo. O custo dos garimpeiros já não lhe trazia nenhum retorno. Dos que restavam, poucos conseguiam cumprir com suas obrigações na mercearia; por isso era obrigado a ficar com alguma coisa daqueles que abandonavam o garimpo. Foi assim que ele viu se formarem as fileiras de barracos abandonados. Era o velho garimpo do Clementino agonizando. 

Ninguém sofreu tanto aquele abandono e, até hoje, nunca soube explicar o motivo de ter continuado ali. A última levada só foi possível graças a seu patrocínio. Teve que tirar dinheiro do bolso para ajudar aquela pobre gente, parte dela castigada pela malária. Assistir aquela retirada foi muito dolorido. Eram pessoas carregando nos seus poucos pertences a fé despedaçada, a esperança apodrecida, buscando encontrar naqueles restos de resistência algum sonho que lhe erguesse a cabeça, para seguirem firmes na marcha, na tentativa de garimparem sua dignidade. 

Barracos de garimpo/google.

Foram-se os homens mas ficaram os sonhos, e os sonhos inacabados tornaram-se pervertidos. Naqueles barracos miseráveis, caindo aos pedaços, ficou a luxúria, ficaram os sonhos libidinosos, prepotentes, dominadores, pois a riqueza é mãe de todos os vícios. Quando era noite, os fantasmas da luxúria vinham fazer as suas farras nos barracos abandonados. Por isso Cametá foi obrigado a derrubá-los um por um, até a solidão habitar completamente aquela região. 

Nora sabia o caminho das casas, sabia que logo ai onde se erguia o pequizeiro ficava o cabaré. Ela, bonita e fogosa, era sempre muito requisitada. Quantos homens teria amado? Nora confundia o amor. Achava que as vezes que aceitava descontos na hora do acerto, e as outras em que se entregara por inteiro, era amor... Por isso mentalizara dezenas de pessoas. 

Logo mais aconteceria o retorno e a cachoeira de Santo Antônio estava lá, à espreita, com suas cantigas de medo, com sua garganta de fome, com suas garras de pedra. Não compreendia a razão de tanta inquietação; sabia que marinheiros, muitos deles experimentados, tinham perdido a vida naquela passagem. Até os gritos dos naufragados eram engolidos pelo barulho da cachoeira. Sua obsessão acabou despertando outra inquietação ainda mais terrível, e ela tinha fugido tanto desse pensamento: a gravidez de sua filha de apenas treze anos. Isso lhe magoara profundamente, pois tinha imaginado um futuro tão diferente e agora acontecia esse desastre. 

A história do Boto Encantado tinha ficado entalado na sua garganta; bem que gostaria que a filha pelo menos tivesse a honestidade de lhe contar a verdade. Que essa história corria o rio Tocantins ela bem que sabia. Agora, engoli-la, isso não aceitava de forma alguma. Foi o boto encantado, mamãe, quando eu estava lavando roupa no pedral, dissera a menina com a cara mais cínica. Isto ela não engoliria. Para ela, aquele boto tinha um nome e esse nome era bastante familiar, seu tino de mãe não lhe trairia. Notara que a menina nos últimos tempos vinha com um estranho costume, descia para as margens do rio quase toda noite. Numa dessas, ela acompanhou às escondidas e acabou descobrindo que a menina se dirigia ao barco do Maroto. Bem que ela havia notado os olhos esticados do desgraçado no rumo da menina!... 

Como as mães são cegas!, queixava-se. Para ela, Mara nunca passara de uma criança, não havia percebido o crescimento da menina, nem o desenvolvimento de suas formas, que agora eram as de uma mulher atraente. Enfrentara chuvas e tempestades; mesmo na sua gravidez teve que deitar com vários homens, pois o tempo já se tornara difícil, e ela acalentava no fundo do coração o desejo de ser mãe. Queria para a filha tudo o que ela não conseguira conquistar; estudo, marido e uma vida digna. Agora, ela aparecia grávida e era tão jovem ainda!... Quem era mesmo o pai de Mara?... Ela escondera da filha todo aquele tempo; esquivara sempre quando era interpelada, mas hoje, quem sabe, contaria tudo. 

Puxou o canto, a caixa repicava e o coro respondia. A garrafa circulava entre os presentes. Sobre a cabeça do menino Jesus pairava a pombinha do Divino. A cachaça pesava a língua dos cantadores; por isso, agora o canto se parecia mais triste, mais contrito. 

Se Nora tivesse certeza, o diabo ia se soltar, empurraria Maroto na cachoeira, mesmo se o barco despedaçasse na primeira pedra, disso ela não tinha dúvidas. Quem aquele filho da puta pensava que era, para andar comendo a filha dos outros?... Cachorro fodedor um dia quebra o pau, pensava. Tenta abarcar os dois com a vista e parece ver Maroto se esfregando na bunda da menina; e ela, toda satisfeita. 

Na cozinha, Mundica fazia das tripas coração para pôr tudo em dia. Era a esposa de seu Cametá e tinha que preparar comida pra toda aquela gente, ninguém sairia dali reclamando falta de comida. Por isso desde cedo ela se deu ao trabalho de correr atrás de frangos, tratá-los, temperá-los e enfiá-los nas panelas, de onde exalava um cheiro agradável que enchia a casa. Nunca fora dada a reza; escutava, achava bonito, mas acreditar que aquelas rezas poderiam levá-la ao céu, isso nunca pensou. Acreditava no destino, neste sim, sabia que ninguém fugia dele; essa era a sua religiosidade aceitava os martírios até com certa doçura, achando que com isso estaria acertando algumas dívidas do passado. Sua crença no destino não tinha tamanho , sua emoção ia às lágrimas quando via uma cruz na beira da estrada: Quem seria? Morreu de quê?... Veio de onde?... Sua cabeça era inundada de perguntas como estas, que lhe martirizavam. Depois, concluía docemente: foi o destino, ninguém escapa do destino. Tinha que morrer neste mesmo lugar. Tudo é traçado, ninguém muda, dizia conformada. 

Quando alguém contradizia o seu pensamento, Mundica se colocava como a maior prova: nascera nos sertões do Ceará, nunca tinha visto um rio e acabara vindo morar nas margens do Tocantins; sua família era toda de lavradores e estava morando com um garimpeiro. É o destino, dizia. 

No tempo das vacas gordas, quando o garimpo dava dinheiro, dona Mundica era apenas a cozinheira de seu Cametá. Ele levou pra cama quase todas as mulheres que pisaram no Clementino. Mas era justo: pagava sempre o preço combinado. Mundica não saberia precisar quando mudou de profissão, ou melhor, quando acumulou as funções de empregada e esposa. Passou a lavar a roupa de Cametá, depois foi para a cama com ele e acabou se transformando na dona da casa. Interessante é que ela não sabia se isto representava alguma vantagem: como cozinheira recebia seus vencimentos, agora não tinha nada disso. Além do mais, isso se deu depois que a mulherada foi-se embora e Cametá já não tivesse mais o que gastar. Mesmo assim não se lastimava, sabia que o destino é quem traça o caminho de todos nós. 

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