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Convidada Linda Barros, escreve hoje sobre "Três estrelas em forma de Arte".

Entretenimento.

04/06/2021 às 17h17 Atualizada em 06/06/2021 às 20h15
Por: Mhario Lincoln Fonte: Linda Barros.
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TRÊS ESTRELAS EM FORMA DE ARTE

*Linda Barros, professora e atriz

E em um mundo no qual as desigualdades tornaram-se regra, é importante descortinar os preconceitos e a ideia de que “o sol nasce para todos”, quebrar tabus e mostrar ao mundo que talvez não exista o tal sexo frágil. Mulheres e homens caminham na mesma direção, mesmo que lutem por objetivos diferentes e que sempre tenha alguém querendo ficar alguns passos diante dos seus semelhantes.

            Neste artigo, mostraremos o percurso de três mulheres sob diversas perspectivas, em diferentes áreas de atuação, cada uma com seu brilho próprio e que vieram a este mundo para nos iluminar com seus múltiplos talentos.

            Daremos início ao nosso passeio pela nossa vasta constelação. A estrela da vez tem nome de flor que desabrocha no jardim das palavras, colore e deixar seu brilho e seu perfume nas mãos como uma composição híbrida. Nessa via láctea entra em cena uma verdadeira estrela com nome de flor, ou melhor, uma mulher forte, mas de personalidade singular e tão delicada quanto uma Rosa. Como se seguisse no percurso de um riacho, surge no meio das águas Rosa Ewerton Jara.

            Atriz, dançarina do grupo Núcleo Atmosfera de Dança-Teatro, nascida em Cajapió e criada em Pedreiras, mas radicada em São Luís desde os sete anos de idade. Rosa respira a arte em todos os poros, já que são “38 anos aprendendo esse ofício difícil e prazeroso”, segundo ela.

            Jara faz parte do grupo Xama Teatro e é uma das participantes do espetáculo As Três Fiandeiras, que conta a história de três atrizes-personagens que têm como objetivo mostrar a história de três rendeiras, Das Dores, Chica e Zezé, cada uma tratando, através de gestos simples, temas como a dor da perda, a insegurança e a superação – o ato da busca pelo filho perdido é um dos mais belos que já vi em um teatro.

            No teatro, a artista já participou de inúmeros espetáculos, entre eles, “Frida”, resultado de trabalhos baseado no espetáculo As Cores de Frida, a mais importante pintora mexicana do século XX Frida Kahlo, trabalho dirigido por Leônidas Portela. Este espetáculo é inteiro versado no universo feminino da grande artista mexicana.

            Rosa Ewerton também já brilhou no cinema nos filmes “O signo das Tetas” e “As Órbita da Água”, ambos dirigidos por Frederico Machado e baseados na obra do inesquecível Nauro Machado. E, mais recentemente, também foi possível encontrar a atriz nas grandes telas no curta-metragem Aquarela, de Al Danuzio, no qual interpreta a mãe de um presidiário.

            E assim como simbolicamente seu sobrenome Jara, que significa “ousadia, espírito competitivo, independência, força de vontade, originalidade”, Rosa Ewerton veio para deixar sua marca no mundo das artes, com sua versatilidade artística. A atriz tem uma visão independente e dinâmica, características de uma verdadeira estrela que veio para trilhar caminhos e brilhar com seu talento incessante, e é desta forma que a mesma é vista no mundo, seja do teatro, seja do cinema. Jara também significa “riacho” que, assim como ela, segue um percurso sem se desviar do seu verdadeiro caminho, mostrar e se deixar mostrar, assim como na arte e na vida.

            E continuando nossa constelação, vamos continuar nos palcos da vida, tentar ficar na meia ponta (dos pés) e falar de uma outra estrela de brilho intenso, que está nos tablados, mostrando a versatilidade da arte em todas as suas vertentes. Estamos falando de Júlia Emília Bastos Ferreira da Silva, bailarina, atriz, coreógrafa e escritora, mais conhecida no meio teatral como Júlia Emília. Artista maranhense que usa a dança como forma de consciência corporal e ferramenta para inclusão social. Começou a estudar dança na infância, numa pequena escola comunitária aberta pelo clube das mães no Centro de São Luís. Mas logo a Ilha ficou pequena demais para essa jovem bailarina, foi então que ela ganhou uma bolsa para fazer dança, indo para o Rio de Janeiro na década de 1970. Ali estudou balé clássico na Academia de Balé de Tatiana Leskova, sendo recomendada para aprofundar seus estudos no Centro de Movimento e Artes, onde ela poderia desenvolver melhor sua liberdade de criação.

Em 2000, viajou para a Argentina a fim de aprofundar seus estudos. Lá desenvolveu técnicas psicofísicas do desenvolvimento humano na Fundación Río Abierto e na Universidade de Buenos Aires, a dramaturgias do corpo. Nessa época, a dançarina recebeu um convite para visitar a Itália, desenvolvendo essa mesma pesquisa “como trabalhar com a cultura brasileira e aliar a cultura brasileira à consciência do corpo e as noções de dança contemporânea”, pois, acredita ela, que a dança é um motopropulsor.

A bailarina acredita que “o corpo que dança é o corpo que busca a saúde”, conforme disse certa vez. Ela acredita que a dança, assim como todas as artes, tem como instrumento de criação o próprio criador. Significa dizer que se pode fazer um espetáculo sozinho.

Com a proposta de fazer uma ligação entre o tradicional e o contemporâneo nasceu há 32 anos em São Luís, o grupo Teatrodança, fundado por Júlia Emília, um marco revolucionário do cenário da dança no Maranhão, com a ideia de pesquisar linguagens do corpo, da dança e de que forma elas poderiam agir no palco, provocando a plateia, fazendo com que ela possa refletir sobre essa expressão corporal. Desde então o grupo leva ao público o teatro e o movimento usando o corpo.

Além de bailarina e atriz, Júlia também é escritora. Autora da peça teatral “O Baile das Lavandeiras” (2006). Outra obra da escritora publicada com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão (FAPEMA) o livro “Vivendo Teatro-dança”, na qual retrata a dança contada através de ensaio composto de textos dramatúrgicos, processos fundamentados e fotos de investigações, mergulhando na arte popular da dança contemporânea. Como disse Suely Machado, a obra “é um desafio constante de abrir e fechar, acreditar e duvidar, se atira no abismo da criação.”

“Vivendo Teatro-dança” passou pelo Rio de Janeiro e chegou a São Luís. Nesta obra, a autora também retrata um pouco a bailarina no limite da idade para a dança. Como atriz, ela ainda brinda a todos com a célebre e famosa Juju Carrapeta, personagem encantadora que conta histórias sobre a cultura popular maranhense para crianças e adultos. Júlia Emília deixa-nos a lição de que “não há como separar a vida do ato de criar”.

Linda Barros, autora.

Arte é expressão de sentimentos, é a atividade humana ligada às manifestações culturais sejam elas, arquitetura, pintura, teatro, dança, cinema e estendendo à sala de aula, pois a arte de ensinar se estabelece no processo criativo do educador em seu espaço docente, onde o expressar sentimentos está também ligado à conexão do papel do docente para com seus alunos. Foi nesse espaço de sala de aula que viveu boa parte de sua vida, mais uma estrela, que hoje, além do mundo da docência passeia pelo o universo literário, estamos falando de Silvana Lourença de Meneses. Professora, escritora, poeta, formada em Química pela Universidade Estadual do Maranhão e Doutora em Zootecnia. Atuar, significa muito mais que só representar num palco para uma platéia atenta, significa também, exercer um papel seja ele como ator/atriz, bailarino/bailarina, como professora ou também como escritora. No palco físico da sala de aula, passeiam todas as manifestações artísticas, onde o professor é ator principal.

 Natural de Caxias, Silvana Meneses é membro-fundadora da Academia Caxiense de Letras, e tem seis livros publicados. A escritora é membro da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil – AJEB. Nesse grupo, a autora participa de duas coletâneas. A primeira, Toda Forma de Ser Mulher, participando com o conto “A Vida Costura”. E a segunda coletânea, intitulada “Por que Escrevo”, na qual mostra um pouco de seu processo criativo. Os textos da estrela em questão são de um profundo contexto existencial, com um toque de leveza, mas ainda assim, forte. Silvana não economiza na profundidade de suas poesias quando se refere a si mesma, como ser mulher, como podemos observar nos versos a seguir:

No negro da escuridão

Sou mulher que me chama

Chama escondida

Cinzas no chão

Na transparência do vidro

Sou a mulher que se parte

Coração em estilhaços

Traços de uma canção

Na esperança da vida

Sou mulher de todas as estações

Lua de todas as fases

sol batendo nos esquadros

pétalas que abrem e fecham

semente,

somente. 

Nesse mundo ecossistêmico, muitos dizem que os comportamentos das mulheres são regidos pela lua, pelos planetas. Verdade ou não, a mulher é um mistério, como bem diz os versos da música dos Raimundos: complicada e perfeitinha\Você me apareceu\Era tudo que eu\queria\Estrela da sorte\Quando à noite ela surgia\Meu bem, você cresceu\Meu namoro é na folhinha\Mulher de fases”. Essa simbologia é enfatizada nos versos da poeta/professora e que estão no livro “Outras Palavras”, obra lançada em 2014.

A escritora ainda é autora de “Impressões em Haikais” (1995), uma obra composta de pequenos textos, mas com profundos significados, como se pode ver a seguir: “Intiriço que nem/cantiga de grilo/os ais são mais”. Silvana Meneses é ainda autora de Embarcações (1988), A Olho Nu, (1992), Estação Poesia (2008), Reação, (2014) e O Intenso Instante, (2018).  Nesse ir e vir da poética da Doutora Silvana, é louvável o seu processo de criação, pois ela passeia pelos altos e baixos em sua contextualização, por isso torna-se muito fácil falar de seus textos, como disse Inês Maciel ao prefaciar uma de obras “Seus poemas são estrelas, rios, chuvas, mares, dores, amores, sonhos, buscas... Luzes! Cintilantes, de intensos instantes que se eternizam!” Como podemos comprovar nos versos, (retirados do livro O intenso Instante),

não  tenho como ser menos

quando a vida pede mais

não tenho como ser pouco

quando o mundo é muito

como não tenho como ser pequena

quando o amor é grande

não tenho como escapar

se o instante tem pressa. 

           E é assim, nesse universo cheio de mulheres\estrelas que brilham nos céus da capital maranhense, que trazemos à tona a história literária e artística dessas três constelações de alta grandeza, que enchem os palcos da vida, seja dos teatros, seja na sala de aula, seja nas prateleiras das livrarias (físicas ou virtuais). E para dizer também, que o universo por si só já é pleno com suas constelações, mas que seu brilho é mais intenso na companhia majestosa e brilhante do mulherio das Artes e Letras.

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*Membro da Academia Poética Brasileira, seccional MA.

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